segredo de torcedor

(contado no silêncio)

palmeiras foi campeão do brasileiro de 2016, as ruas se encheram de alegria. desceram a paulista tantas pessoas na euforia sufocada por mais de dez anos e andavam em explosões de fogos de artifício, que até nos assustavam. nem tudo era belo e eu estava feliz, indiferente à qualquer feiura que nos topasse. eu nem era dali e nem nunca fui daqui, mas tanto faz. ainda é tarde, para quem quer ficar e não se importa de sair só quando for cedo. a água gelada que caía na noite de fim de primavera sobre aquelas pessoas saudáveis que iam pela avenida era muito alegria. e, para ficar, não precisa nem falar. existe tanta palavra na ausência da palavra, tanto beijo na distância entre as bocas, tem um todo no espaço (sideral astrológico) entre os momentos. que o pranto quieto diz tudo. que o abraço mudo é pra acalmar cá. que o nada é tanto. diz na voz rouca de quem perdeu toda a garganta no grito (de vitória! de loucura! de glória! de bravura!). diz na voz mansa, que é só o que a gente precisa. diz nada não, que assim tá bom. palmeiras foi campeão, eu sou corintiano e não podia estar mais feliz.

a cidade de são paulo não tem mar

Estou apaixonado por uma cidade, mas ela não ama. Ela é chuva na noite que se ouve do quarto onde, não fosse por seu cair e pela respiração de dois rapazes em fervente entrega, seria somente silêncio.  A cidade que eu vi era concreto vazio, construída inteira, em seus labirintos e a partir dos meus passos, para abrigar o seu corpo nu bem ali, em toda a poesia que se fala por ele de mansinho, perto de mim.

Com você, vi uma cidade em sua imensidão. Nela, ao compartilharmos nosso mais íntimo, do peito às palavras, dividindo a mesma cama, estaremos distantes para além do alcance da entrega de qualquer carta. A cidade que nos aproxima nos afasta. A cidade que nos aproxima nos detesta. Eu abro a minha mão e solto a sua porque os olhos dela deram a ordem.

Estou apaixonado por uma cidade, mas ela é medo.

Quem desceu trazendo misericórdia para São Paulo voltou desejando o seu fim. Subiu ao céu logo no primeiro dia à partir do centésimo andar de uma das construções que cobrem todo sol. Não há santo que por aqui salve uma alma. Não é um caso de amor cego, pois não há como se esconder dos olhos tamanha crueldade. Pintam de sangue nossas ruas, para o senhor e a senhora de bem passarem por cima, em finesse, assim como pintam de prata as crianças para que ninguém, ninguém mesmo possa vê-las, e pintam de branco nossa cultura, para que nada mude. Estou apaixonado por uma cidade, mas ela mata.

Mas há dessa teimosia que arde na pele, que é fogo que não deixa de queimar, alimentado por cada vez que eu lembro dos dias em que conheci alguém, dos beijos impossíveis que dei – pois aqui amar sempre será um ato de bravura estúpida -, de quem eu salvei e de quem me salvou.

Estou apaixonado por uma cidade, porque ela é memória.

E, nessa cidade, tem outra casa cheia de flores pra você. É lembrança que dói quando todo o seu caminho está descolorido em cinza que esfria o peito e aperta na garganta deixando apenas que escape um grito inaudível. É fotografia que captura o momento impossível do escalar das montanhas e guarda para que se acredite, no futuro em que os pés já não creiam no caminho, que ainda se pode conseguir, pois um dia houve aquele momento. É um, são dois, são três, são todos os beijos que mexem essas bocas, com toda essa saliva e esses lábios quentes, que viram memória logo em seguida, que trazem sorrisos bobos a essas mesmas bocas, de felicidade boba que incomoda os que não creem. É vida que é fogo, que é teimosia que nos queima vivos.

