dan não se arrepende de nada

dan não se arrepende de nada

Não havia cidade grande o bastante para Dan, então, há cinco anos, ele se mudou para o interior, onde pelo menos teria mais espaço. Ele era um amigo próximo e nunca mais o vi. Recebi uma mensagem sua no meio da semana, enquanto eu trabalhava, e nela me pedia para visitá-lo. Era algo que ensaiávamos e nos prometíamos desde sua partida, e eu geralmente não conseguia ir, pois haviam outros compromissos e outras pessoas. A vida, quando se cresce, é cheia de novas prioridades. Ele, sempre gentil, não se importava com minha ausência e, mais do que isso, me compreendia. Sua mensagem veio acompanhada de uma foto em que ele, em seus muitos metros de altura, abraçava desajeitado ao seu pai, os dois sorrindo, em um píer sobre um rio calmo de águas escuras, o fundo um céu azul. São muito parecidos, mesmos traços, pele negra, ossos largos, mas o filho era magro, fininho, superando o dobro da altura do pai, um senhor encorpado e de barbas e cabelos brancos. Eram sorrisos tão bonitos e eu só podia atribuir essa felicidade que os iluminava às roupas leves que vestiam – bermudas largas, havaianas nos pés, camisas desabotoadas, o mais velho usando um chapéu de palha. Decidi ir. Continuar lendo “dan não se arrepende de nada”

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vertigem

vertigem

De cabelo recém raspado totalmente, os olhos são expressivos, contornados pela sombra que seus cílios compridos formam, a pele é morena e o rosto tem traços finos, mas que expressam seriedade. Já passou dos vinte e cinco, mas algumas pessoas acreditam que ainda tenha dezenove. Veste uma camiseta regata preta, sem estampas e de alças finas, e uma calça jeans com buracos rasgados nas duas pernas que mostram seus joelhos. Os dentes são perfeitos, mas quase não os exibe enquanto tira suas fotos no espelho do elevador, que não teve sua descida, do décimo segundo andar ao térreo, interrompida por outros passageiros.

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eu não ligo se chover

Acabou a luz e eu tinha alguma bateria sobrando. Algo, uma árvore provavelmente, havia derrubado a energia elétrica na região. Não sabia se a queda ocorrera somente para meu bloco, minha rua ou para todo o bairro, o terrível barulho que a tempestade fazia me afastava da janela e as cortinas fechadas me protegeriam de tudo que viesse lá de fora. O barulho de uma pequena explosão, vindo do transformador atingido, era o suficiente para me dar contornos do que devia ter acontecido.

Todas as muitas abas do meu navegador estavam abertas em páginas de referência científica e, sem a eletricidade para alimentar a aparelhagem que trazia e distribuía a internet pela minha casa, eu estava limitado a elas. Os poucos livros abertos sobre minha mesa só podiam ser lidos sob a luz da tela do notebook e do celular. Saber que logo esses dispositivos ficariam sem energia e se desligariam me impedia de seguir nos trabalhos para evitar a frustração de ter a linha de raciocínio interrompida.

Para que me convencesse, ensaiei essa explicação ao espelho, no escuro e em silêncio. Sorri ao perceber que minhas olheiras eram suavizadas pela falta de iluminação. Tudo indicava que às sombras eu pertencia e nelas eu não seria notado. Não como os que lutam para ser notados entre os sorridentes iluminados, mas são ignorados. Eu era imperceptível na falta da luz e isso me  trazia paz.

Deitei-me sobre o tapete que cobria a sala de estar, suas cores apagadas com o escuro, entre a televisão e o pequeno sofá, longe da mesa dos trabalhos.  A explosão do transformador tinha levado consigo todos os outros barulhos do mundo, aquietando inclusive o vento furioso que fizera as janelas baterem, as portas tremerem e os carros tocarem seus alarmes. Podia-se ouvir somente o som da chuva que caía sobre o silêncio absoluto, como se mais nada existisse para ser molhado por ela.

