sobre ter medo do escuro

sobre ter medo do escuro

Em volta de uma mesa de bar vermelha, de latão, iluminada por uma luz focal sobre ela, sentam-se quatro jovens, dois homens e duas mulheres. Sobre cada um deles também incidem luzes focais de cor amarela, vindas de lâmpadas incandescente suspensas sobre os locais onde estão sentados. Na mesa há um balde com três garrafas de cerveja, de vidro marrom, e um copo para cada.

A (homem, 23 anos): vocês já pensaram sobre a morte?

C (mulher, 28 anos): credo, olha as coisas que você vem falar.

M (mulher, 25 anos): mas até que não é uma pergunta muito ruim, eu sempre penso. E, pior, eu sempre choro quando eu penso sobre isso. Desde criança. Minha mãe chegou a me bater, uma vez, para eu parar de frescura. Do nada, eu comecei a chorar e gritar pela casa, quando eu tinha lá meus nove anos, “eu vou morrer!!”.

E (homem, 24 anos): depende. Às vezes eu lembro que vou morrer, aí fico acelerado, querendo viver as coisas todas de uma vez.

M: mas não é assim que funciona a vida, né?

A: claro que é! Eu acho que a gente perde muito tempo com besteira, com disfarces, querendo fingir que não sente o que está sentindo!

E: O que você quer dizer com isso? O que você acha que não está vivendo?

M: diz aí, é alguém que você quer pegar e não pode, A? Mulher casada? Ou alguma droga que você quer usar e está com medo? O que é?

C: ai, gente. Deixa ele. E ele tem razão. Esse negócio de trabalhar 40 horas por semana por exemplo. Pra mim, é escravidão. Nós temos medo da prisão, sem ver a nossa própria. Eu mal consigo fazer as coisas, porque estou sempre exausta!

M: é escravidão total! Por isso eu vivo tranquila com os meus freelas. Assim, eu não sou muito mais livre que vocês, não. Mas não sou obrigada a ficar ouvindo babaquice de chefe machista, pelo menos. Se encher o saco, eu já chuto pra longe.

E: a vida é curta demais, mesmo! Curta demais e eu demorei muito tempo pra me assumir o viado lindo que eu sou, hoje. Isso é o que mais me aperta no peito, lembrar do adolescente tímido e retraído, nada a ver comigo que canto beyoncé bêbado em karaokê de qualquer bar de esquina e posto foto da bunda no instagram e

A: eu precisava ser mais que nem, você, E.

M: com certeza, eu super queria ver umas fotos sua pelado no Instagram, lindinho.

C: hoje você está atacada, hein M. Você está deixando o menino envergonhado!

M: que nada, ele só precisa beber mais! Me dá seu copo, aí!

M enche o copo de A.

A: mas até que é verdade, isso. A gente tem umas nóias com o corpo, tantas amarras desnecessárias. Eu queria é viver alguma coisa bem livre, e poder tirar a roupa é uma expressão, também, não é?

E: ai, com certeza. E pra homem afeminado bicha é um manifesto, saca? De existência, de subversão, de resistência!

A: não deve ter sido fácil.

E: não, não é fácil.

C: mas você está feliz e plena!

E: pleníssima!

As luzes sobre as duas sobre as duas meninas e sobre a mesa se apagam. Somente os meninos ficam iluminados.

E: ei cara, mas, sério, se tiver algo que você queira falar, pode contar pra mim. Beleza?

A: eu sei.

As luzes sobre as meninas e a mesa se acendem novamente.

A: e tem esse lance também de reprimir o desejo. Às vezes a gente só quer beijar uma boca! Não deveria ser tão errado, assim, querer algo desse tipo!

As luzes sobre os meninos se apagam, deixando a mesa e as meninas iluminadas.

C: ih, M. Será que é você que ele quer beijar?

M: não sei, mas ele tá ficando soltinho.

C: ai, ele é tão fofo, né? Tímido assim.

M: essa boquinha, meu deus! Eu não aguento.

