sobre ter medo do escuro

sobre ter medo do escuro

Em volta de uma mesa de bar vermelha, de latão, iluminada por uma luz focal sobre ela, sentam-se quatro jovens, dois homens e duas mulheres. Sobre cada um deles também incidem luzes focais de cor amarela, vindas de lâmpadas incandescente suspensas sobre os locais onde estão sentados. Na mesa há um balde com três garrafas de cerveja, de vidro marrom, e um copo para cada.

A (homem, 23 anos): vocês já pensaram sobre a morte?

C (mulher, 28 anos): credo, olha as coisas que você vem falar.

M (mulher, 25 anos): mas até que não é uma pergunta muito ruim, eu sempre penso. E, pior, eu sempre choro quando eu penso sobre isso. Desde criança. Minha mãe chegou a me bater, uma vez, para eu parar de frescura. Do nada, eu comecei a chorar e gritar pela casa, quando eu tinha lá meus nove anos, “eu vou morrer!!”.

E (homem, 24 anos): depende. Às vezes eu lembro que vou morrer, aí fico acelerado, querendo viver as coisas todas de uma vez.

M: mas não é assim que funciona a vida, né?

A: claro que é! Eu acho que a gente perde muito tempo com besteira, com disfarces, querendo fingir que não sente o que está sentindo!

E: O que você quer dizer com isso? O que você acha que não está vivendo?

M: diz aí, é alguém que você quer pegar e não pode, E? Mulher casada? Ou alguma droga que você quer usar e está com medo? O que é?

C: ai, gente. Deixa ele. E ele tem razão. Esse negócio de trabalhar 40 horas por semana por exemplo. Pra mim, é escravidão. Nós temos medo da prisão, sem ver a nossa própria. Eu mal consigo fazer as coisas, porque estou sempre exausta!

M: é escravidão total! Por isso eu vivo tranquila com os meus freelas. Assim, eu não sou muito mais livre que vocês, não. Mas não sou obrigada a ficar ouvindo babaquice de chefe machista, pelo menos. Se encher o saco, eu já chuto pra longe.

E: a vida é curta demais, mesmo! Curta demais e eu demorei muito tempo pra me assumir o viado lindo que eu sou, hoje. Isso é o que mais me aperta no peito, lembrar do adolescente tímido e retraído, nada a ver comigo que canto beyoncé bêbado em karaokê de qualquer bar de esquina e posto foto da bunda no instagram e

A: eu precisava ser mais que nem, você, E.

M: com certeza, eu super queria ver umas fotos sua pelado no Instagram, lindinho.

C: hoje você está atacada, hein M. Você está deixando o menino envergonhado!

M: que nada, ele só precisa beber mais! Me dá seu copo, aí!

M enche o copo de E.

A: mas até que é verdade, isso. A gente tem umas nóias com o corpo, tantas amarras desnecessárias. Eu queria é viver alguma coisa bem livre, e poder tirar a roupa é uma expressão, também, não é?

E: ai, com certeza. E pra homem afeminado bicha é um manifesto, saca? De existência, de subversão, de resistência!

A: não deve ter sido fácil.

E: não, não é fácil.

C: mas você está feliz e plena!

E: pleníssima!

As luzes sobre as duas sobre as duas meninas e sobre a mesa se apagam. Somente os meninos ficam iluminados.

E: ei cara, mas, sério, se tiver algo que você queira falar, pode contar pra mim. Beleza?

A: eu sei.

As luzes sobre as meninas e a mesa se acendem novamente.

A: e tem esse lance também de reprimir o desejo. Às vezes a gente só quer beijar uma boca! Não deveria ser tão errado, assim, querer algo desse tipo!

As luzes sobre os meninos se apagam, deixando a mesa e as meninas iluminadas.

C: ih, M. Será que é você que ele quer beijar?

M: não sei, mas ele tá ficando soltinho.

C: ai, ele é tão fofo, né? Tímido assim.

M: essa boquinha, meu deus! Eu não aguento.

M batuca os dedos sobre a borda do copo. No instante seguinte, as luzes sobre os meninos se acendem novamente.

