Não havia cidade grande o bastante para Dan, então, há cinco anos, ele se mudou para o interior, onde pelo menos teria mais espaço. Ele era um amigo próximo e nunca mais o vi. Recebi uma mensagem sua no meio da semana, enquanto eu trabalhava, e nela me pedia para visitá-lo. Era algo que ensaiávamos e nos prometíamos desde sua partida, e eu geralmente não conseguia ir, pois haviam outros compromissos e outras pessoas. A vida, quando se cresce, é cheia de novas prioridades. Ele, sempre gentil, não se importava com minha ausência e, mais do que isso, me compreendia. Sua mensagem veio acompanhada de uma foto em que ele, em seus muitos metros de altura, abraçava desajeitado ao seu pai, os dois sorrindo, em um píer sobre um rio calmo de águas escuras, o fundo um céu azul. São muito parecidos, mesmos traços, pele negra, ossos largos, mas o filho era magro, fininho, superando o dobro da altura do pai, um senhor encorpado e de barbas e cabelos brancos. Eram sorrisos tão bonitos e eu só podia atribuir essa felicidade que os iluminava às roupas leves que vestiam – bermudas largas, havaianas nos pés, camisas desabotoadas, o mais velho usando um chapéu de palha. Decidi ir.

Dan morou por anos sozinho na cidade, com seu pai bancando tudo, e nos conhecemos na faculdade. Ele gostava quando eu tocava violão, pois suas mãos são grandes demais para que o faça por conta própria. Me acompanhava com seu bom senso de ritmo e sua voz grave e afinada. Éramos uma boa dupla. Viajei ouvindo uma das músicas que tocávamos juntos, saindo da rodoviária movimentada na sexta à noite.

Ao poucos fui me perdendo em pensamentos acelerados de quem é da cidade que se desenrolavam e se continuavam em sonhos, que se diluíram e esfumaçaram conforme o sono se tornava mais profundo. Cheguei na cidadezinha pela manhã, meus fones não tocavam nenhuma música e o sol já havia nascido. Pela janela, pude ver Dan me esperando, sentado em um banquinho dento do pequeno terminal rodoviário da cidade. Desci do ônibus, os relógios não haviam chegado às oito horas ainda e pude sentir o calor do sol em minha pele. Não havia vento, apenas calor.

Dan é um gigante, seu abraço me pôs a trinta centímetros do chão e, apesar de sempre achar esse abraço desconcertante, aquilo me energizou do sono apático que eu sentia para um estado plenamente desperto. Você demorou muito, ele disse. Andamos os dois pelo meio das pistas dos carros, ele carregando minha mala, passando pela avenida principal da cidade e entrando em outras ruas e caminhos de pedra e terra. Seu passo era reduzido para que eu pudesse acompanhá-lo, num ritmo que ele havia aperfeiçoado no decorrer da vida, para poder andar com os outros. Ele cantou um trecho de uma música que gostávamos, eu contei uma piada que fazia referência aos nossos primeiros dias de convivência. Todos os outros estão bem? Não falei de todos, mas contei de cada um dos outros, falando que, mesmo que tudo tivesse mudado, pouco havia mudado. Às vezes a gente não muda, não pode, não quer mudar, menos você, que está aqui, que mudou. Quis, na verdade, dizer que ele havia se mudado geograficamente, mas veria, no decorrer do fim de semana, que ele havia se tornado outro. Adentramos em uma estreita estrada de terra que era margeada por mato e árvores que se estendiam para o alto e se curvavam,  os dois lados se tocando acima de nós e fazendo sombra pelo caminho. Terminava em um portão baixo de madeira, que Dan empurrou usando o próprio pé.

Eram muitas árvores, havia uma horta, montanhas verdes desenhadas no horizonte, pássaros azuis e vermelhos voando num céu claro e ensolarado, e uma casa de tijolo à mostra, não muito grande, mas bastante alta, no coração de toda a vista que se deu. Gostou? Espera só. Eu ri ao notar como sotaque dele havia ganhado força.

Seu pai me esperava na entrada da varanda, camisa xadrez desabotoada, bermuda comprida e larga, e havia um café da manhã generoso na mesa. O cumprimentei com um aperto de mão também generoso. Havíamos nos visto poucas vezes, nas ocasiões em que ele ia à cidade, e em todas eu havia sido presenteado com doces ou bolos que ele mesmo fazia e que separava para mim e para o filho. Eu, por minha vez, não havia levado nada para ele dessa vez, não havia me planejado para isso. Me servi de café (e muito café, único jeito de permanecer desperto e aproveitar a companhia de Dan), bolo de mandioca, beliscão de goiabada e alguns pães de queijo e, apesar de ter comido um muito, não estava nem perto em quantidade do tanto que meu amigo comia. Imaginei que seu pai, sem a presença de nenhum membro familiar por perto, devia dar um duro danado para conseguir manter o filho bem alimentado. Dan, que desde sempre dissera sobre quanto era valioso ajudar seu pai nas coisas do campo, uma única vez me contou do que sabia de sua mãe, que não chegou a conhecer. Meu pai nunca falou muito, eu nunca vi fotos, talvez ela até seja igual a mim, não sei nem onde eles se encontraram, se foi aqui ou em qualquer outro mundo. Só sei que foi ele que a deixou, nunca soube o porquê e ele nunca irá contar. Um senhor quieto, mas sorridente e de companhia agradável. Rimos durante o café da manhã, das coisas todas que nos lembrávamos, e as risadas seguiram pela primeira metade do dia, para dentro da casa, onde deixamos minhas coisas e eu me troquei, vestindo agora uma bermuda, chinelos e regatas. Era tudo familiar como uma canção de muito, muito tempo atrás.