M batuca os dedos sobre a borda do copo. No instante seguinte, as luzes sobre os meninos se acendem novamente.

C: vocês ainda são uns meninos. Jovens, tem nada que pensar em morrer.

A: mas pensar em morrer talvez seja o melhor a se lembrar para poder viver!

E: às vezes a gente tem que correr mesmo, se destruir, fumar sem medo do câncer – aliás, me vê um cigarro, M? Mas, tem vez que a gente só tem que aproveitar as coisas, tipo essa conversa nessa mesa de bar.

As luzes sobre C e A se apagam. M entrega um cigarro para E, que o posiciona na boca, enquanto M tira o isqueiro e o acende na ponta.

E: obrigado.

M tira outro cigarro para si mesma. As luzes sobre C e A voltam a se acender.

E: o que vocês querem fazer ainda, antes de morrer?

C: você fala como se isso fosse acontecer já, já.

M: nunca se sabe!

C: credo, gente! Antes de morrer, eu quero viajar pra uma praia bem paradisíaca com meu mozão.

E: eu quero ser famosa, e transar com um monte de caras bonitos!

M: eu quero beijar uma certa boca, é tudo que eu peço!

A: eu quero ficar pelado ao ar livre!

Todos riem.

A: mas também quero viver um grande amor.

C: gente, que fofo!!!

As luzes sobre C e E se apagam. M e A permanecem iluminados.

M batuca sobre a borda do copo.

M: você quer mais cerveja, A?

A: não, obrigado. Estou bem, já. Até meio alto.

A olha para o chão.

As luzes sobre E e C se acendem.

C: mal falei no mozão e ele está me ligando, para ir embora. Quem vem comigo?

A: hã, E? Sua casa é caminho da minha, não é? Como você vai voltar?

E: metrô! Vamos juntos?

M: ai, eu acho que vou com você, C.

C: então, vamos! Que ele já está perto. Você paga, E?

E: folgada! Mas pago, sim, vai lá querida. Amei ver vocês!

M: tchau, lindos!

C: boa noite, meninos.

As luzes sobre M e C se apagam.

A: bom, vamos embora?

A se levanta da cadeira.

E: deixa só eu pagar.

Todas as luzes se apagam.

A luz antes posicionada sobre a mesa se acende novamente, mas com A de pé sozinho sob ela, dessa vez. A mesa e as cadeiras não estão mais presentes. Ele tem as mãos nos bolsos e a cabeça baixa. Instantes depois, E volta sem o cigarro e se posiciona também sob a luz.

Os dois ficam lado a lado, olhando para frente. A tira as mãos dos bolsos.

E: nossa, até que esfriou.

A: sim, não estava esperando essa virada de tempo, não.

E: Você vai pegar a linha vermelha também, né?

A: vou, sim.

E: que bom, podemos ir conversando mais.

A: E?

E: fala.

A: você tem medo?

E: do que? Da morte?

A: na verdade, não. De ser gay.

E: bastante. Mas a gente não pode se curvar pro medo. Tem que resistir. E existir!

A: e da ridicularização? Dos comentários maldosos?

E: ah, isso aí machuca, mesmo. Não foi fácil superar, e não posso dizer que não me atingem mais. Mas os comentários afetuosos, hoje, são maiores.

A: você é foda.

E: você é um querido. Mas, por que pergunta?

A não responde.

E: A, me diz.

Os dois se viram para ficarem um de frente pro outro.

E respira fundo e movimenta-se como se prestes a falar, mas vacila e solta um suspiro sem dizer nada. Os dois voltam a se virar de frente. Em silêncio, E pega a mão de A. Os dois continuam de mãos dadas por poucos segundos.

Todas as luzes se apagam.

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pra pegar o próximo trem

pra pegar o próximo trem

Voltávamos cansados para casa, meu irmão e eu, nós dois de pé no vagão do metrô da linha verde. Não falávamos, já havíamos conversado sobre todas as coisas. Não era um silêncio de estranhamento ou rompimento, existia um companheirismo entre nós que tornava desnecessárias palavras à toa. Depois daquela tarde sem rumo, andando sob o calor do sol, me sentia esquecido de tudo que não pertencesse àquele momento. Eu me sentia calmo.

