De cabelo recém raspado totalmente, os olhos são expressivos, contornados pela sombra que seus cílios compridos formam, a pele é morena e o rosto tem traços finos, mas que expressam seriedade. Já passou dos vinte e cinco, mas algumas pessoas acreditam que ainda tenha dezenove. Veste uma camiseta regata preta, sem estampas e de alças finas, e uma calça jeans com buracos rasgados nas duas pernas que mostram seus joelhos. Os dentes são perfeitos, mas quase não os exibe enquanto tira suas fotos no espelho do elevador, que não teve sua descida, do décimo segundo andar ao térreo, interrompida por outros passageiros.

Antes de sair do condomínio, permanece parado para postar a foto no modo história do instagram. Apenas acena com a cabeça para o porteiro, que responde com um “boa tarde” protocolar. Mora em uma avenida movimentada que o obriga a aguardar por dois minutos para poder atravessar no semáforo logo a frente da saída da portaria.

Pega um ônibus até a estação e, por ser uma tarde de domingo, não encontra as dificuldades de superlotação do transporte público paulistano. Já no metrô, permanece de pé no vagão da linha vermelha, apesar dos lugares vagos. Logo ao seu lado, senta um casal de garotas, uma delas com o braço passando sobre o ombro da outra,  e elas observam interessadas um senhor mostrando fotos em seu celular, que segura o aparelho a uma distância de seu rosto, para que ele consiga enxergar com o auxílio do óculos, enquanto desliza o dedo indicador da outra mão de um lado ao outro do visor para trocar as imagens. Eles conversam em tom agradável, apesar da música em alto volume que um homem, sentado logo atrás deles, escuta em um rádio de pilhas. O rapaz mantém o olhar variando entre observar a janela, quando o trem não está sob túneis, e encarar o teto do vagão. Desce na estação República e segue para a conexão com linha amarela. Sua postura disciplinada, de costas retas e cabeça erguida, chama a atenção de garotas e garotos que passam por ele.

A avenida Paulista acolhe, com o clima agradável de fim de verão, ao povo sedento de espaço em que se possa andar com os próprios pés, onde possam gastar seu dinheiro em comidas pequenas demais pro preço em que são vendidas e possam também deixar o sol cobrir suas cabeças e iluminar seus sorrisos genuínos. Muitos andam de mãos dadas e a pluralidade de relacionamentos, junto à diversidade de vestimentas e cores dessas pessoas, é um oásis em um país em que ainda se luta por respeito e direitos humanos básicos. As bicicletas, em formatos que variam das mais exóticas às mais baratas e simples dos mercados, os skates e os patinetes completam o cenário com seus donos, atletas profissionais e entusiastas de fim de semana. A avenida Paulista num domingo de sol não é lugar para gente triste.

O rapaz sai da estação, subindo do subsolo por uma escada rolante, e, ignorando o centro da avenida, segue pelas ruas paralelas até chegar na loja de quadrinhos. Se esquivando das muitas pessoas que passeiam por lá descontraídas, anda por entre as prateleiras e estantes, pegando em mãos vários volumes de revistas e encadernados. Gasta alguns poucos minutos com cada obra que segura em mãos, devolve algumas, carrega outras. Na seção de mangás, disputa espaço com adolescentes para conseguir olhar as coleções da prateleira. Quase uma hora depois de ter entrado, vai para o caixa levando uma edição do mangá Bakuman e uma hq dos gêmeos Bá e Moon, How to talk to girls at parties, importada. Ao ser perguntado sobre a forma de pagamento (“débito ou crédito?”), surpreende ao tirar uma nota da carteira, sem dizer nada. É atendido por um senhor de cabelos brancos e ralos penteados para trás, óculos de lentes pequenas e notável simpatia. Quando ele diz que o rapaz é “um jovem muito sério” e é respondido com apenas um sorriso de canto de boca, começa a contar uma piada. “Tinha um passarinho que nunca ria” – começa em pausas que se prolongam antes de trazer a conclusão – “um dia, ele caiu da árvore e rachou o bico”. Ri alto e um menino na fila o acompanha, mas o rapaz não demonstra estar se divertindo. Apenas agradece a compra e sai da loja, mal olhando para o senhor que continua sorrindo indiferente a qualquer desconforto que tenha causado.

Logo ao pisar na calçada, recua rapidamente com um passo para trás, para não ser atropelado por um grupo de três amigos, na sua mesma faixa de idade, que andam de bicicleta. Estão suados e sem camiseta, vestindo shorts de esporte. Freiam para pedir desculpas, mas vendo que o rapaz não se importou com o quase acidente, retomam seu caminho.

Ele anda por mais meia hora, segurando a sacola com os quadrinhos comprados, cruzando a avenida Paulista e descendo por uma rua cheia de bares e casais, muitos casais não-heteronormativos, bebendo cervejas de garrafas de litrão e se beijando apoiados nas paredes. Desce a rua sem olhar para os lados. Chega no shopping e sobe de elevador até o sétimo andar, para comprar um ingresso na bilheteria do teatro dali. Passando das seis da tarde, ainda está claro, mas a noite começa a cair. O andar possui uma grande janela com vista para parte da Augusta e da Frei Caneca. Há uma igrejinha de paredes rosa e muitos prédios, um sobre o outro, cheios de janelas que mostram pessoas, cortinas, televisões ligadas, plantas, redes para gatos não pularem, etc., num recorte que, em sua grandiosidade sufocante de pessoas e histórias, é pequeno diante do tamanho da cidade de 12 milhões de caminhos e lugares para ir. Imóvel, ele segura seu ingresso único na mão, observando a agitação das últimas horas do fim de semana, antes de voltar para casa.

