Quem é você?

•janeiro 21, 2012 • 1 Comentário

Indo Dormir I

Ele podia ter uma arma, mas eu tinha a garrafa que ele mesmo deixou cair e, também, alguns reflexos, coisa de sóbrio. Só não tinha experiência nessas coisas, mas precisaria, não? Quem iria proteger a porta de entrada, algum dia, se não o homem da casa? Coisa que me tornava a partir daquele momento, enquanto o Outro deixa o cargo em aberto e o pequeno não conseguiria, não chorando do jeito que estava.

O Outro poderia ter morrido, seria tão mais fácil, mas anos depois, muitos anos depois, eu saberia que não era assim que a vida funciona. Talvez ainda não saiba realmente, de tão depois que eu descobrirei, mas eu sei que foi melhor ter deixado ele lá destruindo tudo e gritando baixaria, enquanto eu encorajava a minha mãe a entrar no táxi para lugar algum – nessas horas quase todos os seus parentes e amigos fecham as portas na sua cara, mas eu guardaria o rosto de cada um deles antes que negassem ajuda. No final, ficou decidido que seria um abrigo provisório, casa da madrinha dela, que foi tão querida enquanto viva, mulher de coragem. Coragem que precisamos para voltar pra casa e tirar o Outro de lá. Não foi fácil e eu poderia usar minhas mãos para algo pior, se precisasse, alguns filmes de pequenos heróis e uma cabeça de pouca razão formada me permitiriam (e como tudo era mais fácil de ser solucionado do que hoje, devolvam-me aqueles dias, mas sem o Outro). Mas preferi,  como se toda a decisão coubesse a mim, deixá-lo de canto, preso na própria cela escura daqueles que seguem, por vontade própria, o caminho ruim.

Mas, vontade própria? Não saberia, nunca. E que caminho é bom? Isso não interessava, não ali. Tudo o que eu sabia é que eu sabia demais para alguém da minha idade, ou talvez nem isso, porque não percebi a tempo que aquilo não estava em meus problemas, que viriam aos montes, anos depois. Tantos anos depois, que nem chegaram ainda. Hoje, posso disfarçar as únicas cicatrizes e não guardo rancor ou traumas, mas um pouco mínimo de sabedoria e algumas memórias ruins. Também aprendi que algumas perguntas não têm, ou não precisam de respostas.

Totalmente fictício e nada autobiográfico. Indo Dormir tem a pretensão de ser uma sessão do meu blog onde os pensamentos mais ocultos se transformam em pequenos contos ou crônicas, pensamentos esses baseados em memórias, pessoais ou não. Quis começar contando uma história da infância, de alguma infância por aí que tenham me apresentado, e de algo que tenho raiva e destrói famílias por onde passa:  álcool. O personagem será sempre esse, meio eu, talvez, mas nem sempre eu – tecla que eu volto a bater para deixar bem claro – e ainda não sei com que nome batizá-lo.

Inexplicável aperto no coração

•janeiro 18, 2012 • 2 Comentários

Inexplicável aperto no coração que me deixa perdido. Engraçado como hoje cedo eu acordei e pensei  “quero escrever sobre algo que me faça sentir bem, um final feliz”, afinal, estava com essa sensação de felicidade, sentia-me completo por dentro. Como se todas as peças estivessem no lugar. Agora, um vento levou tudo, inclusive a coragem de pô-las no lugar. De fato, inexplicável.

Pode ser o coração contra a razão, ou uma razão maior que sabe que o coração está certo. Pode ser besteira. Pode ser o ócio. Mas, se souberem , expliquem-me.

2011

•dezembro 27, 2011 • 6 Comentários

Eu sabia que não seria um ano fácil, apesar de ter alguns (talvez mais do que apenas alguns) planos, havia muita coisa indefinida na minha vida para 2011. Ano que começou com duas conquistas: aprovação na UFABC, pelo ENEM, e na FUVEST. E isso me levou para uma decisão difícil e muito importante.

            Optei pela Universidade Federal do ABC, que, caso vocês não saibam, será a melhor e maior universidade do Brasil em alguns poucos anos. Brincadeiras (ou não) à parte, não me arrependo nunca de ter decidido por estudar em Santo André, a faculdade me impressiona e me prende cada vez mais, apesar do sofrimento anunciado anteriormente com as férias até maio. Oras, férias até maio deveria significar alguma coisa, e, de fato, queria dizer “aproveite os últimos dias da sua vida”, ou quase isso.

            Aproveitei esse tempo do jeito que tinha que ser, fui a shows, saí com amigos, escrevi muito e muitas bobagens que foram parar nesse blog, dormia até tarde, cuidei das burocracias irritantes de quando se está para fazer 18 anos, e não cheguei perto de qualquer material de estudo. Talvez até março (ou seria fim de fevereiro, nem me lembro mais) não estivesse aproveitando tanto, mas depois consegui finalmente relaxar, seguindo adiante minha vida e deixando alguns tristes e cansativos problemas para trás. Apesar da calmaria, aguardava ansioso pelo começo das aulas, no dia que parecia se afastar, ao invés de se aproximar, com o tempo, dia 23 de maio.

            Foi o ano que eu mais tive coragem, também. Fui no temido dia do trote, na faculdade, deixei que raspassem meu cabelo e fiquei totalmente careca. Estranho, mas necessário, eu tinha orgulho de estar careca. O sistema de locação de turma conseguiu me separar de todos os meus amigos que estavam ingressando comigo, o que acabou sendo bom, no final das contas. Uma conversa sem pretensões na porta de um laboratório acabou me fazendo conhecer pessoas muito importantes que definiriam meu dia a dia na UFABC. Amigos que aguentam meus dramas e minhas mentiras, que me salvam quando eu estou passando mal ao me comprar uma garrafinha de água e me acompanhar nas demoradas viagens de trem, que falam de boas músicas, livros e jogos, com quem passo tardes e noites estudando e sofrendo, que me passaram uma gripe que me fez alcançar os 40 graus de febre, que vieram de muito longe, que me emprestam e me dão lapiseiras, que não cumprem promessas, que me levam a festas, ao DCE e tantos outros lugares. Dei muita sorte ao conhecê-los!