Meu irmão, mais velho em pouco anos, é quem puxava os passeios desse tipo. Estava absorto em seu cansaço, olhando para a tela do celular, com o corpo encostado na haste de ferro. Vestia-se com camisetas largas e calças de agasalho cinza, a barba rala cobria seu rosto de forma esparsa e o cabelo tinha sido raspado na máquina três. Os olhos, vermelhos e caídos depois do baseado. Apesar dessa aparência de pessoa tranquila, era a irritação que o movia. Mais cedo, tinha entrado no meu quarto e perguntado o que eu estava fazendo antes de me puxar para fora de casa, sem deixar que eu terminasse minha resposta. “Para com isso, nós vamos para a rua, é sábado e olha esse sol.” Passamos por livrarias, de lá fomos comer hambúrguer e então fomos curtimos o pôr-do-sol numa praça quase esquecida da cidade, sem nos preocuparmos com o horário de voltar. Quando sentimos que queríamos ir para casa, pegamos o metrô.

Eu, chapado também, estava olhando fixamente para ele ali no vagão, observando o seu jeito, quando ele me pegou o encarando e perguntou “o que foi?”. Eu respondi que não era nada, mas compartilhei um pouco do meu pensamento com ele. “Quais são as coisas que te deixam tranquilo? Que te deixam calmo, sabe?”

“Eu sou calmo, naturalmente” ele respondeu, se divertindo com o tom de piada interna que tinha o que falara – todos, inclusive ele, sabem que ele é inquieto. “Não é porque eu não sossego e porque eu reclamo de tudo que eu não seja calmo, existem momentos. Eu sou de picos de energia, tenho que aproveitá-los para fazer as coisas. No espaço entre eles é quando eu busco organizar meus pensamentos para não ser só barulho.”

“É real. Acho que barulho é o meu estado de mente mais comum. Mas, olha só. Fim de semana passada eu fui no parque”, eu continuei “e teve uma hora que bateu uma brisa fresquinha, depois de ter dado algumas voltas andando com o boy, quando já estávamos sentado sob a sombra das árvores, eu estava com a cabeça apoiada no ombro dele e ele segurava minha mão, e o mundo nem parecia ser tão bosta assim.”

“O poetinha está apaixonado.”

“Vai se foder!”

Próxima estação: Tamanduateí, avisou aos passageiros a gravação com voz de mulher. Era a estação em que íamos descer, então saímos do corredor para mais perto das portas.

“O importante é saber que existem momentos. A gente fala muito sobre equilíbrio, mas essa é uma ideia inalcançável. Nem por isso, não temos que tentar. É só sentir para que lado estamos pendendo, pra qual lado está mais pesado e ter consciência de que é preciso fazer algo para cair um pouco pro lado contrário. Mais que consciência, se mover para isso. O que não podemos é estar sempre em calmaria, ou sempre em tensão. Olha,” me puxou para perto da porta e disse próximo ao meu ouvido “hoje é sábado, as pessoas ainda estão com pressa. Quando essa porta abrir, eu vou sair correndo e você fica e observa. “

Olhei ao meu redor e o vagão estava cheio, levando em consideração que era sábado. Todos os lugares para sentar vieram ocupados no caminho e havia pessoas de pé nos corredores. Entre os passageiros, senhoras e senhores que entravam atrapalhados empurrando e trombando com os outros, indo com pressa em direção ao primeiro assento disponível; adolescentes que se dividiam entre os barulhentos que falavam em voz alta excitados pela ausência de supervisão adulta avisando que estão chegando para dominar o mundo e os outros jovens que estavam imersos nas telas de seus celulares, curtindo fotos e respondendo comentários em aplicativos ou jogando e mandando mensagens ofensivas para os outros jogadores; famílias voltando de passeios em parques e shoppings ou indo para uma sessão de cinema; trabalhadores dormindo com o rosto encostado na janela, num sono tão profundo que mal percebem os vendedores ambulantes que gritam anunciando seus produtos; e tantos outros perfis.

