sempre outro lugar

Fomos acordados por um milhão de araras no meio das montanhas. Nem sei dizer como fomos levados para aquela casinha, mas ninguém nos acompanhou no caminho. De uma em uma, ficaram todas as coisas no asfalto das cidades grandes a que pertenciam. E quando a escuridão cobriu tudo, fomos só nós, uma gata carente e as estrelas sobre o telhado.  Não precisamos ser pra ninguém estando só, num jogo de tabuleiro em que uma briga é só uma briga. Do medo, uma piada. Da piada, uma música. Me lembro da aranha que tinha o tamanho de uma mão, mas cresceu até ter o tamanho de uma cabeça. E quando o sol voltou ele voltou só pra iluminar um de nós – pois fique bem aí, não se mexa – pra uma foto que, infelizmente, não pode capturar o que ele tocava no violão e muito menos as nossas risadas. Já se passaram algumas semanas, mas ainda sinto a água gelada em que mergulhei, memória vívida de como me senti acordado como nunca antes, desperto da pele à alma. Pra quem tem a vida distribuída entre os números do relógio, era estranhamente bom ser convidado a viver o tempo que se estende sem forma, guiados pelas cores que ele faz no céu. E, pra quem vive no barulho, aprender a ouvir o que se esconde por entre os momentos de silêncio é um sinal para os tambores de dentro da cabeça descansarem. Se levantássemos os braços, os alienígenas nos levariam e não nos importaríamos. E, sem que precisássemos nos esforçar para acreditar, o caseiro era sobrenatural, a querida que dirigiu o carro era a melhor pilota do país, os novos amigos nos levaram para lugares incríveis, onde nunca pensamos ter coragem de ir antes, as pessoas estavam todas em paz. Do alto das montanhas, no coração do Brasil, não há nostalgia para se sentir, não há mais ninguém pra se ver. Se de lá lhe trago uma pedra, entrego-lhe meu desejo de que esteja sempre bem, de que ande protegido nessa sua vida que se revela no improvável. Lavamos o carro e partimos para algum outro lugar, sempre para algum outro lugar.

eu não ligo se chover

Acabou a luz e eu tinha alguma bateria sobrando. Algo, uma árvore provavelmente, havia derrubado a energia elétrica na região. Não sabia se a queda ocorrera somente para meu bloco, minha rua ou para todo o bairro, o terrível barulho que a tempestade fazia me afastava da janela e as cortinas fechadas me protegeriam de tudo que viesse lá de fora. O barulho de uma pequena explosão, vindo do transformador atingido, era o suficiente para me dar contornos do que devia ter acontecido.

Todas as muitas abas do meu navegador estavam abertas em páginas de referência científica e, sem a eletricidade para alimentar a aparelhagem que trazia e distribuía a internet pela minha casa, eu estava limitado a elas. Os poucos livros abertos sobre minha mesa só podiam ser lidos sob a luz da tela do notebook e do celular. Saber que logo esses dispositivos ficariam sem energia e se desligariam me impedia de seguir nos trabalhos para evitar a frustração de ter a linha de raciocínio interrompida.

Para que me convencesse, ensaiei essa explicação ao espelho, no escuro e em silêncio. Sorri ao perceber que minhas olheiras eram suavizadas pela falta de iluminação. Tudo indicava que às sombras eu pertencia e nelas eu não seria notado. Não como os que lutam para ser notados entre os sorridentes iluminados, mas são ignorados. Eu era imperceptível na falta da luz e isso me  trazia paz.

Deitei-me sobre o tapete que cobria a sala de estar, suas cores apagadas com o escuro, entre a televisão e o pequeno sofá, longe da mesa dos trabalhos.  A explosão do transformador tinha levado consigo todos os outros barulhos do mundo, aquietando inclusive o vento furioso que fizera as janelas baterem, as portas tremerem e os carros tocarem seus alarmes. Podia-se ouvir somente o som da chuva que caía sobre o silêncio absoluto, como se mais nada existisse para ser molhado por ela.

Eu estava deitado sobre o tapete de uma casa que flutuava na chuva que caía em lugar nenhum. Se eu abrisse a porta e saísse, não haveria quem corresse de mim, não mais. Eu poderia gritar tudo o que eu pensava ao vento e todas essas coisas encontrariam um novo lugar que não as paredes claustrofóbicas que se formaram dentro da minha cabeça. Se a tempestade levasse o meu teto, eu me molharia e choraria e nada disso teria importância alguma para ninguém.

Coloquei os fones de ouvido e escolhi um álbum, as últimas músicas para aquele momento, enquanto meu celular permanecia ligado. Sobre o mesmo tapete em que estava deitado, eu poderia dançar e para isso eu não precisava de roupas, de sapatos, nem mesmo dos pés que me levantariam, ou sequer da música. Dançaria sob a chuva e com a chuva, na tranquilidade que me permitia ser o maior dos dançarinos, que poderia praticar seus passos sem que nada nunca o interrompesse.

Gastei o que sobrava da minha bateria longe de todo o barulho e de todas preocupações, longe de tudo que não me deixava ser as mil coisas que o silêncio cantava para mim e que eu desejava ser.

palavras e pó

Eu tenho suas palavras gravadas:  “quando pôs sua mão sobre a minha, foi como o sol que invade, tímido, pela janela e toca um pedaço da pele, trazendo o conforto no calor que faz arrepiar e, aos poucos, faz todo o apartamento se iluminar e se aquecer”.