Eu estava deitado sobre o tapete de uma casa que flutuava na chuva que caía em lugar nenhum. Se eu abrisse a porta e saísse, não haveria quem corresse de mim, não mais. Eu poderia gritar tudo o que eu pensava ao vento e todas essas coisas encontrariam um novo lugar que não as paredes claustrofóbicas que se formaram dentro da minha cabeça. Se a tempestade levasse o meu teto, eu me molharia e choraria e nada disso teria importância alguma para ninguém.

Coloquei os fones de ouvido e escolhi um álbum, as últimas músicas para aquele momento, enquanto meu celular permanecia ligado. Sobre o mesmo tapete em que estava deitado, eu poderia dançar e para isso eu não precisava de roupas, de sapatos, nem mesmo dos pés que me levantariam, ou sequer da música. Dançaria sob a chuva e com a chuva, na tranquilidade que me permitia ser o maior dos dançarinos, que poderia praticar seus passos sem que nada nunca o interrompesse.

Gastei o que sobrava da minha bateria longe de todo o barulho e de todas preocupações, longe de tudo que não me deixava ser as mil coisas que o silêncio cantava para mim e que eu desejava ser.

recortes de como suas cores me fizeram

Na manhã em que ele entrou na sala pela primeira vez, acompanhado de mão dadas com a professora, eu tinha chorado. Meus olhos vermelhos me deixavam frágil às muitas perguntas sobre o motivo de eu estar triste, eu andava tentando me esconder das brincadeiras ou da preocupação das inspetoras. E, se me perguntassem hoje o motivo de eu estar chorando naquele dia, eu diria que era porque chovia.

Com seu característico excesso de formalidade, a professora Marcela nos apresentou Paulo. Houve alguns cochichos pela sala, alguém perguntou “mas ele fala português?” e disso alguns riram sem disfarçar. Meu amigo dizia ao meu ouvido “Ei, não é estranho?” e eu não o respondia. E, de uma maneira que eu não conseguiria descrever ali, eu me identificava com o novo aluno. Conforme a professora o liberou para que escolhesse algum lugar para sentar, torci para que ele ficasse do meu lado. Eu era um garoto de dez anos, fascinado por outro garoto que entrava na sala, sem saber o que estava sentindo exatamente, mas culpando-se instintivamente. Assim, tentei disfarçar o desapontamento por ele não ter escolhido uma carteira ao meu lado. “Olha, ele é rosa agora” meu amigo me disse, e não era rosa cor de meninas, maricas, boioloas, viadinhos, gays? E isso não era errado? Eu sabia que eu era homem e que aquelas cores dele não eram pra mim, por mais que eu estivesse perdido em questionamentos nelas.

Os dias passavam e eu não tinha a coragem de me aproximar, por medo do que ele pensaria, mas, principalmente, por medo do que os outros pensariam de mim. Paulo era solitário na carteira que ficava exatamente no meio da sala, rodeado por crianças viradas de costas para ele, enquanto conversavam em seus grupos fechados. Entre meus amigos, durante uma ou outra conversa, eu comentava sobre o estranho novo menino, gerando comentários de resposta que variavam da repulsa a chacota. Durante uma aula de desenho livre, eu me cansei do azul, verde, cinza e preto que me rodeavam, me levantei e fui até a mesa dele pedir algumas de suas cores emprestadas. Mais do que apenas me entregá-las, ele sorriu, contente de alguém ter se dirigido a ele e eu o respondi da mesma forma. Conversamos sobre a mistura de diferentes tonalidades e ele me mostrou alguns de seus desenhos. Continuamos trabalhando juntos e, ao final da aula, a professora recebeu nossos desenhos com um olhar desconfiado.