O vagão da volta traz todas as pessoas que deram por encerrado o passeio de domingo e e está muito mais cheio do que os anteriores do dia. O rapaz tem que se esgueirar no corredor para encontrar um espaço mais confortável. Há mais de uma música tocando em alto volume, dessa vez, e grupos falando em tons eufóricos. Dois caras se aproximam de uma menina, sozinha, ao lado dele. Eles a cercam, cada um de um lado, e um deles sussurra “oi moça, você vai pra onde?” e o outro ri, se segurando para não gargalhar. Tendo sido ignorado, ele continua “você é uma gracinha, sabia?”, deixando as pessoas ao redor incomodadas, apesar de inertes, e fazendo com que a garota fique visivelmente desconfortável, sem conseguir espaço para sair dali. O metrô para no túnel entre estações e a menina deixa escapar um “merda” audível. O rapaz se aproxima dos assediadores a pequenos passos e vê o que apenas ria encostando desrespeitosamente a mão na coxa da menina, que grita em fúria. Nesse momento, o rapaz o empurra com o braço que usa para segurar os quadrinhos comprados, enquanto usa o outro para desferir um soco, fazendo o assediador cambalear para traz. O homem que iniciou com as cantadas parte em defesa do amigo e todas as outras pessoas não impedem que a briga se torne um ato de violência covarde contra o rapaz que ajudou a menina – ela pedindo inutilmente por ajuda. O metrô volta a se mover, mas a briga continua, entre socos e chutes e bancos manchados de sangue. Quando chegam à estação, seguranças entram correndo e separam os agressores do rapaz, caído sobre uma das barras de ferro, onde busca apoio para tentar se levantar. Uma senhora devolve a sacola com os quadrinhos que ele deixou cair, enquanto apanhava, e ele a agradece a encarando de baixo, ainda sem ter se erguido inteiro. Ela se assusta com a quantidade de machucados e cobre a mão com a boca “meu deus do céu, você está bem?”. É carregado para fora do vagão, mas logo se põe a andar por conta própria.

A garota explica aos seguranças, em uma sala pequena, o que aconteceu, enquanto os agressores são recebidos por um grupo maior e, aparentemente, menos gentil de oficiais. O rapaz é atendido por uma enfermeira preocupada, que o pede, por favor, para que cuide dos ferimentos – alguns cortes largos, mas superficiais, no rosto e inchaços na boca que, por sorte, não perdeu nenhum de seus dentes perfeitos.  É liberado após muito insistir contra a preocupação dos oficiais.

Cumprimenta o porteiro, que assumiu o turno da noite e substituiu o anterior, levantando a mão brevemente no ar. Pega o elevador, tira o celular do bolso e o aponta para o espelho. Há um corte logo abaixo do olho direito e outro que cruza seu rosto, do nariz à bochecha. Sua boca está inchada e roxa no lábio inferior e deverá passar gelo no local por alguns dias. Dá um sorriso debilitado, quase forçado e colorido de sangue, e tira a foto.

Não destranca a porta de casa, já com a chave na fechadura, enquanto não termina de postar a foto no instagram. Entra em casa e deixa os quadrinhos sobre a mesinha da sala onde também liga seu notebook. Vai ao banheiro, deixa a porta aberta, passa direto pelo espelho e mija. Se despe da camiseta respingada de vermelho e da calça, mas antes tira o ingresso comprado e a carteira do bolso. Volta para a sala os segurando, senta na cadeira e olha para o ingresso por um instante, antes de deixá-lo ao lado, sobre os quadrinhos. Passa a mão sobre um amaçado na capa do How to tal to girls…  e o pega para folheá-lo, enquanto o computador termina de iniciar. Com o editor de texto aberto em uma página branca, começa a digitar.

O verão havia sido infinito para os dois garotos sentados na beira do lago no meio de lugar nenhum. Suas bicicletas repousam jogadas ao chão, como se deixadas ali de canto porque tinham pressa, sempre muita pressa, em aproveitar aquele fim de tarde de domingo de sol. Vestem apenas calças jeans e gozam do auge dos seus vinte anos, entre beijos e toques afetuosos. Um segura o rosto do outro e o olhar trocado possui uma energia que nenhum dos dois jamais conseguirá explicar, tão bela quanto efêmera. São corpos que têm pressa para serem consumidos em felicidade, são jovens demais e vivem demais. São pele e suor. Para quem encontra o amor, não é de importância saber se ele virá a acabar. Para os dois, a felicidade é ter um lugar para ir, seja esse um lugar real ou dentro deles mesmos, muito mais que um abrigo. Para quem ainda pode ser jovem, um momento vem após o outro.”

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