C: vocês ainda são uns meninos. Jovens, tem nada que pensar em morrer.

A: mas pensar em morrer talvez seja o melhor a se lembrar para poder viver!

E: às vezes a gente tem que correr mesmo, se destruir, fumar sem medo do câncer – aliás, me vê um cigarro, M? Mas, tem vez que a gente só tem que aproveitar as coisas, tipo essa conversa nessa mesa de bar.

As luzes sobre C e A se apagam. M entrega um cigarro para E, que o posiciona na boca, enquanto M tira o isqueiro e acende a ponta do cigarro.

E: obrigado.

M tira outro cigarro para si mesma e o acende. As luzes sobre C e A voltam a se acender.

E: o que vocês querem fazer ainda, antes de morrer?

C: você fala como se isso fosse acontecer já, já.

M: nunca se sabe!

C: credo, gente! Antes de morrer, eu quero viajar pra uma praia bem paradisíaca com meu mozão.

E: eu quero ser famosa, e foder um monte!

M: eu quero beijar uma certa boca, é tudo que eu peço!

A: eu quero ficar pelado ao ar livre!

Todos riem.

A: mas também quero viver um grande amor.

C: gente, que fofo!!!

As luzes sobre C e E se apagam. M e A permanecem iluminados.

M batuca sobre a borda do copo.

M: você quer mais cerveja, A?

A: não, obrigado. Estou bem, já. Até meio alto.

A olha para o chão.

As luzes sobre E e C se acendem.

C: mal falei no mozão e ele está me ligando, para ir embora. Quem vem comigo?

A: hã, E? Sua casa é caminho da minha, não é? Como você vai voltar?

E: metrô! Vamos juntos?

M: ai, eu acho que vou com você, C.

C: então, vamos! Que ele já está perto. Você paga, E?

E: folgada! Mas pago, sim, vai lá querida. Amei ver vocês!

M: tchau, lindos!

C: boa noite, meninos.

As luzes sobre M e C se apagam.

A: bom, vamos embora?

A se levanta da cadeira.

E: deixa só eu pagar.

Todas as luzes se apagam.

A luz antes posicionada sobre a mesa se acende novamente, mas com A de pé sozinho sob ela, dessa vez. A mesa e as cadeiras não estão mais presentes. Ele tem as mãos nos bolsos e a cabeça baixa. Instantes depois, E volta sem o cigarro e se posiciona também sob a luz.

Os dois ficam lado a lado, olhando para frente. A tira as mãos dos bolsos.

E: nossa, até que esfriou.

A: sim, não estava esperando essa virada de tempo, não.

E: Você vai pegar a linha vermelha também, né?

A: vou, sim.

E: que bom, podemos ir conversando mais.

A: E?

E: fala.

A: você tem medo?

E: do que? Da morte?

A: na verdade, não. De ser gay.

E: bastante. Mas a gente não pode se curvar pro medo. Tem que resistir. E existir!

A: e da ridicularização? Dos comentários maldosos?

E: ah, isso aí machuca, mesmo. Não foi fácil superar, e não posso dizer que não me atingem mais. Mas os comentários afetuosos, hoje, são maiores.

A: você é foda.

E: você é um querido. Mas, por que pergunta?

A não responde.

E: A, me diz.

Os dois se viram para ficarem um de frente pro outro.

E respira fundo e movimenta-se como se prestes a falar, mas vacila e solta um suspiro sem dizer nada. Os dois voltam a se virar de frente. Em silêncio, E pega a mão de A. Os dois continuam de mãos dadas por poucos segundos.

Todas as luzes se apagam.