Em uma aula de educação física, eu não participaria das atividades por estar com a minha respiração afetada pela bronquite. Milena era minha companhia na pequena arquibancada da quadra, por ser dispensada por problemas de saúde, enquanto todos os outros eram obrigados a jogar queimada. Uma bola carregada de maldade acertou Paulo em seu rosto, o levando ao chão. Havia agora um roxo somado a todas suas cores, próximo ao seu olho dourado. Me apressei em ajudá-lo, mas a professora mandou que eu me afastasse. Dei três passos para trás e vi que todos da sala me observavam, espantados pelo meu súbito ato de preocupação. Paulo se juntou à arquibancada, mas eu não me aproximei dele. Continuei ao lado de Milena, que apenas observava meu silêncio, sendo que eu me sentia culpado por querer ajudá-lo e ela sabia disso. Ela levantou, me puxou pela mão e fomos sentar ao lado dele. Perguntamos como ele estava se sentindo e conversamos até o horário do intervalo. Todos saíram para o pátio e a professora disse que não se incomodaria se continuássemos ali. Depois dessa manhã na quadra da escola, eu não lembro mais de ter havido dias chuvosos.

Quando você não está fazendo nada de errado, nada além de escrever versos de amor e desenhar paisagens bonitas em paredes brancas e vazias, o mundo não sabe como reagir. Como pode algo ser mais atraente, mais fascinante, mais curioso, que minha vida cheia de certezas? Eu nunca entendi como alguém pode ter tanta certeza sobre qualquer coisa vivendo nesse universo cheio de mistérios e eu nunca deixei de acreditar em mágica, mesmo quando tudo aconteceu e eu pensei que a tristeza nunca passaria. Nos anos seguintes daquele dia na aula de educação física, o que fizemos foi pintar as paredes daquela escola, nosso mundo em escala reduzida. E, quando não nos aceitavam, eu batia o pé e os encarava de frente, sem medo do que poderiam fazer comigo ou pensar de mim. Um soco na boca e meu sangue coloria o piso do refeitório, outro no estômago e eu caía sem ar, mas sempre estive ao lado de Paulo, junto com Milena. À princípio, éramos nós três, mas não havia como não se contagiarem com tamanha felicidade, felicidade simples e pura. As cores de Paulo estavam virando uma tendência e, afinal, todos tínhamos um pouco delas. Todos somos especiais, todos somos o mesmo, não há o que complicar.

Na noite em que os olhos dele eram da cor lilás, ele estava perdido na vida, como disse com suas próprias palavras. Pelas suas mãos eu podia entender o que dizia, pois por cada dedo seu passavam cores que eu não conseguia sequer interpretar, mudando de tonalidade em intervalos de poucos segundos. Tentei segurá-lo para que se acalmasse, disse para ele tentar me explicar o que sentia, mas ele brilhava como se possuísse toda a imensidão do infinito além da Terra. Ele apoiou sua cabeça em mim e coloriu minhas costas com as lágrimas que escorriam pelo meu ombro. Ali, deixei que ele esvaziasse toda a angústia que sentia pelo mundo, de cada dia cinza em que ele esteve sufocado, de cada dia carregado do futuro assutador que ele esperava. Aceitei a tinta que vinha dele, deixei que meu corpo e minha alma o servissem para acompanhá-lo na vida e prometi nunca deixá-lo sozinho, independente de qualquer coisa que nos esperasse em algum ponto distante no tempo.

Quando crescemos, ganhamos a arrogância necessária para querer mudar nossa realidade e formamos um grupo, ou até uma geração, cheio de potencial. Confrontamos tudo que já estava estabelecido e honramos tudo que sentíamos e éramos, lutaríamos por todos que se sentissem reprimidos de alguma forma. Criamos uma nova escola, uma nova mentalidade, partindo de atos simples e individuais, apenas aceitando as pessoas e o amor. Ah, mas isso incomodou, conforme as notícias sobre novos dias percorriam a cidade, o estado e o país, chegando até outros continentes.