            Além disso, a UFABC me ajudou a definir, em partes, o que quero do meu futuro. Me aproximo cada vez mais da ciência e vejo outras possibilidades com a computação, mesmo que isso possa mudar na minha cabeça com o tempo, que ainda tenho de sobra.

            Grande ressalva para aqueles que seguiram caminhos diferentes e que, mesmo não os vendo com tanta frequência mais, continuam junto comigo. Também àqueles que vieram comigo, tornando isso tudo menos assustador. Mesmo àqueles que vão ou foram embora para outros cursos, com grande coragem e determinação. E aos que estão chegando. Todos vocês continuam tão importantes quanto sempre foram para mim  e as reuniões, sejam aquelas em que fizemos as receitas como o X-AVC, ou outras como as dos bares, restaurantes, parques e panquecas, só reforçam isso.

            Quanto a maioridade, não mudou muita coisa. Continuo não bebendo e nunca me preocupei muito com faixas etárias. A grande diferença foi a burocracia ridícula que é o alistamento ao serviço militar, do qual fui dispensado, e a carta de motorista, que uma hora deve sair, espero. Agora – e por enquanto – sou pesquisador e estou recebendo bolsa da faculdade por isso. Não pretendo trabalhar enquanto não puder entrar no programa de estágios da UFABC. Percebi que manter as notas altas é uma tarefa bem árdua. Ainda não desisti de ser escritor, mas ainda acho que não sei muito bem o que isso significa. Também tenho me envolvido muito, muito mesmo, com quadrinhos, mais do que meu dinheiro suporta.

            Foi um ano muito bom, diferente de todos os outros anteriores, um dos melhores como deveria ser. Talvez o universo tenha conspirado um pouco mais para me irritar, mas eu não ligo. Eu estou exatamente onde queria estar, talvez até melhor do que esperava, e isso que importa. Quanto ao ano que vem, não faço novos planos, mas mantenho os meus anteriores, entre eles aprender a andar direito de bicicleta. A única exceção é o acordo de estudar todos os dias, pelo menos um pouco, para não entrar em desespero como no último quadrimestre do ano, ideia que começou com a operação “Salve seu Quadrimestre”.

            Feliz 2012, pessoal. E comentem aqui qualquer outra coisa que lembrarem.

PS: PENTA CAMPEÃO BRASILEIRO! VAI CORINTHIANS!!!

PS2: leiam Maria, minha última publicação, e também os outros textos do ano, tem bastante coisa escrita por aqui. Obrigado a todos que acompanharam o blog durante 2011!

Maria

•dezembro 27, 2011 • 2 Comentários

Estava em disparada, como se o mundo às suas costas estivesse desmoronando. Corria em busca de um lugar onde pudesse parar e encontrar um novo caminho seguro para sua vida, corria para se manter viva. Montada em Caveira, seu fiel cavalo negro, ela evitava olhar para trás, para que não visse seus perseguidores. Os soldados de armadura preta, que carregavam o dragão vermelho em seus peitos, brasão do Senhor Draco que protegiam, eram conhecidos pela sua frieza quando executavam uma tarefa. Não haveria tempo para que ela reagisse, apenas deveria fugir, sem perder a atenção em nenhum momento naquela floresta densa e de poucas passagens visíveis.

 Havia uma trama que a fizera chegar àquela situação, envolvendo política e planos que arruinariam a vida de milhares de habitantes de uma cidade, mas nada disso vinha à sua mente naquele momento. Tudo o que conseguia pensar era na traição que sofrera. A cada momento que se deixava pensar nisso, machucava-se com algum galho que não percebia, ganhando pequenos cortes em seu rosto.

 Confiara a Linda, sua melhor amiga e confidente, todos seus planos. Contara que visitaria o castelo para ameaçar o Senhor e que tinha as cartas necessárias para terminar aquele jogo de forma vitoriosa. Também tinha a força necessária para, se algo desse errado, lutar.

- Eu encontrarei você lá, me espere, caso chegue primeiro. Deixarei uma marca em frente ao portão, você saberá reconhecer, entre apenas se a vir – dissera Linda à Maria, que acatara, apesar de relutante por não saber como Maria se viraria lá dentro.

De fato, havia um lenço vermelho, que não passava de um pedaço de pano largado, mas que Maria soube reconhecer como um pertence de sua amiga. Entrara, ainda sem desconfiar de nada, sendo logo rendida pelos soldados do Senhor, que a esperava em seu trono. Ele estava acompanhado por Linda, que o havia adiantado todo o plano de Maria. Foi levada para outra sala, longe dos guardas, onde os três se encararam e toda a cruel verdade foi dita. Sem toda aquela força que tinha, abatida com palavras que feriam mais que ferro, em estado de choque, tudo que a restava era um pouco de controle para evitar que as lágrimas caíssem. Nada conseguiria dizer, então fugiu.

As palavras ficariam gravadas:

- Tarde demais, Maria. O homem está morto.

- Mas você não fez nada para deter esse monstro, Linda? – perguntara ingenuamente.

- Sua amiga fez, Maria. Ela me entregou a cabeça do homem que a ajudaria, antes que você pensasse em fazer sua ameaça.

- Isso não pode ser verdade. Linda?  – não houve resposta, nem troca de olhares, Linda permanecia cabisbaixa, com vergonha. – Linda, me diga que não é verdade. Por quê? Por quê?

