not so long after dawn

not so long after dawn

em algum momento antes do fim do seu dia, os dois copos de vinho já foram rápidos em fazer efeito e você se sente calmo, você percebe que não quer mais aquela dor.

em algum momento do ano novo, acompanhado de amigos queridos, você também pensou nisso. que talvez sofrer fosse opcional.

você deixa de mandar um email para alguém que marcou seu passado.

você volta atrás em uma mensagem enviada.

na festa, você procura outros abraços, outros parceiros.

numa quinta a noite perdida em promessas vazias, você chora, mas entende que foi melhor desse jeito mesmo.

por dias você esperou alguma resposta, algum sinal de vida que não vinha e, quando vinha finalmente, era frio.

e pra cada um deles, você pensou ter encontrado e escreveu sobre isso. 

quando você olha com vista limpa, você vê que já não te faz bem. e o que era gigante, o que era tudo, fica pequeno.

lembro de um show do vanguart em que fui sozinho. hélio, antes de tocar uma das músicas mais famosas da banda, disse que a escreveu em tempos que andava pela cidade, no transporte público, sentindo-se só. ele diz, olha pra ti.

essa busca pelo outro que nunca acaba, que eu tenha a sabedoria para que ela termine em mim.

é carnaval e as ruas são tão coloridas

é carnaval e as ruas são tão coloridas

Já é carnaval, as ruas da cidade vão sendo tomadas por algum tipo de magia que ocupa todo espaço, ficam cheias de gente que esperou um ano inteiro para poder voltar a ver a cidade que é sua – você só vê o que essa cidade é de verdade, em sua única forma possível e sincera, em fevereiro. 

Lembro do Hugo me dizendo que as pessoas precisam desse período para poderem extravasar porque sem isso elas enlouquecem. O que é loucura nesses dias – a fantasia que se usa no meio da multidão, a vergonha que não se sente de estar com pouca ou nenhuma roupa, o amor que não se conta – é o que a gente deseja viver, por tantas vezes reprimido, e por isso é o que a gente precisa. 

Esse ano, eu prometi, serei encontrado bêbado todos os dias e não direi a que horas vou voltar e nem vou me importar para onde vou voltar, como criança que se deslumbra com as ruas coloridas e segue um caminho e se perde, vou seguir qualquer bloco e qualquer música, vou acompanhar qualquer outro bêbado que nem eu até onde vamos nos amar e de onde eu não vou mais saber voltar.

Olho para minha amiga Angélica e falo vamos comigo para Santa Cecília comprar flores depois de algum bar ou café, ela me acompanha, me compra um café, eu começo a contar histórias sem sequer conseguir parar para respirar porque elas não me dão esse tempo, eu falo que tenho que ir, vou para a minha vó, quero levar uma plantinha para ela, me ajuda a escolher.

No meio da multidão eu pergunto para minha amiga para onde você quer ir? Ela me responde devolvendo a mesma pergunta e eu não sei, falo. Eu quero ficar sozinho.

Na beira do mar, com as ondas tocando os meus pés e o sol queimando minha pele, construo um barco com madeira que encontrei no caminho, eu vou para o fundo e quando não vejo mais a terra e onde ninguém pode me ver, mergulho primeiro os pés, e depois entro na água com o resto do corpo, me deixo afundar e, sem nunca chegar ao final, eu sigo afundando e vendo, cada vez menos conforme a luz da superfície não me alcança, as vidas marinhas que não entendo. 

Volto para a superfície a tempo de um amigo me encontrar, me pegar pela mão e falar vamos nadar sem roupas?

É terça-feira à noite e as pessoas persistem errantes nas ruas, sem um caminho e sem querer se despedir, então elas só andam, bebem mais, dançam por alguns poucos minutos até as pernas cansarem, caem em braços de desconhecidos e caem no chão, por fim. Um homem me encara quando chego ao centro e logo nos beijamos, ele me leva abraçado até a minha cama. Vou à cozinha pegar água e quando volto o vejo deitado, meu cobertor deixa à mostra suas coxas, sua bunda e suas costas, eu chego junto e me deito ao seu lado.

E quando ele vai embora, eu fecho a porta, volto para a cama e abraço o cobertor, aproximando do meu rosto para poder sentir melhor o cheiro que ele deixou.

