vertigem

vertigem

De cabelo recém raspado totalmente, os olhos são expressivos, contornados pela sombra que seus cílios compridos formam, a pele é morena e o rosto tem traços finos, mas que expressam seriedade. Já passou dos vinte e cinco, mas algumas pessoas acreditam que ainda tenha dezenove. Veste uma camiseta regata preta, sem estampas e de alças finas, e uma calça jeans com buracos rasgados nas duas pernas que mostram seus joelhos. Os dentes são perfeitos, mas quase não os exibe enquanto tira suas fotos no espelho do elevador, que não teve sua descida, do décimo segundo andar ao térreo, interrompida por outros passageiros.

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texto vagabundo de verão

texto vagabundo de verão

Verão,  começo de janeiro de 2017. O sol cai em dourado sobre todas as coisas, como se vestindo a todos num tema festivo tropical, as pernas brancas refletindo a luz e as bermudas curtas. É tempo de migração, apesar de alguns bichos desorientados permanecerem, desejando que não fosse tão obrigatório estar contente. Ainda assim, essa claridade e esse calorzão, teu riso fácil, nesse suor todo, quase são suficientes para não se importar com nada. (…)

No outono de 2016, depois da trilha e das cachoeiras e de alguns tombos, as pernas tremiam diante da descida pela parede de pedras que dava naquela piscina com a vista mais bonita de todas para o coração verde mais verde do país, onde vários pulavam e contemplavam e se contemplavam em selfies e se divertiam, enquanto me tremia a vontade mas me faltava coragem – um pé que escorregasse seria o último dos deslizes. (respiro)

Alguns dias para o fim de janeiro de 2017 e tivemos só chuva. Meio borrado de cinza de cidade linda com o azul mais melancólico, o verão entra em introspecção num quarto, sozinho, ouvindo elliot smith e pensando em que há sempre um sofá na festa para você sentar e sobrar esquecido, lembrando de cada diabo – que, pro seu terror, talvez seja você mesmo – e que esse calor todo é que traz a chuva e o raio que ilumina o que você tem de mais vagabundo. (…)

No último domingo de sol de janeiro de 2017, não fosse as pedras escorregadias, tivesse eu mais firmeza nas pernas e a água não estivesse gelada daquele jeito e eu teria entrado debaixo da pequena cachoeira. Faltou coragem, apesar de estar em contato com a natureza, envolto em energia de renovação com os pés e corpos molhados na água cheia de vida e movimento, acompanhado de amigos

(meus amigos

quando me dão a mão

sempre deixam

outra coisa

 

presença

olhar

lembrançacalor

 

meus amigos

quando me dão a mão   

deixam na minha

a sua mão*)

 que me encorajam e me dão a mão para encarar o que o medo me impede de fazer. Congelado, sinto na boca o gosto do risco que não experimentei e lamento o momento perdido – mas confesso a felicidade que há, apesar dos desperdícios e dos não-vividos. (respira)

O verão de 2017 ainda não acabou e nas ruas da cidade linda sem praia as pessoas andam nos skates, de torso nu, e ainda vão suar por mais alguns meses.(…)

Se perguntarem do verão de 2016-2017, vou dizer que quis cair dentro de um olhar que se prolongou por estações e que se tivesse durado um pouco mais, se eu tivesse me mantido encarando, encantado, pela menor fração de tempo que existe, se eu não tivesse escorregado já no limite, eu teria mergulhado de cabeça em cachoeiras da altura dos céus (com todas as cores e chuvas que esses céus tiveram nesses dias de calor). Sem mais temer, quero terminar o verão assim, mergulhando em águas frias, em você, em mim, em pura vida. (solta)

* poema de Paulo Leminski

o furacão leva todos

– porra, cara, de repente eu sou furacão e, quando acabo, não sobra nada. e, quando não sou visto por ninguém a não ser por mim mesmo me encarando num espelho quebrado, surgem algumas dessas ideias. de que tocar violão para a música se perder antes de alcançar qualquer ouvido vivo é de uma poesia de significado tão raso quanto qualquer coisa que transcrevi nessa juventude, sempre profundamente enganado ao pensar estar certo do que queria dizer. nem nunca soube tocar violão e nunca entendi porque quis tocar bateria morando nesse apartamento pequeno. foram muitos discursos infindáveis para compreender que a resistência a me calar era somente por não querer enfrentar todas as confissões que eu tinha e que são o que se resta quando se esgotaram as mentiras. mesmo que elas não tenham valor, nesse fim de mundo que me cerca, são de pronúncia dolorida. vícios e prazeres, que eu não digo, me movem mais do qualquer motivação que se possa pronunciar. eu sou, mas incerto do querer ou não querer ser, todas essas coisas que não consigo dizer. eu calo, não agora. e seria bela, não fosse por sua obviedade atroz, a minha história, do consertador de computadores que sonhava em ser poeta. criança chorona que encheu a paciência dos pais e nunca se fez confortável no mundo em que nasceu. adolescência fora do lugar e mal resolvida, ecoada em tantas conversas do adulto que virei. de ossos de mais angústia do que cálcio.  viajador das estradas que se enjoa com o movimento dos ônibus. pancadas rápidas que derrubam cidades. mergulhador que tem medo da força com que o oceano o puxa para baixo. nunca muito mais do que algumas referências soltas que não conseguem se conectar para virar algo inteligível. eu nem sei mais, cara, sabe? o ano acabou, é um milagre que ninguém tenha morrido, eu ainda não quis aprender a fumar e deve existir algo de bonito nisso tudo, mesmo que seja só na superfície. e, se for realmente só na superfície, se for assim tão simples e tão perto, é até melhor.

