Vidas Breves

Carlos, o pequeno garoto, anda pelas ruas sozinho, com seus fones de ouvido tocando a música no último volume para abafar seus pensamentos. Ele sabe que se parar, ou abaixar o volume, não vai gostar do que tem visto e, se ele deixar isso acontecer, vai odiar tudo o que tem vivido.  Não há o que se fazer quando se está insatisfeito do jeito que ele normalmente fica, e ele já não aguenta mais pensar em uma solução para mudar sua vida. De fato, já não é mais tão pequeno garoto e, logo, não é visto como um coitado, mas como um estranho.

                Quando é visto.

                A pior parte é se sentir sozinho do jeito que ele se sente. Passa em frente de uma igreja e vê pessoas cantando algo que não devem praticar, ou sequer entender. Fica parado em frente, olhando pela porta aberta à espera de fiéis, procurando por alguém da sua idade. Encontra alguns tocando no altar, cantando de olhos fechados. “Cegos.” Sabe que não o entenderiam, com suas vidas alegres e preenchidas. Ele continua andando.

                Talvez vá pra casa, ou mesmo poderia passar na casa de seus avós, o que parecia ser uma opção um pouco melhor, uma vez que não havendo uma nuvem no céu e não tendo obrigações pendentes, poderia voltar no horário que quisesse, sem se preocupar. Apenas ele se preocupa, ninguém na sua casa percebeu que ele saiu. Pode dizer que não se importa e que não gosta que o vejam como um coitado, mas é humano e sabe que gostaria de ter alguém para se ter como um próximo. Pelo menos, tinha seus avós sempre o esperando com algo bom para comer.

                Crise existencial de domingo, assim pensa e continua prestando atenção na música, descendo a rua em direção à avenida. Domingos são um saco, falta o que se fazer e sobra o vazio preenchido pelas tarefas da semana. A vida era um grande vazio que não parecia querer se preencher.  Perdera a noção do que estava ouvindo e se encontrava pensando sobre tudo mais uma vez. Não gostava dos fones quando não estava ouvindo as músicas com atenção, por isso os tirou e guardou no bolso.

                – Hey, eu até que estava gostando desse barulho que você estava ouvindo. Por que desligou?

                Carlos virou e, à princípio, não viu ninguém. Mas ele estava ali, um menino aparentemente da sua idade, exceto pelas roupas antiquadas e incoerentes com sua juventude. Pensou em seguir e ignorar, mas acabou decidindo que não havia nada de errado em puxar conversa com aquele estranho.

                – Ahn, acho que estava muito alto. Deixei de prestar atenção na música há alguns metros. Há quanto tempo você estava… Ouvindo?

                – Algum tempinho. Mas então, está indo para algum lugar? – ele estava, agora, ao lado de Carlos, e não mais atrás, acompanhava-o em seu caminho.

                – Eu acho que vou pra minha vó, não tenho muito o que fazer hoje. E você?

                – Estou apenas andando por aí, também não tenho muito o que fazer. O que você acha de irmos até a quadrinha? Quase sempre tem alguém jogando bola por lá. Pode deixar a visita aos seus avós pra depois?

                – Não sou muito de jogar bola.

                -Ah, entendo.

                Os dois seguiram por alguns passos sem dizer nada. Carlos achou a sua resposta um pouco fria com aquele cara que estava tentando ser tão legal e, após reavaliar a proposta, considerou que o máximo que poderia acontecer era se machucar jogando. Um pouco de dor, pelo menos, o faria se sentir vivo. – Pensando melhor, eu topo – disse, finalmente.

                —

Eles conversavam sobre partidas, times favoritos, ídolos, micos que haviam pagado jogando e aqueles lances milagrosos que só acontecem em uma ou outra pelada e que ficam marcadas como feitos históricos em suas vidas. Mas toda essa empolgação gerada se esvaiu quando chegaram ao campo, que estava sem ninguém, sequer uma bola sobrando para que pudessem treinar alguns chutes a gol.

                – Haha, decepcionante – disse Carlos. – Acho que vou pra minha vó, já que não vamos mais jogar.

                Eles foram até o centro da quadra, onde o novo amigo de Carlos se sentou, rapidamente, simulando uma queda.

                – Que chato, eu esperava que tivesse alguém jogando aqui, sempre tem – Carlos estranhou um pouco o modo com que ele disse isso, como se fossem palavras premeditadas e ele já soubesse que não haveria ninguém naquele lugar. – Senta aí, ou está com pressa pra ir pra sua avó?

                Sentou-se sem dar uma resposta. Até quanto poderia confiar nele? Não sabia, mas já estavam conversando novamente sobre coisas do cotidiano, com Carlos descrevendo as muitas coisas que o ocupam durante a semana. Não se sente à vontade falando de nenhuma delas, mas continua porque pensa que é o único assunto que pode ser interessante naquela conversa. Logo, o silêncio toma o ambiente. Uma fina garoa cai sobre eles, mas eles não ligam, talvez nem tivessem percebido.

                – Mas você gosta disso tudo? Me parece um pouco pesado demais – pergunta de maneira tímida, o estranho, que, deitado de costas para o chão, olha para o céu.

                – Me faz bem, é bom estar ocupado.

                – Também me parece ser uma rotina muito solitária. Digo, está cheia de pessoas envolvidas, mas você não comentou sobre nenhuma delas em particular.

                – Talvez seja – e ele tinha chegado em um ponto que Carlos preferia evitar. – Não acho que precisamos de pessoas próximas para viver. Talvez de uma ou outra, mas não o tempo todo.