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não estou falando sobre amar

não estou falando sobre amar

eu devo ter deixado entrar quando abri a janela, depois de um longo dia refugiado da luz do sol. nem percebi passar por mim. e sem que eu o visse, sem que pudesse dizer qual sua forma, foi tomando todos cantos, e as coisas ao redor foram ganhando um tom claro. tomei consciência do espaço do quarto, e o que antes era lugar passageiro torna-se destino.

não esqueça de regar as plantas. fazer a barba e se olhar no espelho. deixar os olhos caírem sobre coisa alguma e encontrarem repouso desse turbilhão de informações. parar, enquanto arruma o quarto, e ler um poema de um dos livros de cabeceira. tem que fazer tanta coisa, mas é bom também fazer um pouco de nada. que às vezes a vida é viagem rápida que temos que aproveitar, mas às vezes é o que está parado sempre ali que merece nossa atenção.

chegamos aqui e isso é o que estamos vendo. amanhã, a paisagem é outra, o chão sob nossos pés muda. quisera eu perceber hoje o que só vou poder ver com os anos. me contento, no entanto, em compartilhar o que vejo agora. que é pura e autêntica essa nossa meninice, ora imatura demais que nos faz errar, mas tantas vezes oportuna que nos alegra.

lembrar que é tudo bem querer uma vida calma, quando todos os outros estão ocupados somente com a corrida pelo dinheiro. e, quando correr, que corra por sua paixão, sem ligar que doa e destrua.

nada disso é sobre amar alguém, nem sobre o que vem depois. talvez seja sobre o que precede.

estou falando sobre florescer

estou falando sobre florescer

não sei nem dizer do que eu sou, você sabe? não me importa que isso seja uma falha. não se conhecer, não conhecer seus próprios desejos. ainda tenho tempo para saber mais de mim. você vai ter tempo para se conhecer melhor. gosto da sensação de chegar na porta dele incerto do que me espera, do que quero. no fim, minhas mãos sabem o caminho.

sei pouco, mas posso dizer que gosto de observá-lo tirando a roupa, de ver sua cueca cair até os seus pés para arremessada pra o canto. mordo seus lábios, desço minha boca pelo seu corpo. procuro por seus olhos, me agarro às suas costas, sinto as suas mãos.

quando rola seja lá o que for que acontece entre duas pessoas se querendo – querendo se amar, se beijar, querendo meter, querendo se comer – um segurar na mão é uma bomba química.

é esse tesão que me é motor para querer falar e querer escrever.

ele pulsando, e eu deixo de estar em qualquer outro lugar que não bem ali e sou só um turbilhão de sinapses. explodo num emaranhado de tesão, de palavrões, da culpa e do medo que nunca deixam de existir por inteiros, e da sensação que nem nome deve ter, mas que é doce.

sobram apenas estilhaços de mim, numa cama tomada pelo silêncio. vulnerável. um pouco mais quebrado a cada vez, consciente de que me destruo. que, quanto mais quebrado, mais difícil será de se consertar. sabendo também, e apesar disso tudo, que me preservar não é mais uma escolha. é um alívio poder se sentir assim, perder o domínio e estar vulnerável. como um anjo, que sorri quando lembra dos arranhões que carrega nas costas.

pra conversar do amor

pra conversar do amor

me leva junto, que hoje eu não tenho hora pra voltar e quero tanto conversar. subo no palco com você, se isso te der coragem, ouço tua conversa de bêbado de como sou teu amigo viado favorito, dou risada mesmo sabendo que isso está errado. imaturo, ele grita um palavrão no meio da avenida angélica e é cedo na madrugada, ninguém além de nós dois andando, ainda está escuro e frio, as pessoas nos prédios ao redor dormem e o grito ecoa pra longe. porra! finjo preocupação, mas a real é que foda-se, se vierem atrás a gente inventa uma mentira. dá vontade mesmo de gritar. me ajuda que eu sou ruim nas artes, mas tem tanto que quero falar dessas fotos e desse verão que passou por nossos corpos. me ajuda a não perder esse sol, que quero mostrar minhas tatuagens. te tiro de casa pro restaurante de sempre, o melhor que tem, pra falar de quem não beijamos no carnaval e do que nos espera nas terras mexicanas. é tão errado querer (e como quero!) um beijo assim? apareço tarde da noite na sua casa, pra dizer coisas ao seu ouvido e te agarrar. dirijo até o restaurante pra te levar pra comer feijoada no sábado, depois durmo no seu sofá. a gente termina emocionado, falando que a música brasileira é foda, que arrepia na alma. vai, me leva, pra gente conversar.

