quebrados, fodidos, perdidos e abençoados

estamos todos fodidos sob o mesmo teto, andando sem proteção contra o vento gelado que corta na alma. perdedores agraciados pela bênção de nunca poder alcançar o sucesso.

porque cada um de nós perdeu um pouco, de si, de dentro, da vida, do caminho, algo para nunca mais ser encontrado, no escuro da mesma sala.

e tateando, assim sem ver, em busca de algo que não encontraremos, nossas mãos se encontraram.

houve vezes em que tudo que precisei foi ser levado por meus companheiros, pela mão, para frente. eu cuido para que não sejam a ausência do que procuram, eles cuidam para que eu não me perca no escuro. e assim somos. somos todos um pouco quebrados, por dentro.

se o sucesso tirasse de mim os dias que vivi, com tudo que viver significa, eu preferiria fracassar miseravelmente feliz.

meus nervos conhecem o caminho, a eletricidade de um abraço amigo que levanta o mais derrotado entre os enterrados. está gravado na memória, além das lembranças. está gravado no corpo.  e eu conheço o toque de suas mãos, meus pés confiam no caminho pelo qual me levam, que meus olhos não podem enxergar.

meus amigos me trouxeram até aqui e meus amigos me levam, mesmo de longe, para frente. e, bem assim, de repente, eu senti falta de todos.

eu já estive nesses jardins

acredito já ter contado essa história, mas não vejo problemas em me repetir.  andando para frente, sempre e sem parar, eu só consegui ficar com os pés cansados. e todos os meus amigos estão exaustos. eu, que já vi de tudo por aí, não consigo reter nada mais na minha cabeça cheia de fumaça. então, eu estou tomando essa poltrona para sentar ao seu lado e contar tudo de novo.

tenho pensado em fugir, voltar ao Texas ou conhecer o Japão, nadar em alguma cachoeira em Goiás ou comer em algum restaurante diferente em São Francisco ou Santo André, para voltar e dizer como foi. se eu não for, ou se eu não fui, direi do metrô cheio de hoje cedo. para que não seja só um exercício de paciência aguentar essas luzes claras de hospital no teto sobre você, durante esses dias, que façamos da situação um exercício de memória e de imaginação.

as lembranças do passado se desprendem e se reorganizam em vontade própria, alguns nomes se perdem, algumas datas se confundem, as cores se misturam, as músicas são apenas trechos e refrões, mas o que importa é como essas histórias ainda existem em você. a realidade, afinal, não é somente a precisão com que aproximamos a memória dos fatos acontecidos. estando os fatos já acontecidos, quem garante como ou quando aconteceram, ou mesmo o que neles aconteceu, são as coisas que criamos deles. a realidade é de tudo aquilo que dizemos.

e eu ouço com atenção essas suas histórias, difusas, incertas e belas, e acredito inteiro nelas.

tenho dito de fugir para estar mais perto de quem eu amo. a tempestade de copo d’água que tomou minha cabeça vai se acalmando a colheradas de açúcar e eu vou perdendo a pressa toda, para poder contar de tudo que eu imaginei para nós.

e eu criaria um palácio para que nele ficasse seu jardim, mas você tem que saber que as flores do seu jardim, sem você lá, são só flores.

ao fim do dia, ao fim da semana, ao fim do mês, ao fim do ano, nós nos reunimos e sentamos em círculo para contar do que mudou, do que se conquistou, do que se perdeu e do que permaneceu o mesmo. do medo que sentimos e que se desfez em um sorriso impossível. dos dias difíceis, que sempre vão existir, e de como fizemos para voltar para casa, onde quer que fossem ou estivessem nossas casas.

entrego tudo que possuo, umas boas horas para ouvir e outras boas histórias minhas, algumas repetidas, como já avisei. eu mesmo não sou muito mais do que isso. então, deixa que se faça vida, na realidade que construirmos, com as fugas para os jardins que criemos, e o que será contado por nós valerá a escuta.

sempre outro lugar

Fomos acordados por um milhão de araras no meio das montanhas. Nem sei dizer como fomos levados para aquela casinha, mas ninguém nos acompanhou no caminho. De uma em uma, ficaram todas as coisas no asfalto das cidades grandes a que pertenciam. E quando a escuridão cobriu tudo, fomos só nós, uma gata carente e as estrelas sobre o telhado.  Não precisamos ser pra ninguém estando só, num jogo de tabuleiro em que uma briga é só uma briga. Do medo, uma piada. Da piada, uma música. Me lembro da aranha que tinha o tamanho de uma mão, mas cresceu até ter o tamanho de uma cabeça. E quando o sol voltou ele voltou só pra iluminar um de nós – pois fique bem aí, não se mexa – pra uma foto que, infelizmente, não pode capturar o que ele tocava no violão e muito menos as nossas risadas. Já se passaram algumas semanas, mas ainda sinto a água gelada em que mergulhei, memória vívida de como me senti acordado como nunca antes, desperto da pele à alma. Pra quem tem a vida distribuída entre os números do relógio, era estranhamente bom ser convidado a viver o tempo que se estende sem forma, guiados pelas cores que ele faz no céu. E, pra quem vive no barulho, aprender a ouvir o que se esconde por entre os momentos de silêncio é um sinal para os tambores de dentro da cabeça descansarem. Se levantássemos os braços, os alienígenas nos levariam e não nos importaríamos. E, sem que precisássemos nos esforçar para acreditar, o caseiro era sobrenatural, a querida que dirigiu o carro era a melhor pilota do país, os novos amigos nos levaram para lugares incríveis, onde nunca pensamos ter coragem de ir antes, as pessoas estavam todas em paz. Do alto das montanhas, no coração do Brasil, não há nostalgia para se sentir, não há mais ninguém pra se ver. Se de lá lhe trago uma pedra, entrego-lhe meu desejo de que esteja sempre bem, de que ande protegido nessa sua vida que se revela no improvável. Lavamos o carro e partimos para algum outro lugar, sempre para algum outro lugar.