- Porque é o que eu queria – respondeu, então, Linda, erguendo seu rosto, com uma expressão de felicidade e vitória. – Você acha que chegaria a algum lugar com tudo isso? Iria salvar a cidade inteira e não conseguiria nada com isso! Tudo ficaria para o seu heroizinho. Nem o amor dele você teria, eu mesma dormi com ele antes de entregá-lo a Draco, aproveitar aquele corpo enquanto ainda havia tempo – ela caminhava em torno de Maria, carregando seu longo vestido vermelho com as mão como em uma dança lenta, movimentos delicados e sedutores em contraste com sua agressividade e provocação de suas palavras. – Eu ficaria com ele, no final. Você continuaria sozinha. E, ah, não me culpe, mas me agradeça. Se não fosse por mim, você nunca teria sentindo o gosto de ter uma companhia em sua vida, uma amiga que fosse. Nenhum homem gosta ou gostará de você. Nenhuma mulher gostaria de sua companhia, nem se sentira próxima de você, você é diferente de todas, indelicada, descuidada, uma monstra! Sinta-se honrada de ter tido minha companhia, um dia – e seguiu para o lado de Dracol, o qual se apoiou de maneira sensual.

Maria mal podia encarar aqueles olhos pecaminosos de Linda, que era a perfeita descrição de princesas dos mais belos contos que se contavam entre os homens, mas com um toque realista, como ela adorava reforçar, que a tornava mais humana, e mais cobiçada pelos aventureiros, soldados e reis. O Senhor observava tudo friamente, com uma pequena contração em seu lábio, algo que parecia um sorriso de deboche e satisfação, esperando por sua deixa:

- Ainda há chances, Maria, faça como Linda e esteja ao meu lado quando eu for o Rei – apenas dissera.

A resposta veio da última parcela de coragem que sobrava naquela mulher:

- Eu prefiro morrer ao lado daqueles que vim proteger e, guarde minhas palavras, essa vadia ainda o irá trair – tudo o que conseguia pensar ali, nada mais fazia sentido.

Nada poderia fazer sentido, toda aquela crueldade de Linda era contraditória. Era impossível imaginar que sua amiga de anos e planos diria aquilo. Não se lembrava se ouvira algo a mais depois, apenas ouvia sem parar “monstro” e “nenhum homem gosta ou gostará de você”, cortando seu coração que antes era aquecido com coisas como “coragem, minha bela amiga” e “ele cairá de amores por você”. A pior parte era saber que tudo era verdade, nunca teve confiança em si mesma, mas Linda a ajudava a ignorar isso, com uma gostosa ilusão de que era bonita e carismática. Não se sentia mais, sequer, uma mulher.

Caveira corria tão rápido quanto podia, mas sua resistência não duraria muito mais tempo naquele ritmo, e os incansáveis soldados de Draco não se esgotariam logo. Tentava proteger sua dona, mas ela parecia estar cada vez mais longe, quase desviando do curso e passando por lugares demais apertados, o que estava deixando o cavalo confuso. Percebeu que as mãos de Maria estavam soltando de seu pescoço, ficando mais leves, o que era diferente de seu habitual tato pesado, e relinchou para chamar sua atenção.

- Pare  Caveira! – gritou Maria, quando percebeu que estava quase desligando-se completamente de seu objetivo. Desceu do cavalo e olhou para trás para ver quanto tempo ainda tinha. – Escute-me, fiel amigo. É aqui que nos separamos, vá para a cidade, fuja o mais rápido que puder, eles entenderão o que sua presença sem mim significa. Sei que sou uma guerreira importante para eles, apesar de não se importarem muito comigo – riu daquela triste situação. – Não sei se você algum dia me entendeu, mas obrigado – beijou-lhe e fez com que partisse. – Que venha o fim, mas não sem luta – disse para si.

Os soldados não tardaram a chegar e, sem delongas, sacaram suas espadas e partiram para sua tarefa. Não havia gritos nem emoções, apenas a frieza de um assassinato profissional. Maria, por sua vez, chorava a cada golpe que dava ou recebia, sabia que não tinha chances ali, soubera desde que desistira da fuga, deixando Caveira ir. Aos poucos, ia se rendendo. No final, foi muita a dor que sentira, mas durara pouco, menos do que teria durado se persistisse.

Maria foi uma guerreira que perdeu para o mundo.

Vidas Breves

•outubro 19, 2011 • 1 Comentário

Carlos, o pequeno garoto, anda pelas ruas sozinho, com seus fones de ouvido tocando a música no último volume para abafar seus pensamentos. Ele sabe que se parar, ou abaixar o volume, não vai gostar do que tem visto e, se ele deixar isso acontecer, vai odiar tudo o que tem vivido.  Não há o que se fazer quando se está insatisfeito do jeito que ele normalmente fica, e ele já não aguenta mais pensar em uma solução para mudar sua vida. De fato, já não é mais tão pequeno garoto e, logo, não é visto como um coitado, mas como um estranho.

                Quando é visto.

                A pior parte é se sentir sozinho do jeito que ele se sente. Passa em frente de uma igreja e vê pessoas cantando algo que não devem praticar, ou sequer entender. Fica parado em frente, olhando pela porta aberta à espera de fiéis, procurando por alguém da sua idade. Encontra alguns tocando no altar, cantando de olhos fechados. “Cegos.” Sabe que não o entenderiam, com suas vidas alegres e preenchidas. Ele continua andando.

                Talvez vá pra casa, ou mesmo poderia passar na casa de seus avós, o que parecia ser uma opção um pouco melhor, uma vez que não havendo uma nuvem no céu e não tendo obrigações pendentes, poderia voltar no horário que quisesse, sem se preocupar. Apenas ele se preocupa, ninguém na sua casa percebeu que ele saiu. Pode dizer que não se importa e que não gosta que o vejam como um coitado, mas é humano e sabe que gostaria de ter alguém para se ter como um próximo. Pelo menos, tinha seus avós sempre o esperando com algo bom para comer.