aí eu te digo que essas tuas perguntas são as mesmas que eu me fiz, que eu me faço. e que desconfio não terem resposta.

e que também suspeito de que não chegamos ao lugar errado. a vida é isso mesmo que estamos vendo.

pra pegar o próximo trem

pra pegar o próximo trem

Voltávamos cansados para casa, meu irmão e eu, nós dois de pé no vagão do metrô da linha verde. Não falávamos, já havíamos conversado sobre todas as coisas. Não era um silêncio de estranhamento ou rompimento, existia um companheirismo entre nós que tornava desnecessárias palavras à toa. Depois daquela tarde sem rumo, andando sob o calor do sol, me sentia esquecido de tudo que não pertencesse àquele momento. Eu me sentia calmo.

Meu irmão, mais velho em pouco anos, é quem puxava os passeios desse tipo. Estava absorto em seu cansaço, olhando para a tela do celular, com o corpo encostado na haste de ferro. Vestia-se com camisetas largas e calças de agasalho cinza, a barba rala cobria seu rosto de forma esparsa e o cabelo tinha sido raspado na máquina três. Os olhos, vermelhos e caídos depois do baseado. Apesar dessa aparência de pessoa tranquila, era a irritação que o movia. Mais cedo, tinha entrado no meu quarto e perguntado o que eu estava fazendo antes de me puxar para fora de casa, sem deixar que eu terminasse minha resposta. “Para com isso, nós vamos para a rua, é sábado e olha esse sol.” Passamos por livrarias, de lá fomos comer hambúrguer e então fomos curtimos o pôr-do-sol numa praça quase esquecida da cidade, sem nos preocuparmos com o horário de voltar. Quando sentimos que queríamos ir para casa, pegamos o metrô.

Eu, chapado também, estava olhando fixamente para ele ali no vagão, observando o seu jeito, quando ele me pegou o encarando e perguntou “o que foi?”. Eu respondi que não era nada, mas compartilhei um pouco do meu pensamento com ele. “Quais são as coisas que te deixam tranquilo? Que te deixam calmo, sabe?”

“Eu sou calmo, naturalmente” ele respondeu, se divertindo com o tom de piada interna que tinha o que falara – todos, inclusive ele, sabem que ele é inquieto. “Não é porque eu não sossego e porque eu reclamo de tudo que eu não seja calmo, existem momentos. Eu sou de picos de energia, tenho que aproveitá-los para fazer as coisas. No espaço entre eles é quando eu busco organizar meus pensamentos para não ser só barulho.”

“É real. Acho que barulho é o meu estado de mente mais comum. Mas, olha só. Fim de semana passada eu fui no parque”, eu continuei “e teve uma hora que bateu uma brisa fresquinha, depois de ter dado algumas voltas andando com o boy, quando já estávamos sentado sob a sombra das árvores, eu estava com a cabeça apoiada no ombro dele e ele segurava minha mão, e o mundo nem parecia ser tão bosta assim.”

“O poetinha está apaixonado.”

“Vai se foder!”

Próxima estação: Tamanduateí, avisou aos passageiros a gravação com voz de mulher. Era a estação em que íamos descer, então saímos do corredor para mais perto das portas.

“O importante é saber que existem momentos. A gente fala muito sobre equilíbrio, mas essa é uma ideia inalcançável. Nem por isso, não temos que tentar. É só sentir para que lado estamos pendendo, pra qual lado está mais pesado e ter consciência de que é preciso fazer algo para cair um pouco pro lado contrário. Mais que consciência, se mover para isso. O que não podemos é estar sempre em calmaria, ou sempre em tensão. Olha,” me puxou para perto da porta e disse próximo ao meu ouvido “hoje é sábado, as pessoas ainda estão com pressa. Quando essa porta abrir, eu vou sair correndo e você fica e observa. “