Conheci seus cachorros, eram três e eram grandes e carinhosos, não muito diferentes do dono. Corriam livres pelo vasto campo aberto dos fundos, onde também havia um celeiro com algumas galinhas e um galo que parecia observar tudo imperturbável. Ficamos deitados nas redes penduradas na varanda, eu e Dan, durante poucas horas, em uma conversa que, raspando em assuntos do presente, era quase inteira de nostalgia. Pelo começo da tarde, o pai dele nos serviu uma lasanha vegetariana – o filho era vegetariano – em uma travessa enorme, acompanhada de pratos feitos com verduras frescas da própria horta, saladas coloridas, arroz soltinho e farofa com banana da terra. O dia continuou em calma e sol. Deitamos mais um pouco nas redes, andamos pelo terreno e ele me mostrou flores, árvores, pássaros dos quais os nomes já não me lembro. Disse que não havia muito o que se fazer ali na cidade, a não ser pela sorveteria que, além de barata, era sua favorita nesse país. Não fomos, somente por preguiça, mas disse que eu iria quando voltássemos. A volta já era uma nova promessa.

Dan me deixou sozinho, para ir ao banheiro. Seu pai tinha ido à cidade, com sua caminhonete. Sentado na cama do quarto de hóspedes, onde havíamos deixado minhas coisas, comecei a me atentar a alguns detalhes. Pela casa havia uma vitrola e uma coleção de discos, mas também havia uma televisão digital daquelas 4k. Havia fotos da família pela parede, Dan sempre muito mais alto. Não havia sinal no celular e eu só tinha tomado ciência disso nessa pausa, pois não procurara pelo aparelho na mochila em nenhum momento do dia. Havia também um cheiro diferente no ar, diferente da cidade. Percebi, consciente da respiração, que eu conseguia realizá-la numa facilidade que a tornava até mesmo prazerosa. Podia ouvir os cachorros latindo, podia até ouvir as galinhas em cacarejos baixos, podia ouvir as árvores se mexendo nesse clima de quase vento nenhum. Podia ouvir o silêncio.

Pela noite, eu já havia esquecido que o mundo não era aquele lugar (ou queria que o mundo não fosse outro que não aquele lugar). Eu e Dan ficamos na varanda, com um violão velho de seu pai, de cordas de náilon que eu tive que afinar. Arranhamos alguma coisa que conhecíamos, a melodia saiu estranha e nem chegamos a finalizar a canção, pois emendamos uma conversa. Os cachorros dormiam aos nossos pés, iluminados por lâmpadas incandescentes amarelas penduradas ao teto e sob a brisa noturna que aliviava todo o calor. Ainda era uma noite de verão e eu usava um samba canção e uma camiseta branca surrada, enquanto ele vestia somente um shorts curto de dormir. Noite a fundo, melhoramos o ritmo, o entrosamento, o tom e a memória reviveu e tomou nossos dedos e gargantas. Não havia ninguém para registrar e apreciar aquele momento, mas já houvera. Eu vou buscar um negócio, fica aqui, eu disse e logo voltei com um pequeno álbum de fotografias. Foram tiradas de apresentações que fizemos, em bares e no Centro Acadêmico da faculdade, nos cinco anos em que estudamos juntos. Eu tinha uma barba gigante na época, ele usava somente camisas de flanela. Pude ver uma lágrima escorrendo, colorida de dourado pela iluminação sobre sua pele negra, e ele agradeceu, do seu lugar, com um sorriso e nenhuma outra palavra. Continuamos tocando até as três da manhã, quando fomos dormir.

Pouco depois de acordarmos, nós partimos para uma trilha. Ele conhecia bem o caminho, mas ainda assim eu temia que não conseguíssemos voltar, tão intricado que era por entre árvores que se amontoavam e pedras que se sobrepunham, exigindo cuidados no andar. Sou medroso, nascido e criado em cidade grande. Os insetos, no entanto, me encantavam ao invés de assustar. Era curioso como alguns pousavam em Dan, que mal se importava e seguia seu caminho, por vezes tendo que se abaixar ou afastar galhos de árvores. Em certo momento, passamos por uma faixa de água que daria no rio e a trilha começou a ficar mais complicada. Precisei da ajuda dele, que me puxava e ajudava a subir sem muita dificuldade em lugares menos acessíveis. A trilha chegou em uma bonita estrada de mata aberta por onde andaríamos por mais alguns bons minutos sob o céu ensolarado.

