todos os lugares bonitos

todos os lugares bonitos

Acho que vamos precisar parar. Eu preciso muito mijar.

Dude, can we pull over? It is just for a second, the guy needs to pee.

O carro para dentro de um dos prédios de estacionamento do campus e seu amigo, quem pediu para que estacionassem, desce primeiro, vai até a sua porta do banco de trás e a abre. Além do motorista, de seu amigo, nos bancos da frente, e dele, que está sentado sobre a perna de uma amiga, em uma posição contorcida para ocupar menos espaço e também para segurar o xixi, há outros três espremidos ao seu lado. Quando a porta é aberta, sai como se expelido pelo carro. É amparado pelo amigo, que o carrega até um canto.

Você consegue se manter de pé?

Eu consigo – cambaleia e seu amigo já se prepara para segurá-lo, mas não é preciso. Sua camisa está com todos os botões abertos.

Você tem que ser rápido, você sabe.

Eu sei.

A menina que estava sentada no seu extremo oposto do banco de trás sai do carro para fumar, acompanhada do motorista.

Abre a o zíper da calça, olha para o chão, fazendo esforço para abrir os olhos. É tarde da noite e está escuro no lugar onde estão. Não há ninguém por perto.

Cara.

Eu sei. Tá indo.

Se a gente é pego, é prisão – seu amigo, de costas pra ele, fica observando os arredores e, de quando em quando, olhando para trás para ver a sua situação. São mais de trinta segundos mijando e não para. Pior que prisão, é taser.

Não olha para os tênis brancos para ver que por alguns instantes erra a mira e mija em cima deles. A urina sai branca, transparente, e a mancha que faz nos calçados parece de água somente. São cinquenta e três segundos de xixi até parar, balançar rapidamente o pau para guardá-lo na cueca e, antes que possa passar o cinto, ser puxado pelo amigo de volta ao carro.

Caralho, irmão, você mija demais.

Entra no carro, senta novamente na coxa da garota, abre o vidro o máximo que pode e dá risada.

We can go now.

 

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hoje é seu dia de sorte

hoje é seu dia de sorte

hoje é meu dia de sorte. as intenções são as menores e não são muitos os lugares que temos para ir. não sobrou muita gente e somos todos um pouco parecidos. ontem também foi meu dia de sorte. meu tornozelo inflamou, não sei por qual motivo, e ainda assim eu saí para andar por aí nas ruas procurando por uma faixa para meu cabelo. meu último corte foi em janeiro e agora nos últimos dias do ano quando o vento bate a franja cobre meus olhos, incomodando um pouco. uma faixa ajudaria e nem a dor nem a chuvinha me impediram de andar por aí. tenho um monte de coisas para fazer hoje. seria bom se pudessem estender o final do ano até concluirmos tudo que temos incompleto, até estarmos prontos. são muitas coisas para fazer e poucos lugares para ir com as mesmas pessoas que já não precisam tentar conquistar ninguém e ninguém vai fazer nenhuma loucura, eu sei como vai ser o final da noite do meu dia de sorte. e isso é lindo, maravilhoso. dizem que a verdade é que nunca estaremos prontos e ainda assim a hora vai chegar. ainda tem algumas coisas que eu quero fazer, como andar de bicicleta por uma estrada que me leva a algum lugar mais que bonito, lindo, eu quero comprar um carro velho e encontrar um melhor amigo pra percorrer mais de quinze estados em um semestre sabático, acampar no meio do nada enquanto ainda somos jovens para transar em uma barraca, casar numa praia com os dois usando gravatas borboleta e tem tantas outras coisas que eu quero! eu quero essa loucura. e é tudo tão simples. tão pequeno e maravilhoso. a real é que eu ainda não estou pronto. você ainda não está pronto. você ainda não está pronta. então sossega e fica. se não for por você, fica pra me acompanhar. e fica mesmo, que hoje é nosso dia de sorte.

magnético

acordei e ainda sentia o toque áspero do seu rosto no meu, o improvável gosto da sua pele em meus lábios e seu hálito quente, seus dedos assim sem querer pousando em minhas mãos e o puxão que me deu para que eu me aproximasse. é num momento curto que as coisas ao redor são empurradas para longe enquanto somos atraídos para uma colisão da qual é tarde demais para se escapar e que sempre esteve a um deslize de nós. eu xingo em vão sabendo que é mais um daqueles disparos que apenas nos deixam a assistir seu trajeto perfeito em direção ao que nos é mais valioso e obscuro. raio que aguarda em silêncio por toda sua existência para cumprir não mais que seu papel e tombar nossos corpos acertando as nossas cabeças. seu sabor é de tudo aquilo que desobedecemos ao chegar perto demais e de que não se consegue mais se afastar. bala que ninguém pode impedir que voe e destrua o que vier em sua frente. nos resta a paciência de quem sabe que pra nada serve relutar. e sabe que tão grande quanto a culpa é o desfrute do desejo. todo o resto é breve demais para importar. não é amor, é tiro e eletricidade. e que talvez seja amor. só venha rápido. trovoe. e vá.

eu sei cada vez menos

perguntaram-me o que quero. na tentativa de achar resposta primeiro me veio que nesses ossos vestidos em pele em que me colocaram, não caibo. os pés que não conhecem os passos, o quadril que não requebra, os braços que voam ser saber por onde pousar, tenho que ignorá-los para acompanhar a dança. meu espelho é a pista cheia desses anjos de roupa rasgada, de roupa nenhuma, que vão ao chão e suam quando mexem e espalham suas cores, seus cabelos, alguns nem cabelo têm, viado, puta, drogado, os pelos na perna no peito no sovaco, a tatuagem que leva à virilha coxas peito bunda. eu não acredito no meu corpo.

finjo crer que não sei o que é o torpor que me toma quando chegam as horas do dia que são minhas, que o sol em virgem vai me trazer a clareza aos sentidos para que encontre a solução pra mim mesmo, que o sono vai me trazer de volta quem fui. há uma única verdade atrás de uma parede fina que não se pode quebrar, mas translúcida para que se vislumbre o que esconde. ao simples toque, dói o corpo. e sou eu mesmo quem me pergunto o que eu quero aqui? nas horas de metrô, na busca que não termina dentro dos romances, nos aplicativos cheios de rostos bonitos, subindo a augusta quando duas travestis tentam me roubar, sentindo raiva da raiva que tenho do mundo, incontrolável fúria que não se explica porque seu centro é a questão que a faz labirinto.

não acredito em tudo que digo. muito do que faço é desejo de me aproximar da autodestruição que desenham tão saborosa a quem é jovem. eu a sinto quando passo a língua pelos meus lábios, caminhando desregulado por aí. digo a mim que

para tanta sujeira, banho algum te tornará puro novamente. então, avance! mais distante da resposta, incerto de quem se é, ausente do corpo que lhe deram, que pensara ser próprio apesar da ciência de que a posse é ilusão, avance pro fundo dessa lama. verá que tudo em seu jeito é belo.

eu nem estou mais aqui.

do amor findo

do amor findo

me apaixonei
disse, vindo de lá.
no pouco fôlego
no que me sobrou
na inexistência de palavras
que fossem nome
ao que foi maior que o amor,
além da alegria
do sexo
e da curva
que cai
no corpo
do homem.
me fervi
na febre dos poetas.
fui para lá,
me ausentei.
eu fui,
me apaixonei,
eu sobrevivi.