primeira semana do inverno

primeira semana do inverno

voltando pra casa, prometi que seria direto.

quando estivermos no final do crescendo do baterista
eu deixo a guitarra e pego o microfone
subo à beira do palco, pertinho de toda as pessoas da plateia
me apoio sobre as pontas dos meus pés
e grito!

você diz que me perdi
eu nunca falei para onde ia.

me puxou para o canto e me disse que tinha algo a confessar
é coisa séria, é? eu perguntei e só do jeito que me olhou eu soube da resposta
ao meu ouvido, me disse
tem hora que eu também penso em desistir.

vou subir até o topo da montanha
com todas minhas forças
apesar do meu medo de altura
eu que nunca fui de escaladas
vou de uma só vez
e ao final eu
talvez eu
talvez eu grite
que eu
oh
talvez eu grite que eu
você
nós
não
talvez eu grite
que te amo.

voltando pra casa, parei e pensei que, se eu parasse, eu não conseguiria mais.
se eu parasse e entendesse, eu não me mexeria mais.
era certeza.
não significa que eu possa sossegar onde cheguei.
aqui nem está tão bonito assim, apesar do sol amanhecendo sobre a zona leste enevoada ser de um dourado comovente.
eu nunca soube para onde ia.
pararia e não sei dizer o porquê, mas sei que não andaria mais.
então, por favor, se eu voltar a parar
no meio do caminho,
nas baldeações de trem,
de manhã na sua cama,
num domingo largado à minha cama,
nas madrugadas sozinho,
mesmo que longe de você,
me lembre de que não posso mais parar.

ontem você me disse que gosta mais do outono.
você, que antes era uma pessoa de verão.
eu tenho fotos de você em janeiro e você é feliz nelas.
você diz que eu tento segurar o momento
que você, ao contrário, quer apenas um bom banho de mar para voltar contente para o calor do escuro de onde veio.
não, talvez isso fosse antes.
hoje você diz que quer viajar toda a América e se perder em florestas secretas.
que minha tentativa de permanência é agarrar a areia
de uma praia que nem lhe interessa mais,
mas que eu guardo em fotografias em uma gaveta que nunca abrimos.

ele se prepara para uma batalha que, desde sempre, é iminente.
o tempo carregado de tempestade
a umidade grudando na pele
o cheiro salgado que o vento traz de longe
os pelos do corpo até se arrepiam com a eletricidade
mas as nuvens escuras permanecem cobrindo o céu
sem nunca terem chovido.
ele segue disciplinado,
faz o mesmo percurso em sua corrida matinal, todos os dias
mergulha e nada no mar gelado, mesmo no inverno
às vezes o vira-lata o acompanha até a beira
segue seu treino rigoroso na academia,
e medita no chão do quarto antes de se deitar,
tudo para ganhar massa e resistência.
acredita que é importante estar ligado com a natureza
e que o canal dessa comunicação é o corpo
sempre está com os pés no chão.
algo que ele sequer chegou perto de cogitar:
é mais provável que não exista inimigo algum.

primeira semana do inverno de 2018, escrito de dentro do metrô, voltando para casa do trabalho.

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não estou falando sobre amar

não estou falando sobre amar

eu devo ter deixado entrar quando abri a janela, depois de um longo dia refugiado da luz do sol. nem percebi passar por mim. e sem que eu o visse, sem que pudesse dizer qual sua forma, foi tomando todos cantos, e as coisas ao redor foram ganhando um tom claro. tomei consciência do espaço do quarto, e o que antes era lugar passageiro torna-se destino.

não esqueça de regar as plantas. fazer a barba e se olhar no espelho. deixar os olhos caírem sobre coisa alguma e encontrarem repouso desse turbilhão de informações. parar, enquanto arruma o quarto, e ler um poema de um dos livros de cabeceira. tem que fazer tanta coisa, mas é bom também fazer um pouco de nada. que às vezes a vida é viagem rápida que temos que aproveitar, mas às vezes é o que está parado sempre ali que merece nossa atenção.

chegamos aqui e isso é o que estamos vendo. amanhã, a paisagem é outra, o chão sob nossos pés muda. quisera eu perceber hoje o que só vou poder ver com os anos. me contento, no entanto, em compartilhar o que vejo agora. que é pura e autêntica essa nossa meninice, ora imatura demais que nos faz errar, mas tantas vezes oportuna que nos alegra.

lembrar que é tudo bem querer uma vida calma, quando todos os outros estão ocupados somente com a corrida pelo dinheiro. e, quando correr, que corra por sua paixão, sem ligar que doa e destrua.

nada disso é sobre amar alguém, nem sobre o que vem depois. talvez seja sobre o que precede.

estou falando sobre florescer

estou falando sobre florescer

não sei nem dizer do que eu sou, você sabe? não me importa que isso seja uma falha. não se conhecer, não conhecer seus próprios desejos. ainda tenho tempo para saber mais de mim. você vai ter tempo para se conhecer melhor. gosto da sensação de chegar na porta dele incerto do que me espera, do que quero. no fim, minhas mãos sabem o caminho.

sei pouco, mas posso dizer que gosto de observá-lo tirando a roupa, de ver sua cueca cair até os seus pés para arremessada pra o canto. mordo seus lábios, desço minha boca pelo seu corpo. procuro por seus olhos, me agarro às suas costas, sinto as suas mãos.

quando rola seja lá o que for que acontece entre duas pessoas se querendo – querendo se amar, se beijar, querendo meter, querendo se comer – um segurar na mão é uma bomba química.

