magnético

acordei e ainda sentia o toque áspero do seu rosto no meu, o improvável gosto da sua pele em meus lábios e seu hálito quente, seus dedos assim sem querer pousando em minhas mãos e o puxão que me deu para que eu me aproximasse. é num momento curto que as coisas ao redor são empurradas para longe enquanto somos atraídos para uma colisão da qual é tarde demais para se escapar e que sempre esteve a um deslize de nós. eu xingo em vão sabendo que é mais um daqueles disparos que apenas nos deixam a assistir seu trajeto perfeito em direção ao que nos é mais valioso e obscuro. raio que aguarda em silêncio por toda sua existência para cumprir não mais que seu papel e tombar nossos corpos acertando as nossas cabeças. seu sabor é de tudo aquilo que desobedecemos ao chegar perto demais e de que não se consegue mais se afastar. bala que ninguém pode impedir que voe e destrua o que vier em sua frente. nos resta a paciência de quem sabe que pra nada serve relutar. e sabe que tão grande quanto a culpa é o desfrute do desejo. todo o resto é breve demais para importar. não é amor, é tiro e eletricidade. e que talvez seja amor. só venha rápido. trovoe. e vá.

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eu sei cada vez menos

perguntaram-me o que quero. na tentativa de achar resposta primeiro me veio que nesses ossos vestidos em pele em que me colocaram, não caibo. os pés que não conhecem os passos, o quadril que não requebra, os braços que voam ser saber por onde pousar, tenho que ignorá-los para acompanhar a dança. meu espelho é a pista cheia desses anjos de roupa rasgada, de roupa nenhuma, que vão ao chão e suam quando mexem e espalham suas cores, seus cabelos, alguns nem cabelo têm, viado, puta, drogado, os pelos na perna no peito no sovaco, a tatuagem que leva à virilha coxas peito bunda. eu não acredito no meu corpo.

finjo crer que não sei o que é o torpor que me toma quando chegam as horas do dia que são minhas, que o sol em virgem vai me trazer a clareza aos sentidos para que encontre a solução pra mim mesmo, que o sono vai me trazer de volta quem fui. há uma única verdade atrás de uma parede fina que não se pode quebrar, mas translúcida para que se vislumbre o que esconde. ao simples toque, dói o corpo. e sou eu mesmo quem me pergunto o que eu quero aqui? nas horas de metrô, na busca que não termina dentro dos romances, nos aplicativos cheios de rostos bonitos, subindo a augusta quando duas travestis tentam me roubar, sentindo raiva da raiva que tenho do mundo, incontrolável fúria que não se explica porque seu centro é a questão que a faz labirinto.

não acredito em tudo que digo. muito do que faço é desejo de me aproximar da autodestruição que desenham tão saborosa a quem é jovem. eu a sinto quando passo a língua pelos meus lábios, caminhando desregulado por aí. digo a mim que

para tanta sujeira, banho algum te tornará puro novamente. então, avance! mais distante da resposta, incerto de quem se é, ausente do corpo que lhe deram, que pensara ser próprio apesar da ciência de que a posse é ilusão, avance pro fundo dessa lama. verá que tudo em seu jeito é belo.

eu nem estou mais aqui.

do amor findo

do amor findo

me apaixonei
disse, vindo de lá.
no pouco fôlego
no que me sobrou
na inexistência de palavras
que fossem nome
ao que foi maior que o amor,
além da alegria
do sexo
e da curva
que cai
no corpo
do homem.
me fervi
na febre dos poetas.
fui para lá,
me ausentei.
eu fui,
me apaixonei,
eu sobrevivi.

primeira tentativa

primeira tentativa

primeiro beijo, é seu.
gilete no rosto,
confia ao amigo,
mexe na língua,
que coça os lábios,
que coça na barriga,
e agora que já tem barba,
me diz quem você quer amar,
é bom poder confiar,
é bom poder beijar,
confia.

chuta a bola,
quebra os ossos,
perde o gato,
estoura as cordas,
primeiro bicho vem aos 20,
mas pode vir aos 7,
arrebenta as baquetas,
dilacera o coração,
acha o gato,
mas foge do cão,
cresce e vira homem,
beija todos seus amigos
homens,
acha um emprego,
bebe suas mágoas,
não aprende a dançar,
mas consegue pular,
e pega chuva,
e beija na chuva,
e escreve sobre
como é bom beijar na chuva.

e perde o emprego,
e perde os amigos,
perde o caminho,
pede ajuda,
nem tente entender,
um livro latino,
acaba o curso,
mas não acha seu rumo,
mas encontra os amigos.

fala de anjos,
o gato morde seu braço,
de asas tortas,
cabelos cacheados
e jeito de moleque,
que anda de skate,
e toca guitarra,
que foge do amor.
e que tema a escola,
tema o trabalho,
mas não os dias,
pois tem a mim.

trema,
mas trema de amor
e de viver.

falei como é bom
beijar na chuva?
chega mais,
pula cá,
beije mais,
corra cá.
o primeiro beijo, meu.

dan não se arrepende de nada

dan não se arrepende de nada

Não havia cidade grande o bastante para Dan, então, há cinco anos, ele se mudou para o interior, onde pelo menos teria mais espaço. Ele era um amigo próximo e nunca mais o vi. Recebi uma mensagem sua no meio da semana, enquanto eu trabalhava, e nela me pedia para visitá-lo. Era algo que ensaiávamos e nos prometíamos desde sua partida, e eu geralmente não conseguia ir, pois haviam outros compromissos e outras pessoas. A vida, quando se cresce, é cheia de novas prioridades. Ele, sempre gentil, não se importava com minha ausência e, mais do que isso, me compreendia. Sua mensagem veio acompanhada de uma foto em que ele, em seus muitos metros de altura, abraçava desajeitado ao seu pai, os dois sorrindo, em um píer sobre um rio calmo de águas escuras, o fundo um céu azul. São muito parecidos, mesmos traços, pele negra, ossos largos, mas o filho era magro, fininho, superando o dobro da altura do pai, um senhor encorpado e de barbas e cabelos brancos. Eram sorrisos tão bonitos e eu só podia atribuir essa felicidade que os iluminava às roupas leves que vestiam – bermudas largas, havaianas nos pés, camisas desabotoadas, o mais velho usando um chapéu de palha. Decidi ir. Continuar lendo “dan não se arrepende de nada”