                Como se ignorasse a resposta, o menino continuou seu interrogatório que não era muito diferente do que Carlos fazia a si mesmo quase sempre. Não gostava quando essas perguntas surgiam por conta própria na sua cabeça, muito menos quando eram feitas por outras pessoas. Mas, dessa vez, sentia-se obrigado a respondê-las com sinceridade, pois, com aquela estranha figura, não havia necessidade de se esconder atrás de mentiras e demonstrações de forças que não existiam.

                – Nunca tentou se apaixonar? – continuou.

                – Não sei se esse tipo de coisa a gente tenta, acho que acontece, não?

                – Você acha? – ele se levantou, ficando sentado novamente, para olhar para Carlos, esperando pelo o que ele iria dizer.

                – Eu não levo jeito para essas coisas. Mal consigo chegar perto das meninas da minha sala, elas me acham estranho.  Nunca tentei. Nunca tentei me apaixonar – desviou o olhar, por um pouco de constrangimento, pois sentia-se confessando que era um perdedor, incapaz de conquistar uma garota, desde sempre.

                – Eu também não era muito bom com isso. Ou melhor, não sou – corrigiu. – Mas acho que é assim mesmo, não temos nada com que nos preocupar. Eu não te acho estranho, apesar de achar muita das pessoas por aí estranhas. A grande maioria, até. Você pelo menos fala coisas verdadeiras, reais. Sabe, eu acredito no que você diz, já as outras pessoas parecem sempre dizer a mesma coisa.

                – Mas não é legal se sentir sozinho rodeado por tantos outros, que parecem se dar tão bem.

                – Conversando com eles, você vai continuar se sentindo do mesmo jeito.

                O que Carlos sentia falta era de alguém como seu novo amigo, que o entendesse e conversasse sobre tudo, para ouví-lo mesmo quando não fosse algo legal ou divertido. Precisava de mais conversas como aquela.

                – Você tem que se aproximar daqueles que você gosta, correr atrás. Desculpa, não sei se isso faz sentido, te perguntar se não se sente sozinho e depois falar que as pessoas não são boa companhia, mas é que era assim que eu me sentia. Não é fácil encontrar alguém como você ou eu – disse o garoto. – E também não é fácil encontrar bons amigos nesse mundo e nem manter aqueles poucos que conseguimos ter.

                Mas conversas como aquelas eram raras e duravam pouco. Acabavam bruscamente deixando sempre algo a dizer e quase nunca continuam de onde param, deixando espaços abertos que somos forçados a esquecer.

                Começava a chover forte, agora.

                – Tenho que ir – terminou seu amigo.

                – Eu acho que eu também. Mas, qual é o seu nome?

                Carlos estava sentado sozinho no círculo central da quadra, o garoto já estava de pé, no pequeno portão de saída olhando para trás.

                – Venha logo Carlos, essa chuva não vai te fazer bem – mas Carlos não lembrava de ter se apresentado em nenhum momento, do mesmo modo que não o vira se levantar e andar todo o espaço até a saída.

                – Pra onde você vai? – se levantou e tentou alcançá-lo, mas ele já estava adiantado na rua.

                – Embora, tenho que ir – sua voz mal podia ser ouvida e sua imagem estava distrocida pelas gotas pesadas de chuva que caíam bravamente, acompanhadas de ventos e trovões.

                – Mas onde ou quando posso te ver? – já não gritava, via seu amigo distante demais e perdia as esperanças de que fosse ouvido. Também desistira de correr.

                – Você não está sozinho, nunca entre em desespero. E não fique tão triste com a vida, é muito novo para isso. Somos e seremos pra sempre muito novos para isso. Desculpe, mas tenho mesmo que ir agora – ele gritava a plenos pulmões enquanto corria para longe.

                Carlos chegou enxarcado em casa, livrou-se da roupa molhada na lavanderia e correu para o banheiro. Estava, ainda, sem entender muito bem o que aconteceu naquela tarde. Por um lado, foi uma das melhores conversas de sua vida, e em um domingo, o que deixava tudo mais incrível. Por outro, sentia-se muito triste, pois não acreditava que veria aquele amigo novamente. Ligou o chuveiro e ficou mais tempo do que o habitual embaixo da água quente, apenas pensando sobre tudo o que conversara.

                Estaria ficando louco e teria ficado a tarde inteira falando sozinho no meio do nada? E por que não percebera a chuva chegar? Era uma tarde seca de inverno, o céu estava claro mais cedo, tanto que havia decidido visitar seus avós.  A incompreensão se tornava desespero aos poucos. Medo do que não era normal, podia estar lidando com espíritos, ou consigo mesmo, o que era mais assustador.

                Colocou um pijama e deitou-se em sua cama, sem comer ou dizer pra sua mãe que estava em casa. Ainda era cedo, mas não queria fazer mais nada e nem conseguiria, estava absorto na reviravolta que aquela breve conversa havia gerado. Finalmente, após muito enrolar, virar e se mexer entre seus lençóis, conseguiu dormir.

                Nunca mais viu seu amigo que nem nome tinha, para ele. Mas passou a jogar futebol naquela mesma quadra a todo domingo, na esperança de um dia reencontrá-lo.  O tempo passou e ele se casou com uma garota que conhecera ali no campo, onde ela o assistia caindo repetidamente enquanto tentava fazer alguma coisa com a bola para não ser xingado pelos outros moleques. Seguiu bem, sem nunca esquecer aquela conversa.

 

~ por Igor Esteves em outubro 19, 2011.

Uma resposta to “Vidas Breves”

  1. O conto tá tão completo que fiquei sem palavras pra comentar nesse aqui.
    Perfeito!

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