O Ursinho Fumante
O ursinho fuma, mesmo ele sabe que irá morrer logo e que não há motivos pra tentar adiar sua ida. Por ele, seus pelos e seu algodão que o preenchem internamente estariam em chamas, mas sua dona, uma doce e quieta menina, não o permite que extrapole. Ela se assustou quando o viu com um cigarro pela primeira vez, o tirou de sua mão e disse que aquilo não deveria se repetir, pois “cigarros matam”. Ele não a ouviu, e continuou com seu mau hábito, mas escondido. Logo, ela já não era tão pequena e já não ficava tanto tempo em casa, tinha amigas.
Foi um grande problema quando ela resolveu as levar na sua casa, pra brincar com os seus brinquedos e chegaram no momento em que ele acendia mais um cigarro. Todas as meninas gritaram, exceto a dona do ursinho, que o pegou com força e o largou em cima do guarda-roupa, onde não acharia nada para fumar. Mas o ursinho era esperto e conseguiu pular para o chão para se esconder embaixo da cama dela.
Ele estava tragando tranquilamente quando a cabeça da garota apareceu, virada para baixo, dizendo “urso idiota, eu sempre soube que você estava aí”. Ele até ficou surpreso, mas não ligou, ela o esqueceria em pouco tempo, tinha certeza disso, pois agora ela tinha tarefas escolares mais complexas e um celular para mandar mensagens sobre meninos babacas que não davam a mínima pra ela.
E o tempo passava e ela também adquiria maus hábitos, mas o ursinho nunca iria reclamar desses, enquanto sobrasse um gole que fosse, nos copos das diversas bebidas baratas que ela trazia para o seu quarto, mas não aguentava beber por inteiras. Aquela música gritada e alta era o único incômodo. Ele começava a se identificar com a garota, principalmente pelas histórias que ela sempre contava para o seu fiel amigo gay, ouvidas de sua residência empoeirada e de anos a fio.
Certo dia, o teto do ursinho estava balançando demais e muita poeira estava caindo sobre ele. Havia mais de uma pessoa deitada ali e ele tinha certeza pelas vozes ofegantes. Se empurrou discretamente para fora dali, para poder espiar e gostou do que viu. A menina não tinha mais corpo de menina, mas de mulher. Suas roupas femininas se misturavam às masculinas de alguém mais, no chão. O ursinho se posicionou onde poderia assistir aos movimentos do corpo de sua dona, que aos poucos perdia a timidez. Acendeu um cigarro e gostou do que viu, ela mal o notou quando saiu do quarto para acompanhar seu namoradinho para a saída.
Com excesso de fofura, mas um desapego fatal à vida, as coisas eram daquele jeito mesmo e nada havia a fazer, senão esperar tudo acabar. Ela chegou com lágrimas escorrendo de seus olhos vermelhos e sentou-se na cama, com o ursinho em seu colo. “A vida é uma merda mesmo, amigo urso. Me dá um cigarro” e, então, os dois passaram o resto de uma tarde ali, fumando.
—
É metafórico, crianças.

não entendi .-.
Depois de tantos anos, essa menina nunca varreu debaixo da cama? Como ela conseguia respirar no quarto? hahaha
Mas tirando a brincadeira, texto muito bom!
Lembrei de Chuck (o brinquedo assassino, não o da série) e Toy Story 3 (pela menina ter crescido e tals).