Elas foram ditas em medo e sob dias de perdição e eu as guardei, mas não consigo mais guardar as cores dos seus olhos. Não lembro das cores, mas lembro da expressão desses mesmos olhos no dia de chuva em que pensou que ninguém iria atrás de você, mas eu fui. Sob a tempestade – e nunca houve uma tempestade maior do que a que existe dentro de sua cabeça – eu corri em seu encalço para tocar em seu ombro e ouvir de você “eu sabia que era você”.

Tudo que trocamos em um simples encontro, eu guardo, eu guardo com todas minhas forças e dentro do meu peito, mas o resto o tempo tem me levado. Você disse “eu sabia que era você” e você desejava ter tido aquilo, se realizou ao poder dizer e acreditar na confiança que depositava em mim. Confiança que ia contra todo o resto que sentia, contra todo o medo da solidão que, para você e só em você, era tão iminente.

Um escorregão no tempo e nos encontramos como quase estranhos no centro da cidade, você já em transformação. Como eu poderia guardar sua imagem se não deixa nunca de mudar? Foram alguns sorrisos e conversas cordiais antes que seguíssemos nossos caminhos separados.

Andamos sobre os mesmos pisos e escadas, entre tantas pessoas populares e grupos cheios de risadas, como fantasmas solitários que não podem se tocar. Um aperto de mão, que um dia fora tão elétrico, que disparava todos os sentidos e cores e sons, hoje foi gelado.

E seu rosto já não existe em mim, eu já não sou mais quem fui quando você era uma parte de mim, e tudo o que ficou guardado foram palavras. O tempo que temos para viver não será suficiente para apagá-las. Seremos levados, de mãos dadas por outras pessoas, a lugares que nunca imaginamos e viveremos outras histórias, dentro desses mesmos corpos mas preenchidos de outras pessoas que seremos.

Apesar do sincero desejo de lutar por uma última conversa, por um último segundo para ver se guardo seus traços e suas cores, viveremos.

leão de plástico

“Sabe,” disse o homem no terno cinza claro, enquanto a bebida dele chegava, “o mais belo verso de poesia recitado na história desse país inteiro foi dito por Canada Bill Jones em 1853, em Baton Rouge, enquanto ele era roubado em um jogo de faro. Geroge Devol, que, assim como Canada Bill, não era de se opor a revidar ao trapaceiro, levou Bill para o lado e perguntou se ele não percebia que estava sendo roubado. E Canada Bill suspirou, e encolheu os ombros, e disse ‘Eu sei. Mas esse é o único jogo na cidade.’ E voltou ao seu jogo”

(trecho de Deuses Americanos, de Neil Gaiman)

Eu só queria que eu pudesse esquecer o que eu mesmo trago de volta nos sonhos de cada noite, sonhos envoltos em cenários tempestuosos, turvos de neblina densa e sufocante, onde os fantasmas me puxam pela mão para caminhar pelos lugares dos quais eu fujo quando estou acordado. Digo que sou forte e racional para não deixar que um sonho ruim possa me derrubar, que sou pedra e coragem, leão de ferro fugindo de nuvens escuras que nunca se dissipam. Mas eu falho.

E falho em ser um bom amigo, sou humano demais para ser uma pessoa boa. Eu só me escondo, acreditando que há batalhas que terminarão por desgaste. Eu só queria ser alguém bom.

Carrego uma memória que não se apaga, que não se cura, que incomoda no peito. Queria apenas que eu pudesse ter sabido melhor como lidar com o conflito na época, que as coisas tivessem sido diferentes, que eu não tivesse saudades do abraço de alguém que se disse amigo, mas que me causou tanta dor, que eu fosse claro com as palavras e que os sentimentos sinceros prevalecessem.

Eu só queria que a vida fosse diferente em algumas coisas, que eu não fosse uma pessoa de chuva, mas de sol. Se hoje escrevo das portas fechadas, amanhã devo me surpreender com novos caminhos. Apenas é inevitável a duração eterna de um presente doído em contraditória saudade.

todas as coisas são da cor dos seus olhos

Essa casa está pegando fogo desde os meus vinte anos, com muito mais ferocidade do que eu conseguiria deter. Não sei se vai sobrar uma parede aqui, um ou dois super heróis entraram para procurar sobreviventes e, ao me verem, pularam pela primeira janela que encontraram. Não há quem esteja preparado para me salvar de um lugar que sou eu mesmo, o fogo me consome, assim como faz com os móveis e livros, e eu continuo sentado no chão. Vez ou outra arrisco uma dancinha atrapalhada com a minha própria solidão, curtindo algo que não tem cheiro não tem cor não tem e ainda assim é tão gostoso, mas fico desesperado com todo o resto que me cerca em mim, exceto as labaredas. Eu sei que não posso apagá-las, não agora, e depois procuro nas cinzas o que eu precisar. Mas só depois.

Buscar a paz de espírito é esquecer que se tem um coração incendiário e suicida, que só quer viver sabendo que isso significa morrer. Eu procuro me afastar e chegar à cachoeira cristalina só para ver em seu reflexo toda as imagens confusas da cidade em uma imensidão de informações desconexas e predadoras avançando sobre mim. O desejo é intenso e vem com o medo de não saber lidar com a frustração, ah, a frustração certa de quem atira a moeda pro alto e nem fica para ver se deu cara. Queria saber dizer tudo que preciso para estar em tranquilidade, conseguir me livrar de incertezas e acalmar os batimentos que deixam minha cabeça zunindo, mas eu não sei. Eu só sei fazer comparações e piadas das quais só eu vou rir, mas talvez até seja engraçado e não haja jeito melhor de lidar. Eu só sei que vi o seu olhar em tudo e não soube o que fazer. Talvez eu tenha que sentar, aquecido por esse fogo todo, e esperar.