eu sei cada vez menos

perguntaram-me o que quero. na tentativa de achar resposta primeiro me veio que nesses ossos vestidos em pele em que me colocaram, não caibo. os pés que não conhecem os passos, o quadril que não requebra, os braços que voam ser saber por onde pousar, tenho que ignorá-los para acompanhar a dança. meu espelho é a pista cheia desses anjos de roupa rasgada, de roupa nenhuma, que vão ao chão e suam quando mexem e espalham suas cores, seus cabelos, alguns nem cabelo têm, viado, puta, drogado, os pelos na perna no peito no sovaco, a tatuagem que leva à virilha coxas peito bunda. eu não acredito no meu corpo.

finjo crer que não sei o que é o torpor que me toma quando chegam as horas do dia que são minhas, que o sol em virgem vai me trazer a clareza aos sentidos para que encontre a solução pra mim mesmo, que o sono vai me trazer de volta quem fui. há uma única verdade atrás de uma parede fina que não se pode quebrar, mas translúcida para que se vislumbre o que esconde. ao simples toque, dói o corpo. e sou eu mesmo quem me pergunto o que eu quero aqui? nas horas de metrô, na busca que não termina dentro dos romances, nos aplicativos cheios de rostos bonitos, subindo a augusta quando duas travestis tentam me roubar, sentindo raiva da raiva que tenho do mundo, incontrolável fúria que não se explica porque seu centro é a questão que a faz labirinto.

não acredito em tudo que digo. muito do que faço é desejo de me aproximar da autodestruição que desenham tão saborosa a quem é jovem. eu a sinto quando passo a língua pelos meus lábios, caminhando desregulado por aí. digo a mim que

para tanta sujeira, banho algum te tornará puro novamente. então, avance! mais distante da resposta, incerto de quem se é, ausente do corpo que lhe deram, que pensara ser próprio apesar da ciência de que a posse é ilusão, avance pro fundo dessa lama. verá que tudo em seu jeito é belo.

eu nem estou mais aqui.

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do amor findo

do amor findo

me apaixonei
disse, vindo de lá.
no pouco fôlego
no que me sobrou
na inexistência de palavras
que fossem nome
ao que foi maior que o amor,
além da alegria
do sexo
e da curva
que cai
no corpo
do homem.
me fervi
na febre dos poetas.
fui para lá,
me ausentei.
eu fui,
me apaixonei,
eu sobrevivi.

primeira tentativa

primeira tentativa

primeiro beijo, é seu.
gilete no rosto,
confia ao amigo,
mexe na língua,
que coça os lábios,
que coça na barriga,
e agora que já tem barba,
me diz quem você quer amar,
é bom poder confiar,
é bom poder beijar,
confia.

chuta a bola,
quebra os ossos,
perde o gato,
estoura as cordas,
primeiro bicho vem aos 20,
mas pode vir aos 7,
arrebenta as baquetas,
dilacera o coração,
acha o gato,
mas foge do cão,
cresce e vira homem,
beija todos seus amigos
homens,
acha um emprego,
bebe suas mágoas,
não aprende a dançar,
mas consegue pular,
e pega chuva,
e beija na chuva,
e escreve sobre
como é bom beijar na chuva.

e perde o emprego,
e perde os amigos,
perde o caminho,
pede ajuda,
nem tente entender,
um livro latino,
acaba o curso,
mas não acha seu rumo,
mas encontra os amigos.

fala de anjos,
o gato morde seu braço,
de asas tortas,
cabelos cacheados
e jeito de moleque,
que anda de skate,
e toca guitarra,
que foge do amor.
e que tema a escola,
tema o trabalho,
mas não os dias,
pois tem a mim.

trema,
mas trema de amor
e de viver.

falei como é bom
beijar na chuva?
chega mais,
pula cá,
beije mais,
corra cá.
o primeiro beijo, meu.