Assim que as portas se abriram, meu irmão olhou para mim e disse “tchau” antes de sair correndo, disparado em direção das escadas rolantes que davam para a área de baldeação do metrô para os trens da CPTM. Alguém viu que ele corria e começou a seguí-lo no mesmo ritmo e outro alguém viu essa pessoa correndo e também o imitou, até que, nessa sucessão, todos saíram correndo. Não tive tempo de reagir, fui empurrado para fora do vagão que em pouco mais de um segundo se esvaziou por completo. Não havia sobrado uma única pessoa dentro. Todos haviam saído correndo, inclusives pessoas que estavam sentadas no banco quando o trem parou e que provavelmente não planejavam descer naquela estação. Eram algumas centenas de pessoas como uma manada furiosa que se empurrava e que se afunilou nas escadas. Não durou muito tempo, desciam as escadas com o passo acelerado, apesar do perigo que isso representava e logo a massa de pessoas foi sumindo. Era possível acompanhar a localização delas pelo barulho que causavam, os pés batendo com peso no chão, uma batida frenética que foi se distanciando até cessar de súbito. Quem entrava pelas catracas corria para seguir o movimento. Alguns idosos ficaram, naturalmente, para trás, desorientados sem saber como acompanhá-los, dadas as suas limitações. Os seguranças e funcionários da estação assistiam atônitos à cena. Tamanduateí não era a estação final daquela linha, o que tornava absurdo o trem ter esvaziado daquela forma. Continuei andando e, um pouco antes da escada, meu irmão me esperava.

A breve corrida o havia cansado e ele tentava controlar a respiração, entre acessos de risos, que me contagiaram. “O próximo trem deve passar só daqui uns quinze, no mínimo dez minutos” ele disse. “A gente não sabe porque está correndo. Nem para onde”.

Eu não soube o que responder. O barulho tinha feito com que o silêncio que seguiu se fizesse ainda mais notável. Era como se o mundo dissesse vocês vêm, fazem o barulho e os estragos que quiserem, corram à vontade e se destruam, depois que passarem, todo o resto fica. Para sempre. E nós estamos de passagem, eu lembrei, e nem sabemos como é depois que acaba. E conforme esse pensamento ganhava espaço na minha cabeça, meu coração acelerava e todas as minhas vontades surgiam urgentes, eram tantas e eu estava atrasado para realizá-las. Eu estava atrasado e a nossa passagem por aqui estava cada dia um dia mais próxima do fim. Essa ideia começava a me sufocar, ficando gigante, maior do que eu, num brevíssimo instante. Mas o que importa é o pôr-do-sol chapado com meu irmão, me forcei a lembrar. O que importa é o beijo sob a sombra da árvore no parque depois de uma noite gostosa de curtição com o cara que eu gosto. O que importa é o instante de agora e todo o resto, bom, todo o resto fica.

Fui tirado do meu transe pelo meu irmão com um “bora”. Chegamos na plataforma ao mesmo tempo em que um trem estacionava para o embarque dos passageiros. Ainda tinha mais meia hora de caminho pela frente. Fizemos esse último trecho sentados. Meu irmão encostou em meu ombro e me chacoalhou para me acordar, quando chegamos à nossa estação. Abri os olhos devagar, descemos e fomos andando, já tendo começado a escurecer, até nossa casa.

o movimento visto da janela

o movimento visto da janela

Enquanto lava as louças que formavam na pia uma pilha enorme, desde o dia anterior, tenta definir uma ordem para a caótica gaveta de talheres. Passou o dia limpando a casa do pai, que há alguns meses está doente, passando boa parte de seus dias na cama. Limpa o chão e os armários da cozinha, antes engordurados, e tira o lixo deixado pela sala, pacotes vazios ou quase vazios de bolacha recheada, lenços de papel esquecidos e outras coisinhas. Nesse fim de semana, a cuidadora não pode vir e, entre os irmãos, é o único que tinha disponibilidade. Suando de calor, decide tirar a camiseta. Vai ao quarto do pai ver se o calor não está incomodando e o vê dormindo em um sono pesado. Para ali e o observa por um instante. Se aproxima, encosta em sua mão, que tem os ossos evidentes sob uma pele fina e enrugada. O pai perdeu muitos quilos desde que ficou doente.