                Crise existencial de domingo, assim pensa e continua prestando atenção na música, descendo a rua em direção à avenida. Domingos são um saco, falta o que se fazer e sobra o vazio preenchido pelas tarefas da semana. A vida era um grande vazio que não parecia querer se preencher.  Perdera a noção do que estava ouvindo e se encontrava pensando sobre tudo mais uma vez. Não gostava dos fones quando não estava ouvindo as músicas com atenção, por isso os tirou e guardou no bolso.

                – Hey, eu até que estava gostando desse barulho que você estava ouvindo. Por que desligou?

                Carlos virou e, à princípio, não viu ninguém. Mas ele estava ali, um menino aparentemente da sua idade, exceto pelas roupas antiquadas e incoerentes com sua juventude. Pensou em seguir e ignorar, mas acabou decidindo que não havia nada de errado em puxar conversa com aquele estranho.

                – Ahn, acho que estava muito alto. Deixei de prestar atenção na música há alguns metros. Há quanto tempo você estava… Ouvindo?

                – Algum tempinho. Mas então, está indo para algum lugar? – ele estava, agora, ao lado de Carlos, e não mais atrás, acompanhava-o em seu caminho.

                – Eu acho que vou pra minha vó, não tenho muito o que fazer hoje. E você?

                – Estou apenas andando por aí, também não tenho muito o que fazer. O que você acha de irmos até a quadrinha? Quase sempre tem alguém jogando bola por lá. Pode deixar a visita aos seus avós pra depois?

                – Não sou muito de jogar bola.

                -Ah, entendo.

                Os dois seguiram por alguns passos sem dizer nada. Carlos achou a sua resposta um pouco fria com aquele cara que estava tentando ser tão legal e, após reavaliar a proposta, considerou que o máximo que poderia acontecer era se machucar jogando. Um pouco de dor, pelo menos, o faria se sentir vivo. – Pensando melhor, eu topo – disse, finalmente.

                —

Eles conversavam sobre partidas, times favoritos, ídolos, micos que haviam pagado jogando e aqueles lances milagrosos que só acontecem em uma ou outra pelada e que ficam marcadas como feitos históricos em suas vidas. Mas toda essa empolgação gerada se esvaiu quando chegaram ao campo, que estava sem ninguém, sequer uma bola sobrando para que pudessem treinar alguns chutes a gol.

                – Haha, decepcionante – disse Carlos. – Acho que vou pra minha vó, já que não vamos mais jogar.

                Eles foram até o centro da quadra, onde o novo amigo de Carlos se sentou, rapidamente, simulando uma queda.

                – Que chato, eu esperava que tivesse alguém jogando aqui, sempre tem – Carlos estranhou um pouco o modo com que ele disse isso, como se fossem palavras premeditadas e ele já soubesse que não haveria ninguém naquele lugar. – Senta aí, ou está com pressa pra ir pra sua avó?

                Sentou-se sem dar uma resposta. Até quanto poderia confiar nele? Não sabia, mas já estavam conversando novamente sobre coisas do cotidiano, com Carlos descrevendo as muitas coisas que o ocupam durante a semana. Não se sente à vontade falando de nenhuma delas, mas continua porque pensa que é o único assunto que pode ser interessante naquela conversa. Logo, o silêncio toma o ambiente. Uma fina garoa cai sobre eles, mas eles não ligam, talvez nem tivessem percebido.

                – Mas você gosta disso tudo? Me parece um pouco pesado demais – pergunta de maneira tímida, o estranho, que, deitado de costas para o chão, olha para o céu.

                – Me faz bem, é bom estar ocupado.

                – Também me parece ser uma rotina muito solitária. Digo, está cheia de pessoas envolvidas, mas você não comentou sobre nenhuma delas em particular.

                – Talvez seja – e ele tinha chegado em um ponto que Carlos preferia evitar. – Não acho que precisamos de pessoas próximas para viver. Talvez de uma ou outra, mas não o tempo todo.

                Como se ignorasse a resposta, o menino continuou seu interrogatório que não era muito diferente do que Carlos fazia a si mesmo quase sempre. Não gostava quando essas perguntas surgiam por conta própria na sua cabeça, muito menos quando eram feitas por outras pessoas. Mas, dessa vez, sentia-se obrigado a respondê-las com sinceridade, pois, com aquela estranha figura, não havia necessidade de se esconder atrás de mentiras e demonstrações de forças que não existiam.

                – Nunca tentou se apaixonar? – continuou.

                – Não sei se esse tipo de coisa a gente tenta, acho que acontece, não?

                – Você acha? – ele se levantou, ficando sentado novamente, para olhar para Carlos, esperando pelo o que ele iria dizer.

                – Eu não levo jeito para essas coisas. Mal consigo chegar perto das meninas da minha sala, elas me acham estranho.  Nunca tentei. Nunca tentei me apaixonar – desviou o olhar, por um pouco de constrangimento, pois sentia-se confessando que era um perdedor, incapaz de conquistar uma garota, desde sempre.

                – Eu também não era muito bom com isso. Ou melhor, não sou – corrigiu. – Mas acho que é assim mesmo, não temos nada com que nos preocupar. Eu não te acho estranho, apesar de achar muita das pessoas por aí estranhas. A grande maioria, até. Você pelo menos fala coisas verdadeiras, reais. Sabe, eu acredito no que você diz, já as outras pessoas parecem sempre dizer a mesma coisa.

                – Mas não é legal se sentir sozinho rodeado por tantos outros, que parecem se dar tão bem.

                – Conversando com eles, você vai continuar se sentindo do mesmo jeito.

                O que Carlos sentia falta era de alguém como seu novo amigo, que o entendesse e conversasse sobre tudo, para ouví-lo mesmo quando não fosse algo legal ou divertido. Precisava de mais conversas como aquela.

                – Você tem que se aproximar daqueles que você gosta, correr atrás. Desculpa, não sei se isso faz sentido, te perguntar se não se sente sozinho e depois falar que as pessoas não são boa companhia, mas é que era assim que eu me sentia. Não é fácil encontrar alguém como você ou eu – disse o garoto. – E também não é fácil encontrar bons amigos nesse mundo e nem manter aqueles poucos que conseguimos ter.