dan não se arrepende de nada

dan não se arrepende de nada

Não havia cidade grande o bastante para Dan, então, há cinco anos, ele se mudou para o interior, onde pelo menos teria mais espaço. Ele era um amigo próximo e nunca mais o vi. Recebi uma mensagem sua no meio da semana, enquanto eu trabalhava, e nela me pedia para visitá-lo. Era algo que ensaiávamos e nos prometíamos desde sua partida, e eu geralmente não conseguia ir, pois haviam outros compromissos e outras pessoas. A vida, quando se cresce, é cheia de novas prioridades. Ele, sempre gentil, não se importava com minha ausência e, mais do que isso, me compreendia. Sua mensagem veio acompanhada de uma foto em que ele, em seus muitos metros de altura, abraçava desajeitado ao seu pai, os dois sorrindo, em um píer sobre um rio calmo de águas escuras, o fundo um céu azul. São muito parecidos, mesmos traços, pele negra, ossos largos, mas o filho era magro, fininho, superando o dobro da altura do pai, um senhor encorpado e de barbas e cabelos brancos. Eram sorrisos tão bonitos e eu só podia atribuir essa felicidade que os iluminava às roupas leves que vestiam – bermudas largas, havaianas nos pés, camisas desabotoadas, o mais velho usando um chapéu de palha. Decidi ir. Continuar lendo “dan não se arrepende de nada”

estou indo para casa

estou indo para casa

Era um domingo, depois de 9 dias fora de casa, eu me deitei na cama dele, os dois cobertos somente pelas nuvens a um braço de distância. Eu entregava poucas palavras, para que ele pudesse contar de si. Ouvia atentamente o que ele dizia, enquanto observava o céu mudando de cor, do lilás ao marrom, e de forma. Existe esse olhar íntimo, que me assusta e, contraditoriamente, me afaga e acolhe em um sentimento do qual não consigo seguir escrevendo porque me tira o ar. E, a cada vez que perco o ar experimentando dele, busco uma lasca de definição que seja, mas é esforço à toa. Ali se vai, eu sempre querendo mais. Da sua casa, eu lembro do céu, mas não das ruas que nos levam até lá. Como estar inexplicavelmente fora de si, em um lugar fora de toda cidade, e ainda conseguir estar bem para dormir num sono tão inteiro que até os pesadelos tiveram seu espaço? Dormi, sem querer, no seu peito.

Eu queria ser a pessoa de quem vieram essas palavras: eu sou gay. Não me interessa mais ser visto como alguém que nem todos os outros – não sou. Não sou legal apesar de gay. Eu sou gay e eu poderia me apresentar dizendo “eu sou gay, oi” e isso diria sobre minha essência. Não sou também quem foi de salto e maquiagem à balada. Não fui esse homem, mas queria ter sido. Não fui eu homofóbico até os 18, mas sinto o que ele sentiu. Entendo, vejo, sinto e quase consigo tocar na sua raiva e tomá-la como minha, não a reduzo porque a vejo, participo dela lhe dando razões para que inflame e seja a catarse de que precisamos. O que vejo queimar nele, queima em mim, queima em fúria em homens como nós. E, quando nele apagar, que eu seja, ou não só eu, mas que nós sejamos seu safe place, onde ele poderá descansar. Seguro. Livre. Não fui eu que tive que enfrentar a minha casa inteira, mas tivesse sido. Teria sido melhor para mim.

Arthur, Victor e Hie. Goiás.

Em uma brincadeira, um amigo me provocou sobre a distância do trabalho até a minha casa – um caminho longo que ele percorreu vez ou outra comigo, até que se mudasse para perto do escritório, o que lhe dava o direito de caçoar da minha jornada diária. Mesmo assim, eu via vantagens em ainda morar com a família. Ele confessou que sabia, também, dessas vantagens. No fim, que escolhas temos? Se é dinheiro, ou compromissos, ou dependências, ou mesmo falta de alternativas, ora algo nos prende, ora algo nos empurra. Quando esse meu amigo disse do que o levou a procurar seu próprio lugar nessa cidade, o tom de brincadeira deu espaço ao ressentimento adulto de quem cresceu rápido demais. A mim, sobrou um questionamento sobre o qual eu nunca acertarei na decisão – ir ou ficar? Afinal, se mudar vai resolver o que precisamos resolver?