Olhei ao meu redor e o vagão estava cheio, levando em consideração que era sábado. Todos os lugares para sentar vieram ocupados no caminho e havia pessoas de pé nos corredores. Entre os passageiros, senhoras e senhores que entravam atrapalhados empurrando e trombando com os outros, indo com pressa em direção ao primeiro assento disponível; adolescentes que se dividiam entre os barulhentos que falavam em voz alta excitados pela ausência de supervisão adulta avisando que estão chegando para dominar o mundo e os outros jovens que estavam imersos nas telas de seus celulares, curtindo fotos e respondendo comentários em aplicativos ou jogando e mandando mensagens ofensivas para os outros jogadores; famílias voltando de passeios em parques e shoppings ou indo para uma sessão de cinema; trabalhadores dormindo com o rosto encostado na janela, num sono tão profundo que mal percebem os vendedores ambulantes que gritam anunciando seus produtos; e tantos outros perfis.

Assim que as portas se abriram, meu irmão olhou para mim e disse “tchau” antes de sair correndo, disparado em direção das escadas rolantes que davam para a área de baldeação do metrô para os trens da CPTM. Alguém viu que ele corria e começou a seguí-lo no mesmo ritmo e outro alguém viu essa pessoa correndo e também o imitou, até que, nessa sucessão, todos saíram correndo. Não tive tempo de reagir, fui empurrado para fora do vagão que em pouco mais de um segundo se esvaziou por completo. Não havia sobrado uma única pessoa dentro. Todos haviam saído correndo, inclusives pessoas que estavam sentadas no banco quando o trem parou e que provavelmente não planejavam descer naquela estação. Eram algumas centenas de pessoas como uma manada furiosa que se empurrava e que se afunilou nas escadas. Não durou muito tempo, desciam as escadas com o passo acelerado, apesar do perigo que isso representava e logo a massa de pessoas foi sumindo. Era possível acompanhar a localização delas pelo barulho que causavam, os pés batendo com peso no chão, uma batida frenética que foi se distanciando até cessar de súbito. Quem entrava pelas catracas corria para seguir o movimento. Alguns idosos ficaram, naturalmente, para trás, desorientados sem saber como acompanhá-los, dadas as suas limitações. Os seguranças e funcionários da estação assistiam atônitos à cena. Tamanduateí não era a estação final daquela linha, o que tornava absurdo o trem ter esvaziado daquela forma. Continuei andando e, um pouco antes da escada, meu irmão me esperava.

A breve corrida o havia cansado e ele tentava controlar a respiração, entre acessos de risos, que me contagiaram. “O próximo trem deve passar só daqui uns quinze, no mínimo dez minutos” ele disse. “A gente não sabe porque está correndo. Nem para onde”.

Eu não soube o que responder. O barulho tinha feito com que o silêncio que seguiu se fizesse ainda mais notável. Era como se o mundo dissesse vocês vêm, fazem o barulho e os estragos que quiserem, corram à vontade e se destruam, depois que passarem, todo o resto fica. Para sempre. E nós estamos de passagem, eu lembrei, e nem sabemos como é depois que acaba. E conforme esse pensamento ganhava espaço na minha cabeça, meu coração acelerava e todas as minhas vontades surgiam urgentes, eram tantas e eu estava atrasado para realizá-las. Eu estava atrasado e a nossa passagem por aqui estava cada dia um dia mais próxima do fim. Essa ideia começava a me sufocar, ficando gigante, maior do que eu, num brevíssimo instante. Mas o que importa é o pôr-do-sol chapado com meu irmão, me forcei a lembrar. O que importa é o beijo sob a sombra da árvore no parque depois de uma noite gostosa de curtição com o cara que eu gosto. O que importa é o instante de agora e todo o resto, bom, todo o resto fica.

Fui tirado do meu transe pelo meu irmão com um “bora”. Chegamos na plataforma ao mesmo tempo em que um trem estacionava para o embarque dos passageiros. Ainda tinha mais meia hora de caminho pela frente. Fizemos esse último trecho sentados. Meu irmão encostou em meu ombro e me chacoalhou para me acordar, quando chegamos à nossa estação. Abri os olhos devagar, descemos e fomos andando, já tendo começado a escurecer, até nossa casa.