                Mas conversas como aquelas eram raras e duravam pouco. Acabavam bruscamente deixando sempre algo a dizer e quase nunca continuam de onde param, deixando espaços abertos que somos forçados a esquecer.

                Começava a chover forte, agora.

                – Tenho que ir – terminou seu amigo.

                – Eu acho que eu também. Mas, qual é o seu nome?

                Carlos estava sentado sozinho no círculo central da quadra, o garoto já estava de pé, no pequeno portão de saída olhando para trás.

                – Venha logo Carlos, essa chuva não vai te fazer bem – mas Carlos não lembrava de ter se apresentado em nenhum momento, do mesmo modo que não o vira se levantar e andar todo o espaço até a saída.

                – Pra onde você vai? – se levantou e tentou alcançá-lo, mas ele já estava adiantado na rua.

                – Embora, tenho que ir – sua voz mal podia ser ouvida e sua imagem estava distrocida pelas gotas pesadas de chuva que caíam bravamente, acompanhadas de ventos e trovões.

                – Mas onde ou quando posso te ver? – já não gritava, via seu amigo distante demais e perdia as esperanças de que fosse ouvido. Também desistira de correr.

                – Você não está sozinho, nunca entre em desespero. E não fique tão triste com a vida, é muito novo para isso. Somos e seremos pra sempre muito novos para isso. Desculpe, mas tenho mesmo que ir agora – ele gritava a plenos pulmões enquanto corria para longe.

                Carlos chegou enxarcado em casa, livrou-se da roupa molhada na lavanderia e correu para o banheiro. Estava, ainda, sem entender muito bem o que aconteceu naquela tarde. Por um lado, foi uma das melhores conversas de sua vida, e em um domingo, o que deixava tudo mais incrível. Por outro, sentia-se muito triste, pois não acreditava que veria aquele amigo novamente. Ligou o chuveiro e ficou mais tempo do que o habitual embaixo da água quente, apenas pensando sobre tudo o que conversara.

                Estaria ficando louco e teria ficado a tarde inteira falando sozinho no meio do nada? E por que não percebera a chuva chegar? Era uma tarde seca de inverno, o céu estava claro mais cedo, tanto que havia decidido visitar seus avós.  A incompreensão se tornava desespero aos poucos. Medo do que não era normal, podia estar lidando com espíritos, ou consigo mesmo, o que era mais assustador.

                Colocou um pijama e deitou-se em sua cama, sem comer ou dizer pra sua mãe que estava em casa. Ainda era cedo, mas não queria fazer mais nada e nem conseguiria, estava absorto na reviravolta que aquela breve conversa havia gerado. Finalmente, após muito enrolar, virar e se mexer entre seus lençóis, conseguiu dormir.

                Nunca mais viu seu amigo que nem nome tinha, para ele. Mas passou a jogar futebol naquela mesma quadra a todo domingo, na esperança de um dia reencontrá-lo.  O tempo passou e ele se casou com uma garota que conhecera ali no campo, onde ela o assistia caindo repetidamente enquanto tentava fazer alguma coisa com a bola para não ser xingado pelos outros moleques. Seguiu bem, sem nunca esquecer aquela conversa.

 

O Ursinho Fumante

•setembro 30, 2011 • 2 Comentários

O ursinho fuma, mesmo ele sabe que irá morrer logo e que não há motivos pra tentar adiar sua ida. Por ele, seus pelos e seu algodão que o preenchem internamente estariam em chamas, mas sua dona, uma doce e quieta menina, não o permite que extrapole. Ela se assustou quando o viu com um cigarro pela primeira vez, o tirou de sua mão e disse que aquilo não deveria se repetir, pois “cigarros matam”. Ele não a ouviu, e continuou com seu mau hábito, mas escondido. Logo, ela já não era tão pequena e já não ficava tanto tempo em casa, tinha amigas.

Foi um grande problema quando ela resolveu as levar na sua casa, pra brincar com os seus brinquedos e chegaram no momento em que ele  acendia mais um cigarro. Todas as meninas gritaram, exceto a dona do ursinho, que o pegou com força e o largou em cima do guarda-roupa, onde não acharia nada para fumar. Mas o ursinho era esperto e conseguiu pular para o chão para se esconder embaixo da cama dela.

Ele estava tragando tranquilamente quando a cabeça da garota apareceu, virada para baixo, dizendo “urso idiota, eu sempre soube que você estava aí”. Ele até ficou surpreso, mas não ligou, ela o esqueceria em pouco tempo, tinha certeza disso, pois agora ela tinha tarefas escolares mais complexas e um celular para mandar mensagens sobre meninos babacas que não davam a mínima pra ela.

E o tempo passava e ela também adquiria maus hábitos, mas o ursinho nunca iria reclamar desses, enquanto sobrasse um gole que fosse, nos copos das diversas bebidas baratas que ela trazia para o seu quarto, mas não aguentava beber por inteiras. Aquela música gritada e alta era o único incômodo. Ele começava a se identificar com a garota, principalmente pelas histórias que ela sempre contava para o seu fiel amigo gay, ouvidas de sua residência empoeirada e de anos a fio.

Certo dia, o teto do ursinho estava balançando demais e muita poeira estava caindo sobre ele. Havia mais de uma pessoa deitada ali e ele tinha certeza pelas vozes ofegantes. Se empurrou discretamente para fora dali, para poder espiar e gostou do que viu. A menina não tinha mais corpo de menina, mas de mulher. Suas roupas femininas se misturavam às masculinas de alguém mais, no chão. O ursinho se posicionou onde poderia assistir aos movimentos do corpo de sua dona, que aos poucos perdia a timidez. Acendeu um cigarro e gostou do que viu, ela mal o notou quando saiu do quarto para acompanhar seu namoradinho para a saída.