Você não me disse de todo mundo. Tentei listar todas pessoas de que havia falado e de quem eu poderia ter esquecido, desde que eu chegara, mas eu sabia o que ele queria dizer. Eu sabia de quem ele queria ouvir. Foi minha decisão vir pra cá, eu sei o quão desconectado do mundo todo fiquei, eu gosto disso, mas eu queria saber, você entende. Eu disse que não sabia muito, ela tinha outro grupo de amigos, muito diferente do nosso. Eu a vi em uma ou outra festa da faculdade, depois que ele foi embora, mas nunca mais, desde que me formei. Em algum momento que passou despercebido por mim, eu e ele tínhamos deixado de andar e parado sobre a estrada. Na última vez, eu a levei a um parque, no fim da tarde, e nós nos sentamos em um banco e ficamos ali sem dizer nada por um tempão. Ela era pequenininha, eu sou um gigante, ela se apoiava com a cabeça no meu braço. Meu queixo tremia, sabe?, mas tomei coragem e contei para ela que eu planejava ir embora, para longe de todo aquele barulho, para longe dali. Eu perguntei se ela viria comigo e ela continuou sem dizer nada por minutos. A última coisa que ouvi dela foi o seu não. Quando Dan parou de contar, eu me aproximei e o abracei, com toda a força que eu tinha, longe de ser suficiente para tirá-lo um milímetro do chão. Eu pensei que trazia a dor da cidade de volta a ele, como quem traz as mazelas do mundo moderno a civilizações isoladas, me arrependia dos assuntos que tínhamos puxado e até da minha presença. Ela está com alguém? Ela está noiva, respondi em tom de desculpas. Ele não me olhava, mas eu pude ver que sorriu. Quando ele voltou a andar, o assunto tinha se dado como encerrado e eu não sabia como me sentir.

Logo, as conversas deixaram o passado. E você? Está sozinho? Tem essa garota. E você, aqui, no meio do nada? Algumas histórias, alguns amores, festas juninas, carnaval. Melhor que a época da faculdade. Desfiz a ideia de que o passado era demais para ele. Dan é um gigante, não se arrepende de nada.

As quase duas horas de caminhadas foram recompensadas com o rio, cenário da foto que ele havia me mandado quando me convidou a visitá-lo. Não havia ninguém, além de nós. As pessoas da região não costumam muito vir para cá, a trilha não é a mais fácil. Fiz amizades com alguns poucos corajosos que se aventuram por aqui, apesar disso. Quando tirei a camiseta, para mergulharmos, ele viu pela primeira vez a minha tatuagem. Quando fez? Você não contou nada. Eram duas borboletas em preto, o desenho das asas era disforme e se alternava em espirais e círculos conectados. Naquele instante, cada uma delas carregava imagens semelhantes a dois pares de olhos em suas asas, olhos que pareciam observar o ambiente e se transfiguravam aos poucos em outras coisas. Dan se abaixou e, com seu dedo, cobriu a parte das minhas costelas em que elas estavam. Assustadas, as duas se moveram para minhas costas, pousando perto de meus ombros, ao mesmo tempo em que ele afastou o dedo que as tocava e deu um passo para trás. Ele se divertiu com aquilo. Acompanhou-as enquanto elas iam de parte a parte no meu corpo, os três em uma dança organicamente coreografada que seguia o som da natureza que nos cercava. De onde elas vieram? Quando elas vieram? Eram respostas que eu não conseguiria dar, agora que a tatuagem fazia parte de mim. Ele não se importou por eu não dizer nada. Aqui nesse lugar, ele disse, se você deixar de falar um pouco e prestar atenção, pode até ouvir o bater de asas dessas borboletas suas, nessa leveza toda delas. Mais breve que tudo, mais leve que tudo, eu ouvi.

Em seguida, pulávamos nus naquele rio gelado e selávamos o reencontro. O Dan que eu via era o que sempre existiu e que só precisava de um lugar em que pudesse, de fato, sentir-se vivendo. Um lugar em que se possa ouvir o que temos para falar para nós mesmos. Éramos dois poetas e aquele momento selvagem era nossa obra. O prolongamos por mais algumas horas e nem sabíamos quantas eram. Uma boa parte desse tempo, apenas deitados na grama, sem dizer nada.

Voltamos para casa e me surpreendi com o quanto eu lembrava do caminho. Uma última refeição farta e outro aperto de mão de seu pai, e fomos novamente andando até a rodoviária, agora conversando do que projetávamos pros dias vindouros. Ele me tirou do chão novamente e eu não liguei. Obrigado e até logo, Dan.

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