Eu só tive coragem de ver aquelas cenas, gravadas pela câmera que ficava em cima do local do crime, uma única vez, e foi o suficiente para que eu desmaiasse. Cada soco que Paulo levou, levava um pouco de suas cores. Seus olhos foram apagados logo no princípio, do verde para o breu. Eram pelo menos seis agressores. Naquele dia eu não estava andando com ele, logo naquele dia em que um soco tirou o rosa de seu rosto. E o azul de seu cabelo foi arrancado, enquanto chutavam o vermelho de suas pernas. Seus lábios dourados foram o que se apagaram por último.

Me sobraram as imagens na memória de quando as cores dele se misturavam com o fim da tarde. O tom da felicidade em uma conversa leve. Um abraço entre dois amigos, dois, ou três, ou quatro, ou quantos mais quisessem. Um pedaço de nós, único em sua beleza.

Por mais de um ano, tentei recompor sua imagem, usei todas as tintas que eu tinha, usei todos estilos que eu conhecia, todos os pincéis e todas as técnicas, eu gritei de frustração, eu chorei de solidão, eu me desesperei sem acreditar mais que conseguiria tê-lo de novo. E não havia consolo no meu sentimento, não havia motivação para um passo seguinte, não havia o brilho que me guiava. De joelhos em frente a uma pintura vazia, eu abaixei a cabeça. Milena assistia às minhas vãs tentativas. Apreensiva, ela chorava, até o momento que não pode mais aguentar. Levantou-se e se sentou ao meu lado, ela me confortou em seu peito. Eu era novamente uma criança assustada com a escola que me esperava, com o mundo sujo que estava fora daquele quarto. Ela sussurrou no meu ouvido, ela me acalmou, me mostrando o que tínhamos ainda de Paulo. Ela fez com que eu erguesse meu rosto e me levou até um espelho.

Muito do que ele tinha nos dado estava refletido naquele espelho de moldura gasta, ainda colorida de dourado. Ela segurou firme minha mão. Há algo em nós, que ele nos ensinou, que vai mudar como as coisas são. E nessa esperança nos apoiamos, sabendo que há algo a mais em tudo, uma magia tão única quanto suas cores. Cores que o mundo talvez nunca mais veja, que o mundo como é não merece ver, mas que sabemos da existência.

esse é de todos, menos de mim – rascunhos do meu caderno

Esse é um texto da moça negra, de roupa bonita e lábios vermelhos, cabelo crespo e comprido, para o alto, vivo, formoso como ela quer, olhos de gente forte com a suavidade que expressa seu coração de mãe que sai mais cedo do serviço para levar o filho pequeno, carregado pela mão, ao cinema numa quarta-feira à tarde.

Do moço que sonha acordado, sorrindo sem perceber que é visto, sorrindo porque é melhor do que chorar diante de tudo que tem acontecido a ele, observando algo distante, que só ele pode enxergar, apesar de não estar ao alcance de sua vista, durante todo o caminho dentro do trem, em outro lugar.

Do velho que xinga a todos no ônibus, escolhendo as piores palavras, sobre pernas que mal o sustentam, tendo de se apoiar na porta. Entre os palavrões, o mau hálito da cerveja, maldizendo a criança que ri, que ele mal pode ver com sua visão afetada. Num mundo escuro e solitário.

Da criança magra que corre como o vento, esguia como o próprio ar que respira, passando em cada fresta, sem parar, sem parar de brincar e sem perceber que, no caminho, a menina dos cabelos enrolados queria falar com ele, mas esse moleque não a viu e ela, manhosa como é, se pôs a chorar.

Do amigo que compôs aquela música que é única, só nossa, para quando nos formos, ela ir também. A quem eu só espero que não esteja triste, a gente fez tanto juntos, me fez tantas coisas, só espero que não esteja triste como eu estou.

Da senhora bêbada que se despede, saindo do bar que começa a fechar suas portas, já próximo da meia noite. Dos homens que sobraram, todos a olham com piedade e escárnio, ninguém a responde. Ela segue para algum lugar, espero que para casa, cambaleante.