Verão,  começo de janeiro de 2017. O sol cai em dourado sobre todas as coisas, como se vestindo a todos num tema festivo tropical, as pernas brancas refletindo a luz e as bermudas curtas. É tempo de migração, apesar de alguns bichos desorientados permanecerem, desejando que não fosse tão obrigatório estar contente. Ainda assim, essa claridade e esse calorzão, teu riso fácil, nesse suor todo, quase são suficientes para não se importar com nada. (…)

No outono de 2016, depois da trilha e das cachoeiras e de alguns tombos, as pernas tremiam diante da descida pela parede de pedras que dava naquela piscina com a vista mais bonita de todas para o coração verde mais verde do país, onde vários pulavam e contemplavam e se contemplavam em selfies e se divertiam, enquanto me tremia a vontade mas me faltava coragem – um pé que escorregasse seria o último dos deslizes. (respiro)

Alguns dias para o fim de janeiro de 2017 e tivemos só chuva. Meio borrado de cinza de cidade linda com o azul mais melancólico, o verão entra em introspecção num quarto, sozinho, ouvindo elliot smith e pensando em que há sempre um sofá na festa para você sentar e sobrar esquecido, lembrando de cada diabo – que, pro seu terror, talvez seja você mesmo – e que esse calor todo é que traz a chuva e o raio que ilumina o que você tem de mais vagabundo. (…)

No último domingo de sol de janeiro de 2017, não fosse as pedras escorregadias, tivesse eu mais firmeza nas pernas e a água não estivesse gelada daquele jeito e eu teria entrado debaixo da pequena cachoeira. Faltou coragem, apesar de estar em contato com a natureza, envolto em energia de renovação com os pés e corpos molhados na água cheia de vida e movimento, acompanhado de amigos

(meus amigos
quando me dão a mão
sempre deixam
outra coisa

presença
olhar
lembrançacalor

meus amigos
quando me dão a mão
deixam na minha
a sua mão*)

 que me encorajam e me dão a mão para encarar o que o medo me impede de fazer. Congelado, sinto na boca o gosto do risco que não experimentei e lamento o momento perdido – mas confesso a felicidade que há, apesar dos desperdícios e dos não-vividos. (respira)

O verão de 2017 ainda não acabou e nas ruas da cidade linda sem praia as pessoas andam nos skates, de torso nu, e ainda vão suar por mais alguns meses.(…)

Se perguntarem do verão de 2016-2017, vou dizer que quis cair dentro de um olhar que se prolongou por estações e que se tivesse durado um pouco mais, se eu tivesse me mantido encarando, encantado, pela menor fração de tempo que existe, se eu não tivesse escorregado já no limite, eu teria mergulhado de cabeça em cachoeiras da altura dos céus (com todas as cores e chuvas que esses céus tiveram nesses dias de calor). Sem mais temer, quero terminar o verão assim, mergulhando em águas frias, em você, em mim, em pura vida. (solta)

* poema de Paulo Leminski

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