Da porta da cozinha, sai para o quintal da casa, onde estão as plantas, todas muito bem cuidadas. Assim como todos os outros cômodos da casa, não existe uma ordem ali. Esse aparente descuido é o que dá o charme ao ambiente e quem quer que tente achar uma arrumação, acaba por desistir. Qualquer tentativa de achar um lugar pras coisas dali faz com que pareçam deslocadas de sua natureza, ferindo o que dá alma à casa. A cuidadora já havia dito. Querido, eu tentei arrumar a casa, mas não tem jeito não. As coisas parecem estar onde querem estar. É o que faz dali tão aconchegante.

Sob o sol, entre os tipos diferentes de verde do jardim, senta ao chão. Passarinhos pousam sob o muro e fazem barulho, disputando a comida que, todo dia, é religiosamente deixada pelo pai. Fecha os olhos, mas logo ouve o pai chamá-lo.

No quarto, fica ao lado do pai, sobre a cama. Ajuda-o a se ajeitar para que também fique sentado. Você podia estar aproveitando esse sábado de sol com os seus amigos. Mas está aqui cuidando de um velho que já passou da hora de morrer.

Não fala essas coisas. Eu estou bem, não tem ninguém querendo sair hoje.

E aquele convite que eu ouvi você dispensando no telefone? O filho se enrubesce, tendo sua mentira pega. Era algum outro garoto? Achando graça da curiosidade do pai, responde. É sim, mas combinamos de sair segunda à noite, quando a Cláudia voltar. Eu estou bem aqui, pai.

Eu gostei do corte novo, te deixou ainda mais jovem. Certeza que você tem uma fila de meninos apaixonados por você, garanhão.

É quase assim desse jeito que você fala, pai.

O quarto tem quadros dos três irmãos, todos homens. Uma cortina amarela cobre a janela e a luz que por ela transpassa colore de dourado as paredes. O pai pede que o filho abra a janela e tire a cortina para entrar uma brisa, pois sente calor. O obedece, mas o tempo parece estar parado e não há ar entrando para refrescá-los. Da janela, vê-se árvores e montanhas do parque estadual, vizinho à casa. Uma borboleta de asas azuis de tom vibrante, escuro, entra pela janela e sobrevoa os dois, até voltar por onde entrou e pousar. Cessa seu movimento das asas e permanece estática como arte pintada no parapeito.  Talvez um banho, coloco uma água fresca, que não vai fazer mal. O que você acha?

O pai se despe do pijama, ainda deitado na  cama, com ajuda do filho, que também fica nu. Se apoia no jovem e, a passos curtos, entram no banheiro do quarto. Há um banquinho embaixo do chuveiro e hastes de ferro para o pai se segurar, dentro do boxe. Antes de ligar o chuveiro, o filho usa a mangueira para medir a temperatura da água. A pele dos dois contrasta em cor e textura, uma marcada pelo tempo e pelo sol que tomou em uma vida de trabalho árduo, que endureceu a palma das mãos e a sola dos pés. Na pele do outro, as marcas são de inúmeras tatuagens que se desenham por todo o corpo, pernas, peito, braços e pescoço, e os dedos têm a delicadeza de quem nunca empunhou ferramentas, nem precisou carregar peso para garantir o sustento próprio e de quem ama. Em ambas, as muitas pintas escuras por todos os lugares são o fator comum. Outros traços, como o nariz comprido e o cabelo sempre desgrenhado, também são presentes nos dois. O filho ajuda o pai a se ensaboar e, alternando entre a mangueira e o chuveiro, o enxágua. Os dois se secam e, após o banho, o pai pede para descansar. Pega no sono rápido, sente-se fraco.