Com excesso de fofura, mas um desapego fatal à vida, as coisas eram daquele jeito mesmo e nada havia a fazer, senão esperar tudo acabar. Ela chegou com lágrimas escorrendo de seus olhos vermelhos e sentou-se na cama, com o ursinho em seu colo. “A vida é uma merda mesmo, amigo urso. Me dá um cigarro” e, então, os dois passaram o resto de uma tarde ali, fumando.

É metafórico, crianças.

Eu voltei, meu amor

•setembro 24, 2011 • 1 Comentário

Não cabia mais ninguém no carro, e mesmo se coubesse, Raul não deixaria que a única pessoa que sabia para onde estavam indo fosse junto. Apesar de ela ser o motivo do que estavam prestes a fazer, era preciso que ficasse protegida em casa. Carlos e Felipe eram experientes em roubos de caixas eletrônicos e garantiram que nada sairia errado e que todos estariam salvos no fim daquela noite.

Ana Beatriz estava preocupada com seu parceiro, pois há duas semanas havia lhe contado que eles teriam um filho. Ele sorriu e a abraçou forte no momento do anúncio, mas ela pode notar que, nos dias que seguiram, Raul manteve uma expressão fechada e séria, falando pouco. Então, ele contou todo o plano para ela.

Não era justo, nunca algo fora justo para Raul e ele decidiu mudar isso com as próprias mãos. Conhecia caras que conheciam outros caras que, por sua vez, conheciam jeitos para fazer vidas pobres mudarem. “Ladrões?”, pensava, “Não importa”. Seu filho teria a vida digna que ele mesmo nunca sonhou em ter.

Ambos eram de famílias muito simples e Ana não sabia se queria que isso mudasse. Pelo menos não dessa forma. Por mais que quisesse que o dia do roubo nunca chegasse, o tempo parecia escorrer de seu controle, enquanto tentava inutilmente convencer Raul de que isso não era preciso. Enquanto tentava tomar uma decisão própria sobre se isso era tão errado quanto pensava. Mas ela não o condenaria pelo o que ele fizesse, ele apenas queria o melhor para o seu filho.

Os homens já estavam posicionados, os seguranças estavam devidamente “acomodados” no porta-malas do carro, as câmeras desativadas e as bombas implantadas. Seria uma ação rápida.

Em seu quarto ela rezava as orações que sua mãe a ensinara quando era uma criança, para que fossem usadas em momentos de aflição. De repente, um arrepio percorreu todo seu corpo, fazendo com que sua visão ficasse turva, escurecendo até o ponto de estar no breu, desmaiada de joelhos, com o tronco deitado na cama.

A polícia também foi rápida e o roubo menos planejado do que haviam garantido. Um dos tiros foi certeiro.

- Você vai voltar lá e continuar o que começou. Não há mais cor em você, diferente dos outros e livre de julgamento, julgue-os. Que a justiça seja feita – foram as palavras da figura mais indescritível que Raul jamais tinha visto.

Quando souberam o motivo da morte de Raul, sua família o renegou, não comparecendo em seu enterro. De fato, a única que o entendia era sua amada, Ana, que também foi a única a presenciar sua despedida final. Ela não conseguia expressar em palavras o que sentia, suas mãos não saíam da barriga, como se protegesse sua criança que estava vindo a esse mundo cinza. A morte dele não foi justa, nem certa, e ela não a aceitaria, mesmo com todos os meios de comunicação, familiares e policiais dizendo o contrário.

De preto, cabisbaixa, ela caminhava em direção à saída do cemitério, acompanhando pelo uivo do vento que esfriava aquela tarde pouco ensolarada. Seus olhos estavam vermelhos das horas que passara ali chorando. Dúvidas sobre o futuro, memórias do passado e arrependimentos do presente se confrontavam em sua cabeça.

“Chorando por um bandido, não foi pra isso que te criei! Esse filho ficará melhor sem um pai, mesmo!” dissera sua mãe, quando Ana lhe deu a notícia da morte. Seu pai sequer olhou em sua cara, desde o acontecido, pois ele soube como ocorreu. Era muita frieza, realismo cortante e sufocante. A realidade era apenas, de fato, uma mulher de preto chorando pelos pecados no portão do cemitério, vivendo com pessoas que diziam não errar, mas que matavam mais do que armas, sem saber. Ninguém é inocente, na realidade.

Uma mão pesada se pôs no ombro dela. Um toque que ela conhecia mais do que qualquer outro. Virou-se rapidamente e o abraçou antes mesmo de verificar se realmente era quem imaginava ser.

Era Raul, mas sua pele estava cinza, sem vida, e seus olhos eram vermelho sangue. Mesmo assim, Ana Beatriz sabia que era seu homem ali, na sua frente.

- Eu voltei, meu amor, não chore mais. Nós daremos uma vida justa para essa criança, mesmo que para isso nossas mãos fiquem sujas desse sangue podre dos homens. Que comece a chacina.

Eu quero que todos morram por zumbis vingadores.

Últimas palavras de um homem poderoso

•agosto 23, 2011 • 3 Comentários

Eles estavam em um quarto comum de garota, decorado em rosa e com ursos de pelúcia distribuídos em prateleiras, também ocupadas por coleções de livros, e no chão, junto a algumas peças de roupas desorganizadas. Era o único cômodo da casa no terceiro andar, a cortina que impedia o sol de entrar estava furada em muitos pontos, deixando passar os últimos raios de luz do fim daquela tarde. Havia uma moça imóvel em uma cadeira e uma gaiola de hamsters vazia em uma mesinha próxima à janela, de modo que a única figura que parecia estar viva ali fosse um homem que andava inquieto para todos os lados e falava sem ouvir resposta nenhuma.

            O homem tinha barba e cabelo compridos e grisalhos, criando um contraste com a mulher, que não passava de uma menina em um vestido florido. A lâmpada não precisava ser acesa, pois dos olhos da garota vinha uma luz que iluminava o suficiente para que ele andasse sem esbarrar em nada.