é esse tesão que me é motor para querer falar e querer escrever.

ele pulsando, e eu deixo de estar em qualquer outro lugar que não bem ali e sou só um turbilhão de sinapses. explodo num emaranhado de tesão, de palavrões, da culpa e do medo que nunca deixam de existir por inteiros, e da sensação que nem nome deve ter, mas que é doce.

sobram apenas estilhaços de mim, numa cama tomada pelo silêncio. vulnerável. um pouco mais quebrado a cada vez, consciente de que me destruo. que, quanto mais quebrado, mais difícil será de se consertar. sabendo também, e apesar disso tudo, que me preservar não é mais uma escolha. é um alívio poder se sentir assim, perder o domínio e estar vulnerável. como um anjo, que sorri quando lembra dos arranhões que carrega nas costas.

pra conversar do amor

pra conversar do amor

me leva junto, que hoje eu não tenho hora pra voltar e quero tanto conversar. subo no palco com você, se isso te der coragem, ouço tua conversa de bêbado de como sou teu amigo viado favorito, dou risada mesmo sabendo que isso está errado. imaturo, ele grita um palavrão no meio da avenida angélica e é cedo na madrugada, ninguém além de nós dois andando, ainda está escuro e frio, as pessoas nos prédios ao redor dormem e o grito ecoa pra longe. porra! finjo preocupação, mas a real é que foda-se, se vierem atrás a gente inventa uma mentira. dá vontade mesmo de gritar. me ajuda que eu sou ruim nas artes, mas tem tanto que quero falar dessas fotos e desse verão que passou por nossos corpos. me ajuda a não perder esse sol, que quero mostrar minhas tatuagens. te tiro de casa pro restaurante de sempre, o melhor que tem, pra falar de quem não beijamos no carnaval e do que nos espera nas terras mexicanas. é tão errado querer (e como quero!) um beijo assim? apareço tarde da noite na sua casa, pra dizer coisas ao seu ouvido e te agarrar. dirijo até o restaurante pra te levar pra comer feijoada no sábado, depois durmo no seu sofá. a gente termina emocionado, falando que a música brasileira é foda, que arrepia na alma. vai, me leva, pra gente conversar.

aí eu te digo que essas tuas perguntas são as mesmas que eu me fiz, que eu me faço. e que desconfio não terem resposta.

e que também suspeito de que não chegamos ao lugar errado. a vida é isso mesmo que estamos vendo.

por tão pouco não nos encontramos na rua augusta

por tão pouco não nos encontramos na rua augusta

(ou cabelo curto)

 

cortei o cabelo na intenção de não ser mais quem eu era, acreditando que a mudança exige ações. levei uma foto como referência de como queria parecer. no chão, os fios que cresceram por mais de um ano.

meu irmão, se você só tivesse desaparecido, nem se dariam conta do seu sumiço. apenas deixar de estar ali. mas eu prefiro chegar com o pé na porta, sol na terra, sol no peito, lua em áries, lua em fogo. decidi me mexer, mesmo que os pés vacilem, até que as pernas se acostumem com a distância e parem de doer. andar até onde eu encontro a mim mesmo. e olha pra ti, pro que te falta, pro que não encontras em ninguém além de ti.

tudo é sobre o movimento, seja pequeno como o dos músculos que armam o sorriso tímido acanhado do moço que com orgulho usa um vestido dourado pra sair à noite; ou rítmico como aqueles que envolvem o corpo que dança alegre leve e solto do jeito que não se espera da dança de um moço (que só quer se divertir); ou é desejo do verão que não acaba, que transborda dos olhos e não se aguenta no torso descamisado dos nossos corpos moços na praia.

enquanto eu escrevo, a operária do sukiya prepara pratos de karaguê, gyudon, bata frita e lamen, suando na cozinha-24h em que não se pode parar. nem posso arriscar adivinhar no que ela pensa, é erro certo. já do lado de fora, o álcool cria pra cada cabeça uma fantasia, todas elas são reais e se encontram numa única rua, convergem nesse lugar pulsante e extraterreno em que cada passo representa adentrar em um universo de eventos improváveis.

me resta subir essa rua.

e gritar a angústia. porque tudo que eu vivi, eu perdi. eu perdi meu cabelo, meu amigo, um infinito de batimentos. eu perdi o amor, a paixão, o tempo,

eu só não perdi a mim mesmo. até que pra sempre eu me perca.

estou mudando. e eu estou prestes a queimar.