Na chuva


Chovia e eu estava atrasado para um show que não estava planejado, mas que salvaria meu fim de semana. Apesar de ter companhia, ela era apenas uma desculpa para ver minha banda nacional favorita. Nem seu mau humor habitual, nem a tempestade que alagava a cidade inteira mudariam meus planos improvisados. Observando mais profundamente, percebia-se que era eu que importava naquele dia, o que deixava claro quão sozinho eu me sentia. Ninguém entenderia minha empolgação com aqueles músicos desconhecidos pelo grande público, assim como minha motivação para sair em um domingo chuvoso.

Saber que teria problemas no caminho, aguentando reclamações, depois de uma semana em que todas as escolhas do mundo caíram sob minha responsabilidade, lotando-me de comentários e críticas, sem nada que me ajudasse, de verdade, era desanimador. Se a causa não fosse especial, não valeria o cansaço previsto. E ainda havia os problemas de sempre que voltam a rodear sua cabeça em um domingo típico. O guarda-chuva, como não poderia ser diferente, estava quebrado, então, saí correndo até o ponto de ônibus, parando apenas para esperar o semáforo verde para mim. A água fazia com que minha franja caísse sobre meus olhos e eu, insistentemente, a tirava para não me irritar, mas ela voltava. Havia poucos carros passando na avenida, mas eu tinha medo de arriscar uma travessia antes da hora. Olhei para o lado e vi outro cara vindo correndo na chuva, em direção ao ponto também, vestia-se de forma considerada alternativa, provavelmente indo a algum encontro ou show. O semáforo fechou a tempo dos dois, eu e ele, atravessarmos juntos. Ao menos, o ponto era coberto.

Eu esperava o ônibus pensando em muitas coisas que eu tinha pra conversar, entre elas, como eu não tinha ninguém para conversar. Meus amigos estavam viajando e, mesmo se estivessem presente, eu sempre me sentia como se os estivesse incomodando ou os sobrecarregando com meus “problemas”. Talvez por serem simples, eu não soubesse explicá-los. Mas, mesmo parecendo simples, eram bastante importantes para mim. A pessoa que me acompanharia no show, apesar de muito querida, era um dos problemas. Nessas horas, eu queria adicionar alguém à minha vida. Um estranho, quem sabe, como aquele que estava esperando, encharcado, ao meu lado.

Talvez uma conversa aleatória sobre como a chuva era incômoda, não precisava de nada demais, mas somente alguém para conversar. Ele parecia ter minha idade e ser inquieto. Deveria ter muitos problemas e poucos amigos, já o tinha visto sozinho na porta de uma casa vizinha ao meu condomínio. Nada pessoal, era só meu jeito, jeito dos que se sentem sozinhos com muita frequência, vendo pessoas pelas ruas e pensando no potencial que elas continham. Ele poderia ser um bom amigo para se conversar. O outro baterista da banda poderia ter sido um bom entendedor para se discutir música. A menina que gostava de mim poderia ter sido alguém com quem eu poderia trabalhar com artes. O professor da escola poderia ter sido um grande amigo e orientador. A garota que pediu para que eu segurasse sua mão no avião poderia ter sido uma boa namorada.

O cara poderia estar pensando algo parecido, nunca saberia, pois meu ônibus chegou e eu o deixei. Eu sabia que eu estava sendo injusto pelo momento, influenciado pelo meu humor, e que eu estava rodeado de pessoas que me entendiam, sim. Só espero que todos esses que “poderiam ter sido algo” tenham a mesma sorte que eu, quem sabe até mais, para que não sintam essas lacunas vazias em domingos chuvosos. Eu não poderia conhecer todos que eu queria, não poderia salvar o mundo todo, como eu queria. Sou só um homem, não um herói, com essas ideias que vem e vão e com pequenos detalhes e defeitos, mas que acabam guardados em algum lugar na minha memória.

~ por Igor Esteves em fevereiro 25, 2012.

Uma resposta to “Na chuva”

  1. você falar dos seus problemas pra mim nunca seria algo que me incomoda. posso não ser uma estranha adicionada na sua vida mas eu sou menina, nasci pra ouvir e aconselhar haha posso não fazer isso da melhor forma possível, mas sério, sempre que precisar :) nem que for só pra pedir uma lapiseira hahaha..

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