Se queima em esperança, haverá de iluminar essas ruas sujas, para que não sejam mais tão assustadoras, e esses esqueletos velhos, para que se aqueçam de volta a dançar. É fogo que é vida e vida não se apaga, muito menos com violência. Tal provocação, de querer viver e de querer brigar para que se possa existir, diante da frieza indiferente de uma cidade pela qual estou apaixonado, mas que não deixa ninguém amar, é só amor.

o que é a vida

você disse que era preciso estar bêbado para viver. quantos eram os incômodos lhe tocavam no peito, ao dizê-lo, eu não sei. mas afirmou que o entendimento da  vida era uma lâmina fina e de uma fragilidade que a tornava, praticamente, intocável. porque é um momento curto, mais breve que o menor dos tempos. é o quase nada. o que se encontra quando já não há mais bifurcações e, logo, não é encontrável. a contradição de precisar deixar de existir para conhecer sobre a existência. o remédio que sossega o coração aflito que ecoa, acelerado, no peito. precisa-se estar bêbado, você concluiu, bêbado, acompanhado somente do motorista do uber, para ter um brevíssimo vislumbre do que é viver.

o significado da palavra crush

Eu  disse que queria ser alguém que vi de raspão, num amontanhado de gente que nem é gente, é caminho. É pouco dizer que havia no corpo dele somente o sensual – sua postura endireitada era provocativa entre tantos curvados, o corte de sua camisa regata deixava à mostra seu peito e era perfeitamente natural que a usasse, pois se adequava à sua musculatura atlética.

A gozação não terminava no que tinha de belo, havia também o fantástico. Na cabeça, um pequeno chapéu coco cobria  seus cachos loiros, o pescoço estava envolto em um cachecol de listras grossas e de cores diversas em tons fortes, que não se repetiam em nenhum padrão observável, caindo sobre a parte nua do torso. Entre seus dedos, rodava uma moeda em movimentos harmoniosos, carecidos da precisão, que ele buscava alcançar assistindo a uma videoaula no celular que segurava na mão livre, repetindo os movimentos de uma mão, sem rosto por trás, que se apresentava na tela. Sua mochila carregava malabares e toda sua presença era estranha, era um moço que não pertencia ao vagão.

Em mim, ali, havia a inaptidão em disfarçar o encantamento e também havia a ilusão de que os nossos olhares interagiam num esboço de interesse que me permitiria fugir da minha realidade. Era a vontade de que o colorido da imagem que ele era respingasse no meu peito ansioso.

Tive um desejo maior do que possuí-lo, queria ser ele, mas não ser quem ele era, ou ter o que ele possuía, especificamente, naquela caracterização circense. Eu queria sair dali para o lado em que ele estava, sendo quem eu preciso ser, onde se pode ser. Eu queria poder desejar e causar desejo, fantasiar o real e realizar o fantástico. Existir, como o artista de circo, o poeta, a mãe, o velho. Encontrar o final desse vai e vem infinito e poder começar de tudo, outra vez.

quebrados, fodidos, perdidos e abençoados

estamos todos fodidos sob o mesmo teto, andando sem proteção contra o vento gelado que corta na alma. perdedores agraciados pela bênção de nunca poder alcançar o sucesso.

porque cada um de nós perdeu um pouco, de si, de dentro, da vida, do caminho, algo para nunca mais ser encontrado, no escuro da mesma sala.

e tateando, assim sem ver, em busca de algo que não encontraremos, nossas mãos se encontraram.

houve vezes em que tudo que precisei foi ser levado por meus companheiros, pela mão, para frente. eu cuido para que não sejam a ausência do que procuram, eles cuidam para que eu não me perca no escuro. e assim somos. somos todos um pouco quebrados, por dentro.

se o sucesso tirasse de mim os dias que vivi, com tudo que viver significa, eu preferiria fracassar miseravelmente feliz.

meus nervos conhecem o caminho, a eletricidade de um abraço amigo que levanta o mais derrotado entre os enterrados. está gravado na memória, além das lembranças. está gravado no corpo.  e eu conheço o toque de suas mãos, meus pés confiam no caminho pelo qual me levam, que meus olhos não podem enxergar.

meus amigos me trouxeram até aqui e meus amigos me levam, mesmo de longe, para frente. e, bem assim, de repente, eu senti falta de todos.