O Amigo do Rei
Márcia Oliveira era o nome da mulher que descia do ônibus, indo em direção à padaria, enquanto calculava mentalmente quanto dinheiro tinha para saber se seria possível compra um daqueles sonhos recheados que o seu filho tanto gostava. Aquele moleque, Luizinho, adorava doces, ainda mais os que podiam fazer sujeira ou melecar seu rosto e sua mão. Sua mãe sempre ria de seu jeito atrapalhado com a comida. Não passavam fome, viviam só os dois na pequena casa, (se realmente podia ser considerada uma casa), mas a vida não estava fácil, nem nunca foi.
– Boa noite, seu Adão, me vê três pãezinhos e, quem sabe, um daqueles sonhos cheios de açúcar pro meu filho – sua voz combinava com sua postura ereta e firme, era uma grande mulher, de pele morena e seu Adão só não a pedia em casamento porque já era comprometido.
– Boa noite minha menina, pode deixar! Só isso? – era um senhor de bom coração, e já tinha ajudado Márcia muitas outras vezes, vendendo fiado ou não cobrando pelas compras.
– Por hoje só. Você sabe que o dinheiro sempre falta nessa época do mês.
– Pois sei mesmo – colocou um sonho a mais, além do pedido, em um saco. – Leve esse aqui por minha conta, assim mãe e filho comem algo gostoso essa noite, ou então o menino come os dois sozinhos, se a moça não desejar engordar.
– Muito obrigada, sei que não adianta insistir, então aceitarei. Até mais, seu Adão, o senhor é muito bondoso.
– Até mais, minha linda – e com isso fez com que Márcia balançasse a cabeça negativamente, pensando no que a mulher de Adão, dona Socorro, pensaria se ouvisse tais elogios.
Carregava o sonho com um certo orgulho, daquele que as mães têm ao preparar uma surpresa para os filhos, mesmo que fosse algo tão simples quanto um pão doce. O que importava, no final, era o sorriso do filho ao saber o que tinha dentro do saco.
Andava por ruas não asfaltadas, por encanamentos improvisados, que ficavam à mostra em muitos pontos, e postes de eletricidade, entre o emaranhado dos fios em seus gatos e poças da tempestade da tarde, e sob os últimos raios de luz que aquele horário de verão permitia que ainda iluminassem o começo da noite. Não pretendia morar ali para sempre, mas era o que conseguira, quando uma amiga ligou falando sobre uma ocupação em um lugar um pouco afastado, mas esquecido pelos proprietários. Junto com elas, mudaram-se dezenas, talvez centenas, de famílias e, assim, criou-se algo um pouco maior que uma vila, mas com relações que muito se assimilhavam com as vistas entre parentes de sangue. Nessas ruas, sob esses raios de sol, à vista dos vizinhos, Luizinho avistava sua mãe chegando, enquanto brincava sozinho na calçada. Ele saiu correndo e a recebeu em um caloroso abraço.
– Mãe!
– Adivinha o que eu trouxe, meu pequeno?
– Sonho? – ele a olhava com aqueles olhos negros, que traziam tantas lembranças na cabeça de Márcia, com um apelo de “por favor, que seja um sonho”.
– Acertou! – e ele a abraçou ainda mais forte, pegou o pacote da mão dela, em seguida, e saiu correndo para dentro de casa.
Ela deixava suas coisas na estante da sala, enquanto ligava a televisão para assistir à novela. Algo a deixava inquieta, e vinha se confirmando mais, cada vez que chegava em casa. Luiz era uma criança muito solitária, nunca estava brincando com os outros meninos de lá (e havia bastantes crianças por ali, além de um vasto espaço para correr). Decidiu interrogá-lo.
– Por que não estava brincando com as outras crianças, Luizinho? Até que a chuvona da tarde ajudou o tempo a ficar gostoso. Se não fosse tão perigoso, eu até deixaria você sair agora à noite pra brincar com eles.
– Mas mãe – dizia ele, com a boca cheia, entre uma e outra bocada no sonho – eles nem gostam de mim.
– Como sabe disso? Esses dias eu encontrei a Marieta e o filhinho dela…
– Acho que é Caio – completou ele.
– Isso! E ele me perguntou de você, disse que você só ficava em casa e não ia mais jogar bola com eles.