eu não ligo se chover

Acabou a luz e eu tinha alguma bateria sobrando. Algo, uma árvore provavelmente, havia derrubado a energia elétrica na região. Não sabia se a queda ocorrera somente para meu bloco, minha rua ou para todo o bairro, o terrível barulho que a tempestade fazia me afastava da janela e as cortinas fechadas me protegeriam de tudo que viesse lá de fora. O barulho de uma pequena explosão, vindo do transformador atingido, era o suficiente para me dar contornos do que devia ter acontecido.

Todas as muitas abas do meu navegador estavam abertas em páginas de referência científica e, sem a eletricidade para alimentar a aparelhagem que trazia e distribuía a internet pela minha casa, eu estava limitado a elas. Os poucos livros abertos sobre minha mesa só podiam ser lidos sob a luz da tela do notebook e do celular. Saber que logo esses dispositivos ficariam sem energia e se desligariam me impedia de seguir nos trabalhos para evitar a frustração de ter a linha de raciocínio interrompida.

Para que me convencesse, ensaiei essa explicação ao espelho, no escuro e em silêncio. Sorri ao perceber que minhas olheiras eram suavizadas pela falta de iluminação. Tudo indicava que às sombras eu pertencia e nelas eu não seria notado. Não como os que lutam para ser notados entre os sorridentes iluminados, mas são ignorados. Eu era imperceptível na falta da luz e isso me  trazia paz.

Deitei-me sobre o tapete que cobria a sala de estar, suas cores apagadas com o escuro, entre a televisão e o pequeno sofá, longe da mesa dos trabalhos.  A explosão do transformador tinha levado consigo todos os outros barulhos do mundo, aquietando inclusive o vento furioso que fizera as janelas baterem, as portas tremerem e os carros tocarem seus alarmes. Podia-se ouvir somente o som da chuva que caía sobre o silêncio absoluto, como se mais nada existisse para ser molhado por ela.

Eu estava deitado sobre o tapete de uma casa que flutuava na chuva que caía em lugar nenhum. Se eu abrisse a porta e saísse, não haveria quem corresse de mim, não mais. Eu poderia gritar tudo o que eu pensava ao vento e todas essas coisas encontrariam um novo lugar que não as paredes claustrofóbicas que se formaram dentro da minha cabeça. Se a tempestade levasse o meu teto, eu me molharia e choraria e nada disso teria importância alguma para ninguém.

Coloquei os fones de ouvido e escolhi um álbum, as últimas músicas para aquele momento, enquanto meu celular permanecia ligado. Sobre o mesmo tapete em que estava deitado, eu poderia dançar e para isso eu não precisava de roupas, de sapatos, nem mesmo dos pés que me levantariam, ou sequer da música. Dançaria sob a chuva e com a chuva, na tranquilidade que me permitia ser o maior dos dançarinos, que poderia praticar seus passos sem que nada nunca o interrompesse.

Gastei o que sobrava da minha bateria longe de todo o barulho e de todas preocupações, longe de tudo que não me deixava ser as mil coisas que o silêncio cantava para mim e que eu desejava ser.

palavras e pó

Eu tenho suas palavras gravadas:  “quando pôs sua mão sobre a minha, foi como o sol que invade, tímido, pela janela e toca um pedaço da pele, trazendo o conforto no calor que faz arrepiar e, aos poucos, faz todo o apartamento se iluminar e se aquecer”.

Elas foram ditas em medo e sob dias de perdição e eu as guardei, mas não consigo mais guardar as cores dos seus olhos. Não lembro das cores, mas lembro da expressão desses mesmos olhos no dia de chuva em que pensou que ninguém iria atrás de você, mas eu fui. Sob a tempestade – e nunca houve uma tempestade maior do que a que existe dentro de sua cabeça – eu corri em seu encalço para tocar em seu ombro e ouvir de você “eu sabia que era você”.

Tudo que trocamos em um simples encontro, eu guardo, eu guardo com todas minhas forças e dentro do meu peito, mas o resto o tempo tem me levado. Você disse “eu sabia que era você” e você desejava ter tido aquilo, se realizou ao poder dizer e acreditar na confiança que depositava em mim. Confiança que ia contra todo o resto que sentia, contra todo o medo da solidão que, para você e só em você, era tão iminente.

Um escorregão no tempo e nos encontramos como quase estranhos no centro da cidade, você já em transformação. Como eu poderia guardar sua imagem se não deixa nunca de mudar? Foram alguns sorrisos e conversas cordiais antes que seguíssemos nossos caminhos separados.

Andamos sobre os mesmos pisos e escadas, entre tantas pessoas populares e grupos cheios de risadas, como fantasmas solitários que não podem se tocar. Um aperto de mão, que um dia fora tão elétrico, que disparava todos os sentidos e cores e sons, hoje foi gelado.

E seu rosto já não existe em mim, eu já não sou mais quem fui quando você era uma parte de mim, e tudo o que ficou guardado foram palavras. O tempo que temos para viver não será suficiente para apagá-las. Seremos levados, de mãos dadas por outras pessoas, a lugares que nunca imaginamos e viveremos outras histórias, dentro desses mesmos corpos mas preenchidos de outras pessoas que seremos.

Apesar do sincero desejo de lutar por uma última conversa, por um último segundo para ver se guardo seus traços e suas cores, viveremos.