Quem é você?
Indo Dormir I
Ele podia ter uma arma, mas eu tinha a garrafa que ele mesmo deixou cair e, também, alguns reflexos, coisa de sóbrio. Só não tinha experiência nessas coisas, mas precisaria, não? Quem iria proteger a porta de entrada, algum dia, se não o homem da casa? Coisa que me tornava a partir daquele momento, enquanto o Outro deixa o cargo em aberto e o pequeno não conseguiria, não chorando do jeito que estava.
O Outro poderia ter morrido, seria tão mais fácil, mas anos depois, muitos anos depois, eu saberia que não era assim que a vida funciona. Talvez ainda não saiba realmente, de tão depois que eu descobrirei, mas eu sei que foi melhor ter deixado ele lá destruindo tudo e gritando baixaria, enquanto eu encorajava a minha mãe a entrar no táxi para lugar algum – nessas horas quase todos os seus parentes e amigos fecham as portas na sua cara, mas eu guardaria o rosto de cada um deles antes que negassem ajuda. No final, ficou decidido que seria um abrigo provisório, casa da madrinha dela, que foi tão querida enquanto viva, mulher de coragem. Coragem que precisamos para voltar pra casa e tirar o Outro de lá. Não foi fácil e eu poderia usar minhas mãos para algo pior, se precisasse, alguns filmes de pequenos heróis e uma cabeça de pouca razão formada me permitiriam (e como tudo era mais fácil de ser solucionado do que hoje, devolvam-me aqueles dias, mas sem o Outro). Mas preferi, como se toda a decisão coubesse a mim, deixá-lo de canto, preso na própria cela escura daqueles que seguem, por vontade própria, o caminho ruim.
Mas, vontade própria? Não saberia, nunca. E que caminho é bom? Isso não interessava, não ali. Tudo o que eu sabia é que eu sabia demais para alguém da minha idade, ou talvez nem isso, porque não percebi a tempo que aquilo não estava em meus problemas, que viriam aos montes, anos depois. Tantos anos depois, que nem chegaram ainda. Hoje, posso disfarçar as únicas cicatrizes e não guardo rancor ou traumas, mas um pouco mínimo de sabedoria e algumas memórias ruins. Também aprendi que algumas perguntas não têm, ou não precisam de respostas.
—
Totalmente fictício e nada autobiográfico. Indo Dormir tem a pretensão de ser uma sessão do meu blog onde os pensamentos mais ocultos se transformam em pequenos contos ou crônicas, pensamentos esses baseados em memórias, pessoais ou não. Quis começar contando uma história da infância, de alguma infância por aí que tenham me apresentado, e de algo que tenho raiva e destrói famílias por onde passa: álcool. O personagem será sempre esse, meio eu, talvez, mas nem sempre eu – tecla que eu volto a bater para deixar bem claro – e ainda não sei com que nome batizá-lo.

Falando português claro? Álcool é uma merda! Não entendo porquê as pessoas bebem…
Mas o pior é quando acontece essas coisas, passa um tempo e as pessoas voltam, como se nunca mais fosse acontecer. E dá no que? Acontece tudo de novo num ciclo sem fim…
-
Se for escrever contos sempre com o mesmo personagem, no final, quem sabe não rende um livro? (: