Maria

Estava em disparada, como se o mundo às suas costas estivesse desmoronando. Corria em busca de um lugar onde pudesse parar e encontrar um novo caminho seguro para sua vida, corria para se manter viva. Montada em Caveira, seu fiel cavalo negro, ela evitava olhar para trás, para que não visse seus perseguidores. Os soldados de armadura preta, que carregavam o dragão vermelho em seus peitos, brasão do Senhor Draco que protegiam, eram conhecidos pela sua frieza quando executavam uma tarefa. Não haveria tempo para que ela reagisse, apenas deveria fugir, sem perder a atenção em nenhum momento naquela floresta densa e de poucas passagens visíveis.

 Havia uma trama que a fizera chegar àquela situação, envolvendo política e planos que arruinariam a vida de milhares de habitantes de uma cidade, mas nada disso vinha à sua mente naquele momento. Tudo o que conseguia pensar era na traição que sofrera. A cada momento que se deixava pensar nisso, machucava-se com algum galho que não percebia, ganhando pequenos cortes em seu rosto.

 Confiara a Linda, sua melhor amiga e confidente, todos seus planos. Contara que visitaria o castelo para ameaçar o Senhor e que tinha as cartas necessárias para terminar aquele jogo de forma vitoriosa. Também tinha a força necessária para, se algo desse errado, lutar.

- Eu encontrarei você lá, me espere, caso chegue primeiro. Deixarei uma marca em frente ao portão, você saberá reconhecer, entre apenas se a vir – dissera Linda à Maria, que acatara, apesar de relutante por não saber como Maria se viraria lá dentro.

De fato, havia um lenço vermelho, que não passava de um pedaço de pano largado, mas que Maria soube reconhecer como um pertence de sua amiga. Entrara, ainda sem desconfiar de nada, sendo logo rendida pelos soldados do Senhor, que a esperava em seu trono. Ele estava acompanhado por Linda, que o havia adiantado todo o plano de Maria. Foi levada para outra sala, longe dos guardas, onde os três se encararam e toda a cruel verdade foi dita. Sem toda aquela força que tinha, abatida com palavras que feriam mais que ferro, em estado de choque, tudo que a restava era um pouco de controle para evitar que as lágrimas caíssem. Nada conseguiria dizer, então fugiu.

As palavras ficariam gravadas:

- Tarde demais, Maria. O homem está morto.

- Mas você não fez nada para deter esse monstro, Linda? – perguntara ingenuamente.

- Sua amiga fez, Maria. Ela me entregou a cabeça do homem que a ajudaria, antes que você pensasse em fazer sua ameaça.

- Isso não pode ser verdade. Linda?  – não houve resposta, nem troca de olhares, Linda permanecia cabisbaixa, com vergonha. – Linda, me diga que não é verdade. Por quê? Por quê?

- Porque é o que eu queria – respondeu, então, Linda, erguendo seu rosto, com uma expressão de felicidade e vitória. – Você acha que chegaria a algum lugar com tudo isso? Iria salvar a cidade inteira e não conseguiria nada com isso! Tudo ficaria para o seu heroizinho. Nem o amor dele você teria, eu mesma dormi com ele antes de entregá-lo a Draco, aproveitar aquele corpo enquanto ainda havia tempo – ela caminhava em torno de Maria, carregando seu longo vestido vermelho com as mão como em uma dança lenta, movimentos delicados e sedutores em contraste com sua agressividade e provocação de suas palavras. – Eu ficaria com ele, no final. Você continuaria sozinha. E, ah, não me culpe, mas me agradeça. Se não fosse por mim, você nunca teria sentindo o gosto de ter uma companhia em sua vida, uma amiga que fosse. Nenhum homem gosta ou gostará de você. Nenhuma mulher gostaria de sua companhia, nem se sentira próxima de você, você é diferente de todas, indelicada, descuidada, uma monstra! Sinta-se honrada de ter tido minha companhia, um dia – e seguiu para o lado de Dracol, o qual se apoiou de maneira sensual.

Maria mal podia encarar aqueles olhos pecaminosos de Linda, que era a perfeita descrição de princesas dos mais belos contos que se contavam entre os homens, mas com um toque realista, como ela adorava reforçar, que a tornava mais humana, e mais cobiçada pelos aventureiros, soldados e reis. O Senhor observava tudo friamente, com uma pequena contração em seu lábio, algo que parecia um sorriso de deboche e satisfação, esperando por sua deixa:

- Ainda há chances, Maria, faça como Linda e esteja ao meu lado quando eu for o Rei – apenas dissera.

A resposta veio da última parcela de coragem que sobrava naquela mulher:

- Eu prefiro morrer ao lado daqueles que vim proteger e, guarde minhas palavras, essa vadia ainda o irá trair – tudo o que conseguia pensar ali, nada mais fazia sentido.

Nada poderia fazer sentido, toda aquela crueldade de Linda era contraditória. Era impossível imaginar que sua amiga de anos e planos diria aquilo. Não se lembrava se ouvira algo a mais depois, apenas ouvia sem parar “monstro” e “nenhum homem gosta ou gostará de você”, cortando seu coração que antes era aquecido com coisas como “coragem, minha bela amiga” e “ele cairá de amores por você”. A pior parte era saber que tudo era verdade, nunca teve confiança em si mesma, mas Linda a ajudava a ignorar isso, com uma gostosa ilusão de que era bonita e carismática. Não se sentia mais, sequer, uma mulher.

Caveira corria tão rápido quanto podia, mas sua resistência não duraria muito mais tempo naquele ritmo, e os incansáveis soldados de Draco não se esgotariam logo. Tentava proteger sua dona, mas ela parecia estar cada vez mais longe, quase desviando do curso e passando por lugares demais apertados, o que estava deixando o cavalo confuso. Percebeu que as mãos de Maria estavam soltando de seu pescoço, ficando mais leves, o que era diferente de seu habitual tato pesado, e relinchou para chamar sua atenção.

- Pare  Caveira! – gritou Maria, quando percebeu que estava quase desligando-se completamente de seu objetivo. Desceu do cavalo e olhou para trás para ver quanto tempo ainda tinha. – Escute-me, fiel amigo. É aqui que nos separamos, vá para a cidade, fuja o mais rápido que puder, eles entenderão o que sua presença sem mim significa. Sei que sou uma guerreira importante para eles, apesar de não se importarem muito comigo – riu daquela triste situação. – Não sei se você algum dia me entendeu, mas obrigado – beijou-lhe e fez com que partisse. – Que venha o fim, mas não sem luta – disse para si.

Os soldados não tardaram a chegar e, sem delongas, sacaram suas espadas e partiram para sua tarefa. Não havia gritos nem emoções, apenas a frieza de um assassinato profissional. Maria, por sua vez, chorava a cada golpe que dava ou recebia, sabia que não tinha chances ali, soubera desde que desistira da fuga, deixando Caveira ir. Aos poucos, ia se rendendo. No final, foi muita a dor que sentira, mas durara pouco, menos do que teria durado se persistisse.

Maria foi uma guerreira que perdeu para o mundo.

~ por Igor Esteves em dezembro 27, 2011.

2 Respostas to “Maria”

  1. Já não se fazem mais Marias como nas estórias…

  2. Grande Maria!
    A Linda podia ser linda (haha), mas não tinha uma coisa que a Maria tinha muito: caráter!

    Ótimo conto!

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