Sem se vestir, o filho vai para a sala, pega seu celular e sai para o jardim. Aciona  a câmera e posiciona o aparelho apoiado no lado de fora da janela da cozinha, depois de procurar um enquadramento ideal, que pegue uma boa parte do jardim. Programa a contagem do disparador automático e o ativa. Posa de pé, com os braços soltos acompanhando o corpo, exposto, pelado entre as plantas que vira crescer desde sua infância. Em algum lugar da casa, haveria outra foto sua, em seus cinco anos de idade, andando pelado pelo mesmo jardim. Põe o celular sobre o chão, agora apoiado na parede, e ativa novamente disparador automático com contagem, programando para que realize múltiplos disparos. Senta-se com as pernas cruzadas para a foto e um besouro pousa sobre seu joelho. Deixa que fique e se se encanta com o verde brilhoso de sua casca. No mesmo segundo, uma joaninha amarela pousa em sua mão, enquanto outra tão pequena quanto, mas vermelha, para sobre seu nariz. Mais besouros chegam, acompanhados de borboletas e outras espécies que não conhece. Vão cobrindo ele inteiro, colorindo seu corpo e o jardim. Vê canários, sabiás e pequenos papagaios descansando sobre o muro. Deita-se sobre o chão, espantando os insetos que o cobrem. Olha para o céu sobre si, onde o azul é riscado de branco por nuvens esparsas. Fecha os olhos e, quando abre, não há mais insetos, nem qualquer outro bicho no jardim.

Corre até o quarto, onde a borboleta azul permanece. Agora, ela pousa sobre o peito pai. O jovem para em frente a porta e se assusta, acreditando que ele não está respirando, pois não há movimento da caixa torácica. Para seu alívio, logo o pai solta um suspiro tão sereno que não é sentido nem pela leve borboleta, que continua em repouso.

Tomado de incomum tranquilidade, volta para ver como ficaram as fotos.  Por mensagem, manda as imagens capturadas para o amigo fotógrafo que custa a acreditar que são reais, e não montagens. Fantástico, esse seu lugar é surreal, ele responde. É chamado para sair para beber, mas não sente vontade. Não quero, mas passa aqui amanhã à tarde. A gente conversa, você tira umas fotos e depois me dá uma carona de volta pra minha casa, o que acha? Recusa, não apenas pelo compromisso de estar cuidando do seu pai, mas também porque vê o sol penetra de fim de tarde que invade a sala e sente-se impelido a deitar ali e ficar. Permite-se descansar, entrega o corpo ao sofá e, sem nem perceber, dorme, tornando-se um corpo nu que pertence à bagunça do ambiente que o acolhe.

o amor é um labirinto e nós estamos todos perdidos nele

o amor é um labirinto e nós estamos todos perdidos nele

Pela hora que a chuva apertou, ele já devia ter chegado para me buscar. O esperava no estacionamento descoberto do prédio principal da faculdade, era tarde da noite, a chuva engrossava e pesava sobre o guarda-chuva, com quatro hastes quebradas que faziam que uma parte sua tombasse e o tornavam pouco útil. Já molhado, decidi me entregar, largando-o ao chão. A tempestade era véu que borrava todas as luzes ao meu redor. Duas delas foram se aproximando e tomando forma dos faróis do carro que seria minha carona. Entrei.

Ele passava um pano pelo interior do parabrisa, na tentativa de desembaçá-lo. Foi mal pelo atraso, deixei você largado na chuva, ele logo disse. Respondi que não importava, mas que eu estava molhando seu carro e não tinha muito o que fazer a respeito, ao que ele não deu importância. Acelerou e começamos a deixar o campus, pediu para que eu deixasse uma fresta da minha janela aberta, pro vidro não tornar a embaçar.

Com essa chuva, está muito difícil enxergar o caminho, disse. E o caminho à nossa frente era, de fato, um breu em que ocasionais pontos de luz de outros carros passavam por nós, deixando um breve traço iluminado. Íamos um pouco além do limite da velocidade e ele não usava o cinto de segurança, apesar dos riscos que a condição adversa trazia.