Anna. Houston, Texas.

2014. Ele me deixou no aeroporto e eu estava deixando Houston, voltando para casa, mas não sem chorar. Nos meses seguintes, ele levou outros de nossos amigos ao aeroporto intercontinental George Bush, para que também o deixassem. Quando eu voltei, foi ele quem me buscou e, na hora de partir, novamente me deixou na área de embarque. Ele nos levou com o coração num aperto, choroso, mas com o sorriso sempre afetuoso de quem se importa. Nunca nos deixou, mas nós tivemos que partir. Ainda que me conte de suas novas histórias, de cada beijo que por um milímetro o tenha escapado, nesses seus dias e apuros de hoje, eu não estou lá para poder consolá-lo como deveria. Por mim, ele nunca mais voltaria dirigindo sozinho para casa.

Lisandra. Vão do MASP, São Paulo.

A briga terminou com todos dizendo que iam embora de casa. Cada um dormiu em um lugar diferente – cama, beliche e poltrona. Ninguém fez as malas.

Ju. São Paulo.

Na estrada, de Nova Orleans a Houston, indo para mais uma semana de aulas, vindo de um fim de semana de passeios pelo velho French Quarter. Era espantosa a fervência do jazz escondido dentro da casinha do Preservation Hall, das ruas povoadas por uma multidão querendo extrapolar carregando bebidas à vista, sem precisar escondê-las em saquinhos de papel, e das noites  de Mardi Gras cheia de seios que se mostravam em troca de um simples colar de bolinhas. No hostel que ficamos, eu era o mais novo e parte de mim ainda não entendia o que essa juventude podia significar. Não bebia – legalmente, não podia beber. Apenas observava eles com a pilha de latinhas de cerveja se acomulando sobre a mesa. Faltava eu me apresentar, pra valer, para que eu fosse parte daquele grupo. Pro meu amigo, branco, loiro e de traços delicados, de personalidade vívida e de agressividade pura não-odiosa, com sua complexidade que caminhava entre a sensibilidade artística e a desatenção charmosa, sentado ao meu lado no banco do ônibus Greyhound da volta, eu me reapresentei, inteiro dessa vez. Eu sou gay, eu disse. Senti que era real a felicidade que ele dizia sentir pela confiança que nele creditei. Eu estava, depois de um bom tempo, voltando para casa, acompanhado de um irmão, para gente se perder juntos nas highways texanas.

Alberes, Rodrigo, Wanderson, Eu e André. Houston, Texas.

Há livros que me recuso a abrir como quem para de frente à porta de uma pessoa em que o desejo de se ver é tão intenso quanto o medo do reencontro, porta na qual a mão nunca chegará a bater. Observados pela janela, todos parecem incorporar perfeitamente o ideal de bondade e civilidade que é a camada certa de disfarce para a humanidade que possuímos internamente. Por trás, está o choro que se esconde dos olhos dos outros, a transa sobre a cama do corno, um sorriso proibido, a recaída em procurar saber sobre quem tanto o machucou no passado, a felicidade de brilho ofuscante, as flores em que a coragem faltou para que fossem entregues,  o talento tímido, o desejo mais sórdido e insuportavelmente sincero, a mais quieta solidão, a bendita miudeza da vida. Há páginas que são demais para mim, há casas em que não ouso entrar.

(tudo isso, nossa luta) É para que você poder encher a boca e dizer alto, alto pra caralho: estou indo para casa.

Eu. Praia.