            Essa luz projetava cenas na parede em que incidia, como se a película de um filme estivesse rodando dentro da cabeça da garota. Podia-se ver várias pessoas interagindo na imagem, na perspectiva de quem havia gravado. Aos poucos, percebe-se que todos falam com a garota de onde vem a luz. Pais carinhosos, falando palavras inteligíveis, daquelas que divertem os bebês; crianças em uma sala de aula, pintando com as mãos; garotos em uma sala, grande parte dorme enquanto a professora explica a matéria; jovens conversando em um shopping; uma pista de dança lotada; um homem sozinho. As cenas eram aleatórias e algumas se repetiam, sendo observadas pelo homem que estava com uma expressão derrotada e cansada.

            No quarto, ele falava, parando apenas em alguns intervalos pra respirar e ver, inutilmente, se ela diria algo.

            – Minha linda, o que eu estou fazendo, afinal? – ele caminhou até a janela, afastando a cortina para olhar para fora, por um momento, antes de continuar. -  Pensando bem, é tão comum falarmos com nossas memórias, não? Tudo aquilo que ficou guardado e que precisa ser dito quando as coisas parecem não terem se encerrado totalmente.

            Nem a boca, nem nada no corpo dela se movia, ignorando totalmente a presença daquele senhor, que permanecia de costas para ela, olhando pela janela. As imagens na parede também não eram afetadas por nada do que ele dizia.

            – Você fugiu de mim. Uma, duas, três, várias vezes. Eu só queria o seu bem, eu a faria  rainha desse mundo, ninguém poderia lhe fazer mal algum. Eu não lhe faria mal nenhum, seria seu  eternamente. Você não entendeu o que era viver eternamente. Eu lhe ofereci, mas você não entendeu e por isso não aceitou – fechou a cortina bruscamente e virou-se para ela, que agora estava de costas para ele. -  Você era pra ser minha, garota estúpida! E agora vai entender o que é a eternidade, pois daqui nunca mais sairá!

            Os braços do homem ameaçaram agredir a menina indefesa, mas se contiveram. Ele apenas os cruzou e continuou andando pelo quarto, ainda inquieto.

            – Você vê essas mãos? Elas estão fracas e velhas, e a culpa é sua. Mesmo se eu tivesse forças para lhe machucar, agora, eu não poderia – ele se posicionou na frente dela, ficando de joelhos, sem se importar com a forte luz e as cenas, que agora ilustravam seu corpo e sua roupa -  Apenas um toque e eu ficaria que nem você, preso aqui para sempre. Viver memórias para sempre é a última coisa que eu quero.

            Ele estendeu a sua jaqueta escura com as duas mãos, para ver as cenas que estavam passando nela. Fechou os olhos por alguns segundos, refletindo sobre o que iria fazer. Estava no quarto com ela, havia duas semanas.

            – Eu sou um homem muito paciente, tenho todo o tempo que quiser. Esse feitiço exigiu muito de mim, mas agora eu só teria que esperar. A chave pra acabar esse ciclo seria encontrar algum momento da sua vida em que tenha me amado, para recomeçar tudo a partir daí. Seria ver uma cena minha e sua, juntos, que a faça feliz. Verdadeiramente feliz, somente assim você acordaria e iríamos embora, juntos, para sempre.

            Ele gritou, do fundo da sua garganta, onde guardava uma mistura de sentimentos que vinha expondo em seu discurso. Confuso, passou a mão no rosto, levando a franja para longe dos olhos, que estavam vermelhos.

            – Se eu tocar em você, em qualquer lugar seu, eu ficaria vivendo todas minhas memórias que, ah, acredite, são muitas, até que você saísse do encantamento. Seriam todas as minhas e as suas lembranças, as que parecem pesadelos, e aquelas que são sonhos distantes., mas somente as mais marcantes. Tudo o que eu quero, eu tenho, meus poderes podem fazer qualquer coisa, exceto ter o seu amor. Infelizmente, eu sei que é impossível eu o ter, não sou tão tolo. Eu poderia tirar você disso, mas também não sou uma pessoa boa.

            Ele se levantou e seguiu pela porta aberta que levava até a escada. Colocou a mão no corrimão e parecia estar pronto para partir, quando olhou para trás. Fitou aqueles estranhos olhos brilhantes no escuro da já chegada noite. Ofegante, ele desistiu de ir embora e se aproximou da menina, novamente, enquanto dizia.

            – Mas minha mão precisa tocar no seu rosto. Meus lábios precisam dos seus. Meu corpo precisa de você, não posso viver sem seu toque. Eu não ligo de me perder nas lembranças se eu puder tocá-la só mais uma vez! – sua mão se aproximava do rosto dela, quando parou.

            Seus dedos enrugados fecharam-se antes de encostar no rosto da garota, o que deixaria o mago preso em seu próprio feitiço. Seu punho se cerrou, afastando-se dela. Ele se recompôs, com um jeito amargo de quem sente vergonha do que estava fazendo.

            – Estou partindo – disse ignorando o que quase fizera e o que dissera. – Esses que se perdem de amor, não entendem a vida. Tudo pode mudar, mas talvez seja diferente pra você somente pra você, que ficará aqui para sempre.

            Então, ele desceu as escadas e saiu daquela casa que se encontrava sozinha, sem nenhuma outra construção ao lado. Não havia nada ao redor, pelo menos no alcance da visão do homem. Era uma casa em um deserto. Logo em seguida, o mago já não estava mais lá, tendo desaparecido sem deixar rastros.

Próxima estação:

•julho 21, 2011 • 1 Comentário

A criança, que não devia ter mais de sete anos, puxa a manga da blusa da mãe, tentando chamar a atenção dela para a estranha figura que chaminha entre a multidão na estação de trem. Seus olhos, vidrados e assustados, não desgrudam do homem de camiseta preta muito rasgada, de pele morena por causa do sol e coberta por uma blusa tão larga quanto sua calça, com um capuz escondendo seu rosto e pés descalços. Ele vira o rosto, percebendo que estava sendo observado atentamente, e assusta a pequena criança, que corre para trás de sua mãe, que, por sua vez, a repreende sem saber o que se passava.