Faz tempo que o laboratório fechou? Quanto tempo te deixei esperando?

Não esquenta com isso.

Posso ligar o rádio?

Não precisa, prefiro assim.

Cara, eu preciso te contar um negócio. Eu terminei com a Marina, ontem à noite. Dessa vez, foram três meses, menos do que rolou com as últimas, talvez um pouco mais do que deveríamos ter ido. E eu tenho percebido esses ciclos nos meus relacionamentos, sabe? Eu não sei se eu sou o problema ou se as coisas são naturalmente assim. Me diz, você acha que já estamos velhos? Íamos mais rápido e ele demonstrava uma facilidade que poderia ser tida como descuido na direção, mais atento a como eu reagia ao que ele falava, do que ao caminho.

Não sei. Nós estamos chegando aos vinte e cinco, respondi. Eu sei que acreditávamos que a essa altura as coisas já deviam estar resolvidas e que temos amigos que já casaram, inclusive. Mas, sei lá, eu não me sinto resolvido. Você acha?

Talvez eu esteja me precipitando. Eu comecei a preferir acreditar que não existe alguém que um dia vá me completar, ele continuou. É libertador se sentir inteiro por si. Ele tentou ligar o rádio, mas eu segurei a mão dele e pedi para que não o fizesse, com um aceno negativo da cabeça. O ciclo é assim: eu me entrego a um relacionamento, que em algum momento termina. Procuro motivos para que isso tenha acontecido, ponho a culpa nela, depois questiono a minha própria culpa. Nesse tempo, fico quieto e recluso, sem sair com ninguém, tirando alguns lances mais casuais, de balada ou sexo de uma noite. Então passa essa temporada e eu decido me abrir, aceitar alguém. Não por carência, mas por coragem! Nunca vou me sentir pronto para estar com alguém, então me arrisco, acreditando que um relacionamento possa ser feito como uma cooperação entre duas pessoas inteiras e que isso vai nos mudar.  E, enquanto estamos mudando, estamos vulneráveis. É nessa etapa que tudo tem acabado, me deixando no meio de uma transformação que não se encerra, que é interrompida e obrigada a continuar por qualquer outro caminho disponível.

Eu abri o coração pra Marina. Fui compreensivo com todos os defeitos dela e expus todos as minhas próprias falhas e medos. Me desapeguei das minhas certezas porque é só assim que a gente aprende algo. Eu deixei ela entrar.

Íamos rápido demais, naquele momento, mas eu deixei que continuasse a correr e a contar, sem o interromper. O carro parecia deslizar no escuro, nada existia fora do veículo e dentro era só a voz dele.

Precisava falar disso com alguém, cara. Quando eu me senti frágil e entregue, ela perdeu o interesse. Dessa vez foi ela. Em outras vezes, com outras meninas, fui eu. Procurei a minha culpa na situação, procurei algo em minhas ações, aplicando todo tipo de lógica, para entender ao que ela reagia para querer ir embora, tão cedo. Não achei nada! E se o problema for eu, e se for quem eu sou? Agora eu me sinto exposto, com uma ferida aberta à mercê das moscas.

Ficou quieto, o motor rugia mas ele não tomava consciência de que ultrapassava por muito o limite de velocidade. Te entendo, eu disse, o que só me fez sentir mais inútil. O que você vai fazer agora?

Ah, é sempre a mesma coisa. Eu penso que estou andando para frente com o relacionamento e, quando eu vejo, estou de volta no salão principal. Vejo todos os caminhos, falo que dessa vez eu vou escolher o certo. Que vai ser tudo diferente, que virei alguém diferente. Mas eu volto pro mesmo lugar! Sempre termino sozinho, com as mesmas dúvidas. Sério, posso ligar o rádio?