– Sabe o que é, mãe? Eles não gostam do Ben e não deixam ele brincar.
Não sabia o motivo, mas aquela resposta a fizera se arrepiar. Luzinho tinha terminado o doce e a encarava para ver sua reação, como se esperasse uma bronca ou uma repreensão pelo que dissera, mas ela não havia entendido direito. Ou não queria acreditar.
– Quem é esse Ben, Luiz? – ele não respondeu de imediato, então ela percebeu que o havia assustado com o tom de sua voz. – Pois nunca te vejo com ninguém, está sempre sozinho na frente de casa – o que podia a estar deixando preocupada era o jeito com que pensava ter visto o filho algumas vezes.
Em algumas noites, quando chegava, via Luizinho ali, às vezes com seus carros miniaturas, outras com algumas bola que chutava de um lado para o outro sem algum objetivo certo, mas havia dias em que ele estava sem nada, apenas olhando para o céu, em algum ponto fixo. Conversando sozinho. Rindo sozinho. Acreditava ter visto ele chorar, uma vez. Mas não foram muitas vezes e seu filho sempre a avistava muito antes, sem deixar que ela observasse com mais atenção.
– O Ben é meu amigo, mãe. Não sei se é um anjo ou se é um gavião, que nem o do Timão, mas ele é muito bonzinho. Ele me faz rir, ele me conta coisas que ele vê lá longe, bem longe mesmo, às vezes ele até me diz quanto tempo falta pra você chegar em casa ou os dias que você terá dinheiro para… me trazer um sonho, por exemplo…
– Filho…
-… Ele também me protege, me ajuda a fugir, mas diz que é muito perigoso eu viajar em suas costas e que não gosta que ninguém suba nele. Mas ninguém gosta dele, sabia?
-…filho…- ela começava a chorar.
-…Todos fingem que ele não existe, ficam ignorando ele, coisa de criancinha, sabe? Até os meninos mais velhos, os que tão na quarta série, ficam com essas brincadeiras.
-Filho! – quase gritava.
– Mas eu gosto dele e ele disse que vai nos proteger quando as coisas ficarem difíceis!
– FILHO!
– O que foi, mãe? Você também não gosta do Ben? – ela hesitou, novamente, em responder.
– Não é isso, é que eu preciso fazer a janta. Pode ficar com o meu sonho, se quiser.
– Ok! Obrigado!
Não sabia se ele estava agradecido mesmo, tinha medo que o tivesse assustado com seu grito, mas precisava parar aquilo. Era uma loucura muito familiar a ela, algo que não queria viver novamente. Pegava a panela, colocava óleo e preparava o arroz. Procuraria um psicólogo, era a ajuda que precisavam, pois o resto estava todo bem, muito melhor do que como era com ela quando tinha a idade do Luiz, os sete anos, o ápice da inocência. Separava os caroços do feijão em uma bacia. Ele não tinha pai, mas isso era um ponto bom, considerando quem era o sujeito que fugira quando a criança nem dentes tinha, ainda. Aqueles olhos negros lhe eram tão familiares e lhe doía tanto ver como, em outra época, eles eram duros e cruéis, e, hoje, eram doces, delicados e inocentes. Cortava dois tomates, eram suficientes para os dois moradores. Os olhos dele eram parecidos, provavelmente iguais, por obra do destino, com os do homem que a fizera sangrar tantas vezes quando jovem, por coisas que não fazia, por coisas que fazia e por coisas que desejava fazer. Mas esses eram borrados pelas bebidas alcoólicas e pelo ódio incontável. Ligava a frigideira,colocava óleo e abria o pacote de linguiça. Mas Urso lhe dissera que seu rei chegaria e que ele teria aqueles mesmos olhos que a traziam muito sofrimento, e ela teria que saber lidar. Esquecia-se do que estava fazendo e chorava.
Mas ela lidava muito bem. Mesmo quando via o passado na semelhança física que o filho tinha com seu pai e seu ex-marido, de quem sofrera diversos tipos de violência durante toda a vida, não ligava, pois, quando ele sorria, todo seu trabalho e toda a sua vida parecia valer qualquer pena. E o fato de ele ter um amigo imaginário, que fora a sua proteção enquanto criança, da violência do pai e da miséria de sua vida, a deixava triste. Não havia do que ele se proteger, ela estava sempre presente e nunca lhe fizera mal algum, assim como não deixava ninguém fazer.