            O homem não passa de ossos pintados de cor de pele e coberto por panos escuros e velhos, sem aparentar, sequer, estar vivo. Seus passos são largos e determinados, não para por um segundo para se decidir, conhece o caminho e segue sem precisar olhar para frente. Algumas pessoas se assuntam ao vê-lo passar ao seu lado, como um vulto negro, uma sombra que parece se desprender do chão ou das paredes. Ele segue para a plataforma mais cheia, da linha mais lotada da cidade e que é sempre o motivo de uma série de problemas encadeados no transporte geral.

            Alguns sentem dó, pensam que ele não deve ter o que comer. Outros sentem medo daquela postura encurvada, como se ele carregasse pensamentos pesados e perigosos. Ninguém pode ver seus olhos, mas, se vissem, talvez não resistissem a todos os anos que eles transmitem.

            O trem é anunciado e o homem se movimenta entre a multidão que se forma no local onde a porta do primeiro vagão abrirá, deslizando entre os pequenos espaços para ficar na frente. Mesmo estando muito próximo de cair do trilho, o que poderia acontecer com um pequeno empurrão, consegue se manter equilibrado sem nenhuma dificuldade.  Rapidamente, consegue o lugar mais ao fundo e ninguém se arrisca a sentar ao seu lado.

            Junta suas mãos, movendo seus dedos uns contra os outros rapidamente, em movimentos incompreensíveis e compulsivos. Tira o capuz e revela um rosto marcado por diversas rugas, cortes e muitos anos. Seus lábios se contraem em algo que pode ser um sorriso.

            Um sorriso de alguém excitado por uma ideia que deverá dar certo, após vários anos sem esperanças. Está cego pelos resultados que alcançará, sem ver o que deverá causar.

            Conhece muito bem a rota. Uma senhora, sentada em um banco mais a frente, já o viu mais duas vezes na mesma semana, tendo, inclusive, sonhado com o estranho personagem. Os dois sabem que, em instantes, o trem estará passando debaixo de um viaduto.

            O homem se levanta e segue em direção à porta que leva ao maquinista. Tira de seu bolso uma chave, que conseguiu furtando. Gira e vê que está a um passo de realizar seu destino.

            Um policial, no mesmo vagão, sabe que algo está errado e corre para impedir o homem de cometer alguma loucura. Por sorte, está armado. Segura o fino osso que é o braço da criatura, quase não conseguindo fechar sua mão por completo em torno dele. O homem não vira para ele, continua olhando para a porta aberta, mas o policial diz, de maneira firme:

            – O que você pensa que vai fazer, homem?

            O homem de preto, então, vira e abre sua boca sem dentes, soltando um hálito que poderia ser sentido em um raio de quilômetros e um ruído que podia ser entendido, mas com muita dificuldade. Demonstrava nervosismo, em um estado de euforia.

            – Eu tenho coisas para terminar com o homem que me prendeu aqui eternamente e não me importo de levar vocês comigo. Acredito que ele não se importará também, de receber alguns convidados a mais.

            Escorregou do braço do policial e se infiltrou na cabine do maquinista, trancando a porta que ficara para trás, em uma velocidade inacreditável. Todos ficaram tensos, no vagão de onde ele saíra. Algumas pessoas batiam na porta desesperadamente, enquanto outras tentavam pular das janelas que estavam sendo quebradas.

            Um sinal sonoro fez com que todos parassem por um momento. A delicada voz que traz os anúncios aos passageiros começou, normalmente, seu corriqueiro aviso:

            – Senhores usuários… – mas foi interrompida por um estranho som agudo. Houve o silêncio que perdurou por alguns segundos antes da continuação, que precederia a gritaria e o desespero generalizados.

            A voz mudou, agora era estranhamente metálica e sombria, como um robô revoltado com seus criadores:

            – Próxima estação: os Portões do Inferno.

            Muito se ouviu falar nos noticiários sobre a tragédia daquele trem.

Último grito

•julho 3, 2011 • 2 Comentários

As últimas palavras que ela queria ouvir à noite, quando o silêncio sozinho a encarava. Foram as últimas palavras que ela ouviu, saiu do sono e não pôde voltar. E nunca mais deixou de ouvi-las.

Pôs a mão em sua cabeça quente por causa da febre, acariciou seus cabelos e disse que tudo ficaria bem, segurando o choro ao falar, sabendo que a hora estava chegando e que tudo já havia sido feito.

Ela era uma mãe e passava pela maior provação de sua vida, brigou com Deus e com os médicos descrentes, queria que alguém além dela soubesse que sua filha sairia daquela cama e voltaria a viver normalmente.

Queria ouvir que sua filha continuaria vivendo e que tudo seguiria o ciclo natural das coisas, filhos enterrando pais, e não o contrário.

Mas só havia o silêncio naquela noite, antes do grito. A menina chamava por sua mãe. Logo estavam as duas indo para a ambulância, assistidas por todos os vizinhos.

Não pelo frio, mas pelo medo, a mãe tremia. Enfermeiras passavam e a encaravam, comovidas e apreensivas, os médicos não davam notícias.

Todos souberam pelo grito da mãe. Um adolescente paralisou-se ao ver a mãe clamar para ter sua filha de volta. Tudo que diziam era que não havia mais nada a fazer. Um sinto muito e nada mais a dizer.

Tem que ser forte, agora, ou os sonhos nunca vão parar e nunca conseguirá sumir com a raiva que sente de tamanha injustiça sofrida. O vazio não pode ser preenchido, mas ela continua viva.

E não há mais o que se dizer, realmente, mas apenas um punhado de imagens persistentes.

Isso pode ser um trecho de qualquer coisa, uma memória, ou uma cena de ficção.

 
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