Últimas palavras de um homem poderoso
Eles estavam em um quarto comum de garota, decorado em rosa e com ursos de pelúcia distribuídos em prateleiras, também ocupadas por coleções de livros, e no chão, junto a algumas peças de roupas desorganizadas. Era o único cômodo da casa no terceiro andar, a cortina que impedia o sol de entrar estava furada em muitos pontos, deixando passar os últimos raios de luz do fim daquela tarde. Havia uma moça imóvel em uma cadeira e uma gaiola de hamsters vazia em uma mesinha próxima à janela, de modo que a única figura que parecia estar viva ali fosse um homem que andava inquieto para todos os lados e falava sem ouvir resposta nenhuma.
O homem tinha barba e cabelo compridos e grisalhos, criando um contraste com a mulher, que não passava de uma menina em um vestido florido. A lâmpada não precisava ser acesa, pois dos olhos da garota vinha uma luz que iluminava o suficiente para que ele andasse sem esbarrar em nada.
Essa luz projetava cenas na parede em que incidia, como se a película de um filme estivesse rodando dentro da cabeça da garota. Podia-se ver várias pessoas interagindo na imagem, na perspectiva de quem havia gravado. Aos poucos, percebe-se que todos falam com a garota de onde vem a luz. Pais carinhosos, falando palavras inteligíveis, daquelas que divertem os bebês; crianças em uma sala de aula, pintando com as mãos; garotos em uma sala, grande parte dorme enquanto a professora explica a matéria; jovens conversando em um shopping; uma pista de dança lotada; um homem sozinho. As cenas eram aleatórias e algumas se repetiam, sendo observadas pelo homem que estava com uma expressão derrotada e cansada.
No quarto, ele falava, parando apenas em alguns intervalos pra respirar e ver, inutilmente, se ela diria algo.
– Minha linda, o que eu estou fazendo, afinal? – ele caminhou até a janela, afastando a cortina para olhar para fora, por um momento, antes de continuar. - Pensando bem, é tão comum falarmos com nossas memórias, não? Tudo aquilo que ficou guardado e que precisa ser dito quando as coisas parecem não terem se encerrado totalmente.
Nem a boca, nem nada no corpo dela se movia, ignorando totalmente a presença daquele senhor, que permanecia de costas para ela, olhando pela janela. As imagens na parede também não eram afetadas por nada do que ele dizia.
– Você fugiu de mim. Uma, duas, três, várias vezes. Eu só queria o seu bem, eu a faria rainha desse mundo, ninguém poderia lhe fazer mal algum. Eu não lhe faria mal nenhum, seria seu eternamente. Você não entendeu o que era viver eternamente. Eu lhe ofereci, mas você não entendeu e por isso não aceitou – fechou a cortina bruscamente e virou-se para ela, que agora estava de costas para ele. - Você era pra ser minha, garota estúpida! E agora vai entender o que é a eternidade, pois daqui nunca mais sairá!
Os braços do homem ameaçaram agredir a menina indefesa, mas se contiveram. Ele apenas os cruzou e continuou andando pelo quarto, ainda inquieto.
– Você vê essas mãos? Elas estão fracas e velhas, e a culpa é sua. Mesmo se eu tivesse forças para lhe machucar, agora, eu não poderia – ele se posicionou na frente dela, ficando de joelhos, sem se importar com a forte luz e as cenas, que agora ilustravam seu corpo e sua roupa - Apenas um toque e eu ficaria que nem você, preso aqui para sempre. Viver memórias para sempre é a última coisa que eu quero.
Ele estendeu a sua jaqueta escura com as duas mãos, para ver as cenas que estavam passando nela. Fechou os olhos por alguns segundos, refletindo sobre o que iria fazer. Estava no quarto com ela, havia duas semanas.
– Eu sou um homem muito paciente, tenho todo o tempo que quiser. Esse feitiço exigiu muito de mim, mas agora eu só teria que esperar. A chave pra acabar esse ciclo seria encontrar algum momento da sua vida em que tenha me amado, para recomeçar tudo a partir daí. Seria ver uma cena minha e sua, juntos, que a faça feliz. Verdadeiramente feliz, somente assim você acordaria e iríamos embora, juntos, para sempre.
Ele gritou, do fundo da sua garganta, onde guardava uma mistura de sentimentos que vinha expondo em seu discurso. Confuso, passou a mão no rosto, levando a franja para longe dos olhos, que estavam vermelhos.
– Se eu tocar em você, em qualquer lugar seu, eu ficaria vivendo todas minhas memórias que, ah, acredite, são muitas, até que você saísse do encantamento. Seriam todas as minhas e as suas lembranças, as que parecem pesadelos, e aquelas que são sonhos distantes., mas somente as mais marcantes. Tudo o que eu quero, eu tenho, meus poderes podem fazer qualquer coisa, exceto ter o seu amor. Infelizmente, eu sei que é impossível eu o ter, não sou tão tolo. Eu poderia tirar você disso, mas também não sou uma pessoa boa.
Ele se levantou e seguiu pela porta aberta que levava até a escada. Colocou a mão no corrimão e parecia estar pronto para partir, quando olhou para trás. Fitou aqueles estranhos olhos brilhantes no escuro da já chegada noite. Ofegante, ele desistiu de ir embora e se aproximou da menina, novamente, enquanto dizia.
– Mas minha mão precisa tocar no seu rosto. Meus lábios precisam dos seus. Meu corpo precisa de você, não posso viver sem seu toque. Eu não ligo de me perder nas lembranças se eu puder tocá-la só mais uma vez! – sua mão se aproximava do rosto dela, quando parou.
Seus dedos enrugados fecharam-se antes de encostar no rosto da garota, o que deixaria o mago preso em seu próprio feitiço. Seu punho se cerrou, afastando-se dela. Ele se recompôs, com um jeito amargo de quem sente vergonha do que estava fazendo.
– Estou partindo – disse ignorando o que quase fizera e o que dissera. – Esses que se perdem de amor, não entendem a vida. Tudo pode mudar, mas talvez seja diferente pra você somente pra você, que ficará aqui para sempre.
Então, ele desceu as escadas e saiu daquela casa que se encontrava sozinha, sem nenhuma outra construção ao lado. Não havia nada ao redor, pelo menos no alcance da visão do homem. Era uma casa em um deserto. Logo em seguida, o mago já não estava mais lá, tendo desaparecido sem deixar rastros.

Muito bom o texto. Vai seguir o estilo “história que vem do nada e depois some”? rs.
Haha, talvez eu tenha coisas mais completas ou contínuas, mas as deixo guardadas, por enquanto. E esse aí veio de um outro mais antigo. Mas essas histórias que vem do nada não somem, necessariamente, só somem se eu deixo de escrevê-las, haha.
Gente do cééu. Que texto ótimo!
Você escreve muito bem. Parabéns!