– Mãe – o chamado tímido a despertou a tempo de ver que a linguiça começava a queimar, e desligar o fogo.
– Oi, meu anjo.
– Só queria ter certeza se você não quer mesmo o seu sonho, o meu estava tão bom – a simplicidade da pergunta, depois do grito que a fez parecer uma louca, a fez rir bastante. Tinha um filho muito corajoso.
– Pode ficar com ele, querido, mas acho melhor você guardá-lo para amanhã cedo. A janta ficará pronta, logo.
– Você estava chorando, mãe? É por causa do Ben? – ela se abaixou, pôs as mãos sobre os ombros de seu filho e perguntou.
– De quem, ou de quê, o Ben te protege, filho?
Ele respondeu como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
– Ele nos protege, mãe, nós dois. E de muita coisa, ele diz. Ele também falou que tem algo muito ruim vindo, mas que ele não vai nos deixar sozinhos quando isso chegar.
Outro calafrio percorreu todo o corpo de Márcia. Sorriu para o menino e pediu que fosse brincar. Nos dias que se passaram, aquela frase profética permaneceu em seus pensamentos, incessantemente sendo repetida. Aos poucos, sua confusão a fazia acreditar em Ben, como quando acreditara em Urso. Afinal, não tinha sido defendida por Urso, que jogou seu pai para longe quando esse tentou atacá-la com um martelo? Não era Urso quem a protegia aos gritos quando todos no colégio a zombavam por seu cabelo ruim? Ben poderia cobrir os espaços e o tempo que Márcia não podia, na vida de seu filho. Ouvia comentários pelas ruas, de que o seu filho estava ficando louco, mas não se abalava com isso, pois já não entendia mais nada de lucidez, quando as incertezas a cercavam de um lado, enquanto os fantasmas do passado a perseguiam pelo outro. Observava mais atentamente as conversas “solitárias” do filho e percebia que ele dizia, assustado, coisas como “mas nós vamos ficar bem, mesmo?” e isso era o que mais a preocupava.
Em uma noite, enquanto dormia, Urso a visitara. Sua pose era a de um santo guerreiro, só lhe faltava a espada e a armadura, pois tinha toda a força que precisava para tal cargo. Mas seu jeito era simples e calmo, pelo menos com ela. Ele sabia ser feroz quando precisava, seu grito abalava as estruturas de castelos e fazia montanhas tremerem. Mas, dessa vez, ele apenas passou para abraçá-la.
Pela manhã, Luiz acreditava ter ouvido algo, então levantou-se correndo e saiu pela porta para ver o que acontecia. Era domingo e não havia ninguém ali, exceto por Ben, que o esperava próximo a uma árvore. Era uma criatura colossal, de penas brancas, negras e douradas, um bico gigante, olhos brilhantes como se fossem feitos de joias e, como descrevera seu amigo, às vezes parecia um homem alado, mas, se olhasse de novo, poderia parecer um gavião.
– Chegou a hora de irmos, meu amigo – foi tudo que dissera ao menino, que já sabia o que fazer.
Luizinho correu para dentro de casa e seguiu os passos instruídos por Ben, pegou seu brinquedo favorito, trancou as janelas – com exceção de uma, que ficava na cozinha, onde posicionou um banco embaixo – e portas e, por último, foi acordar sua mãe.
– Mãe, nós temos que ir, o Ben falou que aquela coisa que eu te disse naquele dia está chegando, vamos, não temos tempo!
Ela acordava sem entender nada, não conseguindo relacionar “aquela coisa” nem “aquele dia” a nada em sua memória, de forma que, quando percebeu, foi como se tivesse levado um golpe em seu estômago.
– E para onde vamos? – notou que estava sendo levada muito facilmente pela conversa de uma criança, por causa da preocupação que aquilo a vinha causando. – Digo, não vamos a lugar nenhum. Veja, filho, está tudo bem, aqui. Não há nada do que fugir, você provavelmente teve um pesadelo.
– Mãe, acredite em mim, ele me disse! Eles estão vindo! – ele suplicava.
– Eles quem, querido? – ela tentava manter a razão.