É carnaval.

as pernas que tremem

as pernas que tremem

ou apesar dessas pernas que tremem

esse meu amigo me diz muitas coisas e um dia desses, em uma análise do que eu contava para ele, ele falou você tem muito medo para alguém que dá tanto valor e vê tanta beleza naqueles que subvertem o que é comum e têm esse jeito doidinho. 

eu estive em muitos lugares, fui para onde não conhecia ninguém, de novo e de novo. eu fui amado, eu também já fui embora. eu arrisquei beijos perigosos, eu me entreguei, e também já fui imprudente. subi montanhas, cruzei rios, dirigi por estradas na chuva. já andei e amei bêbado, eu dancei sem saber dançar. eu já até desisti do que parecia ser o único caminho e fui em direção ao que era somente incerteza. 

e nada disso eu fiz sem estar com medo. para mim, é sempre um mergulho de um lugar bem alto até águas geladas. e são os loucos que mudam tudo, que embriagados não conseguem andar em linhas retas, que me tiram a terra sob meus pés, o oposto de mim por vezes, que me encantam. 

vamos assim mesmo, com a perna tremendo, em frente. até o final.

eu não sei como falar que sinto sua falta em espanhol

eu não sei como falar que sinto sua falta em espanhol

num lado da rua uma dupla de funcionários da companhia telefônica concentrados no conserto da fiação com lanternas acopladas ao capacete, um grupo celebra com bastões faiscantes um casamento do outro lado da mesma rua, um casal se beija na entrada da estação.

é noite quente e gostosa depois de um dia de tempo confuso, a minha febre já está passando depois de três dias me fazendo suar.

um copo de café e uma playlist de post rock (nela uma música de um EP específico chamado the earth is not a dead cold place do explosions in the sky que me traz tanto sentimento mas que me lembra de um amigo que já perdi contato e isso aperta meu peito) me deixam sensível e falador como o diabo.

toda vez que fervo de febre me sinto Sal Paradise deixado para trás por Dean Moriarty no méxico. nunca ficou certo quem desses eu era, mas isso ficou para outra época. fui muitas outras pessoas desde então, ainda que em toda febre me lembre.

e explosions in the sky a noite me lembra de quando ficávamos após as aulas no topo dos prédios da faculdade, nos espaços abertos, falando da vida, no verão. e nós éramos só garotos e as noites eram tão bonitas.

o café e essa playlist e um sonho bonito. eu sinto saudades de tudo e agora eu não sinto saudades de nada. acho que é a vida.

músicas tristes num dia frio e chuvoso e outras casualidades

músicas tristes num dia frio e chuvoso e outras casualidades

músicas tristes num dia frio e chuvoso

A vida tem sido rápida. As pessoas são as pessoas. O amor ainda é o amor. Eu estou mais velho e se olho pra trás não me arrependo de nada. Quando olho adiante eu sinto medo.

As unhas tiram sangue da palma da minha mão, fecho os olhos. Árvores caem. Raios explodem transformadores. Carros batem de frente. Templos antigos colapsam. 

Dou um passo à frente e adiante é escuro. O tempo não para e leva o que precisa levar consigo. Você faz o que tem que fazer mesmo que me machuque. Eu farei o que eu tenho que fazer mesmo que doa.

Nossa melancolia é a mais sincera tristeza que se pode ter. Quando ouvi o sertanejo mais sofrido de todos, logo soube, é a minha dor que ela canta. Não dói mais do que isso.

Tenho desconfiado de que é isso. As semanas nubladas e frias duram para sempre exatamente como sentimos. Os dias ensolarados de pouca roupa parque e cerveja com os amigos são inalcançáveis e, ao mesmo tempo, infinitos da mesma forma que as semanas de chuva. 

Se um dia disse que o amor real não dói, errei. Eu ainda não percorri até o final do labirinto, eu ainda não compreendo seus caminhos.

Tudo acaba no azul mais triste e dessa mesma cor surge algo novo.

 

noites quentes em setembro

não tem uma nuvem, o azul índigo, o violeta do céu, a lua cheia brilhando. é o prenúncio mais bonito para o fim do mundo. penso em imagens catastróficas e apocalípticas. tempestades e furacões. meteoros em rotas de colisão. monstros gigantes destruindo prédios. tsunamis varrendo do mapa cidades. foi o curso natural de todas as coisas que fixou essas imagens no nosso imaginário? ou é obra arquitetada para o mal, nos fazer acreditar que estamos chegando ao fim?

é errado amar quando há tanta dor?

 

vermelho sol

o suor. trinta e cinco graus à noite. um quebra-cabeça. os mesmos caminhos, o labirinto. um abraço. a superação. eu estou juntando os cacos. o caderno fechado deixado ao canto. foram três tentativas. as mãos dadas. o sexo urgente. o amigo. um beijo afetuoso. as notas erradas. o violão. terapia. qualquer oração que traga paz. as fotos queimadas. a bicicleta quebrada. parece que só fica mais quente, mais e mais. todo mundo só está procurando por carinho. alguém para não precisar dizer nada. ainda, quando lembro do beijo que você me roubou, todo sentido se perde.