Eu voltei, meu amor
Não cabia mais ninguém no carro, e mesmo se coubesse, Raul não deixaria que a única pessoa que sabia para onde estavam indo fosse junto. Apesar de ela ser o motivo do que estavam prestes a fazer, era preciso que ficasse protegida em casa. Carlos e Felipe eram experientes em roubos de caixas eletrônicos e garantiram que nada sairia errado e que todos estariam salvos no fim daquela noite.
Ana Beatriz estava preocupada com seu parceiro, pois há duas semanas havia lhe contado que eles teriam um filho. Ele sorriu e a abraçou forte no momento do anúncio, mas ela pode notar que, nos dias que seguiram, Raul manteve uma expressão fechada e séria, falando pouco. Então, ele contou todo o plano para ela.
Não era justo, nunca algo fora justo para Raul e ele decidiu mudar isso com as próprias mãos. Conhecia caras que conheciam outros caras que, por sua vez, conheciam jeitos para fazer vidas pobres mudarem. “Ladrões?”, pensava, “Não importa”. Seu filho teria a vida digna que ele mesmo nunca sonhou em ter.
Ambos eram de famílias muito simples e Ana não sabia se queria que isso mudasse. Pelo menos não dessa forma. Por mais que quisesse que o dia do roubo nunca chegasse, o tempo parecia escorrer de seu controle, enquanto tentava inutilmente convencer Raul de que isso não era preciso. Enquanto tentava tomar uma decisão própria sobre se isso era tão errado quanto pensava. Mas ela não o condenaria pelo o que ele fizesse, ele apenas queria o melhor para o seu filho.
Os homens já estavam posicionados, os seguranças estavam devidamente “acomodados” no porta-malas do carro, as câmeras desativadas e as bombas implantadas. Seria uma ação rápida.
Em seu quarto ela rezava as orações que sua mãe a ensinara quando era uma criança, para que fossem usadas em momentos de aflição. De repente, um arrepio percorreu todo seu corpo, fazendo com que sua visão ficasse turva, escurecendo até o ponto de estar no breu, desmaiada de joelhos, com o tronco deitado na cama.
A polícia também foi rápida e o roubo menos planejado do que haviam garantido. Um dos tiros foi certeiro.
…
- Você vai voltar lá e continuar o que começou. Não há mais cor em você, diferente dos outros e livre de julgamento, julgue-os. Que a justiça seja feita – foram as palavras da figura mais indescritível que Raul jamais tinha visto.
…
Quando souberam o motivo da morte de Raul, sua família o renegou, não comparecendo em seu enterro. De fato, a única que o entendia era sua amada, Ana, que também foi a única a presenciar sua despedida final. Ela não conseguia expressar em palavras o que sentia, suas mãos não saíam da barriga, como se protegesse sua criança que estava vindo a esse mundo cinza. A morte dele não foi justa, nem certa, e ela não a aceitaria, mesmo com todos os meios de comunicação, familiares e policiais dizendo o contrário.
De preto, cabisbaixa, ela caminhava em direção à saída do cemitério, acompanhando pelo uivo do vento que esfriava aquela tarde pouco ensolarada. Seus olhos estavam vermelhos das horas que passara ali chorando. Dúvidas sobre o futuro, memórias do passado e arrependimentos do presente se confrontavam em sua cabeça.
“Chorando por um bandido, não foi pra isso que te criei! Esse filho ficará melhor sem um pai, mesmo!” dissera sua mãe, quando Ana lhe deu a notícia da morte. Seu pai sequer olhou em sua cara, desde o acontecido, pois ele soube como ocorreu. Era muita frieza, realismo cortante e sufocante. A realidade era apenas, de fato, uma mulher de preto chorando pelos pecados no portão do cemitério, vivendo com pessoas que diziam não errar, mas que matavam mais do que armas, sem saber. Ninguém é inocente, na realidade.
Uma mão pesada se pôs no ombro dela. Um toque que ela conhecia mais do que qualquer outro. Virou-se rapidamente e o abraçou antes mesmo de verificar se realmente era quem imaginava ser.
Era Raul, mas sua pele estava cinza, sem vida, e seus olhos eram vermelho sangue. Mesmo assim, Ana Beatriz sabia que era seu homem ali, na sua frente.
- Eu voltei, meu amor, não chore mais. Nós daremos uma vida justa para essa criança, mesmo que para isso nossas mãos fiquem sujas desse sangue podre dos homens. Que comece a chacina.
—
Eu quero que todos morram por zumbis vingadores.

Esse texto me lembrou isso: http://omelete.uol.com.br/sangue-quente-warm-bodies/cinema/sangue-quente-veja-primeira-foto-do-filme-romantico-de-zumbis/ que é ridículo, na minha opinião, haha.
Mas as circunstâncias e o contexto do seu texto são bem mais dignas e fazem mais sentido (:
Desculpa a sinceridade, mas prefiro que venha um apocalipse zumbi sem motivos alheios e sim, só pela fome de comer cérebros e rasgar pessoas com as mãos! HAUHUAUHAUHUAHAUHAUHUAH’