– Vamos mãe, depois ele vai nos contar tudo, mas vamos, logo!
A convicção dele a convenceu, por final, aliada ao medo do que aquilo podia significar. Sabia que havia coisas a quais adultos perdiam a sensibilidade e essa podia ser uma delas. Com medo, abraçou o filho.
– Vai ficar tudo bem, mãe. Ele me disse que vai nos levar para um lugar legal – ele se soltou carinhosamente dela e a puxou pela mão, para a entrada da casa. – Não há nem tempo de se trocar, já estamos atrasados e pode ser tarde demais – ele ficou quieto por um segundo, para tentar continuar com a força de um homem crescido, mas sem muita firmeza, por mais que tentasse parecer seguro. – Não, não pode ser tarde demais! Vamos, para a cozinha!
“Meu pequeno herói” ela pensou em dizer, mas foi interrompida por um estrondo na porta da sala, que caiu com o impacto. Luiz parou para olhar e ela gritava, nada podiam ver além de fumaça. O choque passou quando a voz metálica, que parecia ser projetada por várias máquinas ao mesmo tempo, soou:
– Rendam-se agora, saiam com calma e mãos na cabeça, ou usaremos nossas armas. Essa residência está em um local irregular e vocês devem deixá-la agora.
Márcia segurava seu filho pelo braço, ignorando os apelos dele para que saíssem dali. Via algumas luzes de lasers, pintadas na fumaça cinza, que começava a baixar, permitindo que capacetes e roupas de soldados fossem vistos. Não entendia o que estava acontecendo.
-3 – a voz metálica começou. -2…
– Venham – disse Ben, que foi ouvido tanto por Luiz como por Márcia.
O “1” precedeu uma saraivada de tiros que destruía tudo dentro daquela pequena casa deles. Márcia chorava desesperada enquanto via suas paredes, seus móveis e pertences esfarelarem no ar, tudo o que conquistara sendo reduzido a pó ali. Mas, por um milagre, nenhuma bala atingira ela ou a seu filho. Por um milagre, foi o que pensou. Mas a explicação era mais triste. Na frente dos dois, que estavam agachados e abraçados, estava Urso, de braços abertos, recebendo todo o impacto. Ele caiu de joelhos, se segurando com o braço para não desmoronar totalmente.
– Urso – Márcia tentava alcançá-lo, mas Luiz a deteve, tentando puxá-la pelo braço.
– Vá, Márcia, logo nos veremos, vai ficar tudo bem.
– Você promete?
O urso de pelos castanhos claro olhou para trás e sorriu serenamente.
– Sim, agora vá – então ele se virou para frente, levantou-se e bradou – VÁ, MÁRCIA, NINGUÉM A FARÁ MAL, NÃO DEIXAREI QUE NINGUÉM MAIS A FAÇA MAL ALGUM, SALVE O REI DOS OLHOS NEGROS. VÁ – e saiu correndo em direção aos soldados, derrubando muitos com o peso de seu corpo que falecia.
Mãe e filho conseguiram passar pela janela, alcançando a altura com o auxílio do banco. Caíram na parte de trás da casa, onde Ben os esperava. “Ele é lindo”, ela pensou, antes de receber a ordem de se agarrar ao seu pescoço.
– Mas, Ben, você disse que odiava isso! – indagou a criança.
-E odeio, amigo, mas tenho que levar vocês, e será só dessa vez! – e riu.
Algo naquela voz causava conforto aos dois, tanto que em poucos minutos estavam no céu e a terrível visão da casa deles sendo destruída já não os deixava mal. Márcia sentia um pesar por Urso, mas sentia-se, também, muito agradecida pelo o que ele fizera por ela e seu filho, depois de tantos anos em que ele esteve sumido. Os dois estavam montados em Ben, e logo dormiram, deixando que ele os levasse para onde não sofreriam mais. As asas da criatura brilhavam em um céu cinza nublado, projetando-se muito maiores do que realmente eram. Nas cidades, as pessoas tinham apenas um breve instante para tentar assimilar o que viam voando, tamanha a sua velocidade. Os que conseguiam ver, não sabiam o que era, alguns desconfiavam de algo de outro planeta, outros tinham certeza que era um balão ou avião, outros sabiam que era um anjo.