segredo de torcedor

(contado no silêncio)

palmeiras foi campeão do brasileiro de 2016, as ruas se encheram de alegria. desceram a paulista tantas pessoas na euforia sufocada por mais de dez anos e andavam em explosões de fogos de artifício, que até nos assustavam. nem tudo era belo e eu estava feliz, indiferente à qualquer feiura que nos topasse. eu nem era dali e nem nunca fui daqui, mas tanto faz. ainda é tarde, para quem quer ficar e não se importa de sair só quando for cedo. a água gelada que caía na noite de fim de primavera sobre aquelas pessoas saudáveis que iam pela avenida era muito alegria. e, para ficar, não precisa nem falar. existe tanta palavra na ausência da palavra, tanto beijo na distância entre as bocas, tem um todo no espaço (sideral astrológico) entre os momentos. que o pranto quieto diz tudo. que o abraço mudo é pra acalmar cá. que o nada é tanto. diz na voz rouca de quem perdeu toda a garganta no grito (de vitória! de loucura! de glória! de bravura!). diz na voz mansa, que é só o que a gente precisa. diz nada não, que assim tá bom. palmeiras foi campeão, eu sou corintiano e não podia estar mais feliz.

a cidade de são paulo não tem mar

Estou apaixonado por uma cidade, mas ela não ama. Ela é chuva na noite que se ouve do quarto onde, não fosse por seu cair e pela respiração de dois rapazes em fervente entrega, seria somente silêncio.  A cidade que eu vi era concreto vazio, construída inteira, em seus labirintos e a partir dos meus passos, para abrigar o seu corpo nu bem ali, em toda a poesia que se fala por ele de mansinho, perto de mim.

Com você, vi uma cidade em sua imensidão. Nela, ao compartilharmos nosso mais íntimo, de dentro às palavras, dividindo a mesma cama, estaremos distantes para além do alcance da entrega de qualquer carta. A cidade que nos aproxima nos afasta. A cidade que nos aproxima nos detesta. Eu abro a minha mão e solto a sua porque os olhos dela deram a ordem.

Estou apaixonado por uma cidade, mas ela é medo.

Quem desceu trazendo misericórdia para São Paulo voltou desejando o seu fim. Subiu ao céu logo no primeiro dia à partir do centésimo andar de uma das construções que cobrem todo sol. Não há santo que por aqui salve uma alma. Não é um caso de amor cego, pois não há como se esconder dos olhos tamanha crueldade. Pintam de sangue nossas ruas, para o senhor e a senhora de bem passarem por cima, em finesse, assim como pintam de prata as crianças para que ninguém, ninguém mesmo possa vê-las, e pintam de branco nossa cultura, para que nada mude. Estou apaixonado por uma cidade, mas ela mata.

Ainda assim, há dessa teimosia que arde na pele, que é fogo que não deixa de queimar, alimentado por cada vez que eu lembro dos dias em que conheci alguém, dos beijos impossíveis que dei – pois aqui amar sempre será um ato de bravura estúpida -, de quem eu salvei e de quem me salvou.

Estou apaixonado por uma cidade, porque ela é memória.

Nessa cidade, tem outra casa cheia de flores pra você. É lembrança que dói quando todo o seu caminho está descolorido em cinza que esfria o peito e aperta na garganta deixando apenas que escape um grito inaudível. É fotografia que captura o momento impossível do escalar das montanhas e guarda para que se acredite, no futuro em que os pés já não creiam no caminho, que ainda se pode conseguir, pois um dia houve aquele momento. É um, são dois, são três, são todos os beijos que mexem essas bocas, com toda essa saliva e esses lábios quentes, que viram memória logo em seguida, que trazem sorrisos bobos a essas mesmas bocas, de felicidade boba que incomoda os que não creem. É vida que é fogo, que é teimosia que nos queima vivos.

Se queima em esperança, haverá de iluminar essas ruas sujas, para que não sejam mais tão assustadoras, e esses esqueletos velhos, para que se aqueçam de volta a dançar. É fogo que é vida e vida não se apaga, muito menos com violência. Tal provocação, de querer viver e de querer brigar para que se possa existir, diante da frieza indiferente de uma cidade pela qual estou apaixonado, mas que não deixa ninguém amar, é só amor.