Pode. As caixas vibraram com uma batida grave de um rap com samples de música eletrônica. Eu me segurava com as duas mãos no banco, com medo da velocidade em que íamos, como se isso fosse me proteger de qualquer acidente. Sentia frio, tentava não tremer mas era inevitável. Do meu cabelo, caíam gotas de água. Me diz, onde você acha que estaria, hoje? Onde você queria estar com a sua vida? Talvez a gente devesse se preocupar um pouco menos com onde tudo isso vai nos levar e mais com o que estamos vivendo, com o que foi vivido.

Ele não respondeu, apenas concordou com a cabeça. Eu tremia. O carro vibrava com a música. A chuva não dava trégua e eu não fazia ideia de onde estávamos, naquele escuro todo. Eu continuei. Você entende? Talvez seja um caminho único e as escolhas sejam apenas ilusão. Um caminho em que andamos até a metade, depois até a metade do que sobrou, e até a metade da próxima parte, assim sem fim. Uma eterna transformação. E somos reféns do que sentimos, muito mais do que acreditamos. Você tem um coração grande e se entrega a ele. Vai ser sempre difícil. Senti que ele não falava porque choraria, se o fizesse.

Por um instante ínfimo, voamos. Um clarão de relâmpagos tomou o céu e os trovões encontraram espaço entre as batidas da música. Meu corpo preso ao cinto e o dele flutuando. Sem se importar se estava correndo perigo, suas mãos soltaram a direção do carro e estivemos entregues à natureza. E, quanto mais alto, mais frio ficava e mais eu tremia. Em algum momento que passou despercebido por nós, as rodas voltaram a correr sobre a pista molhada da estrada.

Eu sei que não é fácil.

Chegamos. Parou o carro e abaixou o volume da música, que foi coberta pelo barulho da chuva assim que eu abri a porta do carro. Obrigado por me ouvir, eu precisava mesmo.

Põe o cinto, para ir embora, cara, por favor. Me despedi com beijo em sua testa e um abraço que seguramos por alguns segundos. E passa aqui domingo, a gente continua conversando. Traz a câmera, meu pai tem um jardim bonito. Obrigado pela carona.

todos os lugares bonitos

todos os lugares bonitos

Acho que vamos precisar parar. Eu preciso muito mijar.

Dude, can we pull over? It is just for a second, the guy needs to pee.

O carro para dentro de um dos prédios de estacionamento do campus e seu amigo, quem pediu para que estacionassem, desce primeiro, vai até a sua porta do banco de trás e a abre. Além do motorista, de seu amigo, nos bancos da frente, e dele, que está sentado sobre a perna de uma amiga, em uma posição contorcida para ocupar menos espaço e também para segurar o xixi, há outros três espremidos ao seu lado. Quando a porta é aberta, sai como se expelido pelo carro. É amparado pelo amigo, que o carrega até um canto.

Você consegue se manter de pé?

Eu consigo – cambaleia e seu amigo já se prepara para segurá-lo, mas não é preciso. Sua camisa está com todos os botões abertos.

Você tem que ser rápido, você sabe.

Eu sei.

A menina que estava sentada no seu extremo oposto do banco de trás sai do carro para fumar, acompanhada do motorista.

Abre a o zíper da calça, olha para o chão, fazendo esforço para abrir os olhos. É tarde da noite e está escuro no lugar onde estão. Não há ninguém por perto.

Cara.

Eu sei. Tá indo.

Se a gente é pego, é prisão – seu amigo, de costas pra ele, fica observando os arredores e, de quando em quando, olhando para trás para ver a sua situação. São mais de trinta segundos mijando e não para. Pior que prisão, é taser.

Não olha para os tênis brancos para ver que por alguns instantes erra a mira e mija em cima deles. A urina sai branca, transparente, e a mancha que faz nos calçados parece de água somente. São cinquenta e três segundos de xixi até parar, balançar rapidamente o pau para guardá-lo na cueca e, antes que possa passar o cinto, ser puxado pelo amigo de volta ao carro.

Caralho, irmão, você mija demais.

Entra no carro, senta novamente na coxa da garota, abre o vidro o máximo que pode e dá risada.

We can go now.

 

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