o furacão leva todos


– porra, cara, de repente eu sou furacão e não sobra nada. quando não sou visto por ninguém a não ser por mim mesmo me encarando num espelho quebrado, surgem algumas dessas ideias. de que tocar violão para a música se perder antes de alcançar qualquer ouvido vivo é de uma poesia de significado tão raso quanto qualquer coisa que transcrevi nessa juventude, sempre profundamente enganado ao pensar estar certo do que queria dizer. nem nunca soube tocar violão e nunca entendi porque quis tocar bateria morando nesse apartamento pequeno. foram muitos discursos infindáveis para compreender que a resistência a me calar era somente por não querer enfrentar todas as confissões que eu tinha e que são o que se resta quando se esgotaram as mentiras. mesmo que elas não tenham valor, nesse fim de mundo que me cerca, são de pronúncia dolorida. vícios e prazeres, que eu não digo, me movem mais do qualquer motivação que se possa pronunciar. eu sou, mas incerto do querer ou não querer ser, todas essas coisas que não consigo dizer. eu calo, não agora. e seria bela, não fosse por sua obviedade atroz, a minha história, do consertador de computadores que sonhava em ser poeta. criança chorona que encheu a paciência dos pais e nunca se fez confortável no mundo em que nasceu. adolescência fora do lugar e mal resolvida, ecoada em tantas conversas do adulto que virei. de ossos de mais angústia do que cálcio.  viajador das estradas que se enjoa com o movimento dos ônibus. pancadas rápidas que derrubam cidades. mergulhador que tem medo da força com que o oceano o puxa para baixo. nunca muito mais do que algumas referências soltas que não conseguem se conectar para virar algo inteligível. eu nem sei mais, cara, sabe? o ano acabou, é um milagre que ninguém tenha morrido, eu ainda não quis aprender a fumar e deve existir algo de bonito nisso tudo, mesmo que seja só na superfície. e, se for realmente só na superfície, se for assim tão simples e tão perto, é até melhor.

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