estou indo para casa

estou indo para casa

Era um domingo, depois de 9 dias fora de casa, eu me deitei na cama dele, os dois cobertos somente pelas nuvens a um braço de distância. Eu entregava poucas palavras, para que ele pudesse contar de si. Ouvia atentamente o que ele dizia, enquanto observava o céu mudando de cor, do lilás ao marrom, e de forma. Existe esse olhar íntimo, que me assusta e, contraditoriamente, me afaga e acolhe em um sentimento do qual não consigo seguir escrevendo porque me tira o ar. E, a cada vez que perco o ar experimentando dele, busco uma lasca de definição que seja, mas é esforço à toa. Ali se vai, eu sempre querendo mais. Da sua casa, eu lembro do céu, mas não das ruas que nos levam até lá. Como estar inexplicavelmente fora de si, em um lugar fora de toda cidade, e ainda conseguir estar bem para dormir num sono tão inteiro que até os pesadelos tiveram seu espaço? Dormi, sem querer, no seu peito.

Eu queria ser a pessoa de quem vieram essas palavras: eu sou gay. Não me interessa mais ser visto como alguém que nem todos os outros – não sou. Não sou legal apesar de gay. Eu sou gay e eu poderia me apresentar dizendo “eu sou gay, oi” e isso diria sobre minha essência. Não sou também quem foi de salto e maquiagem à balada. Não fui esse homem, mas queria ter sido. Não fui eu homofóbico até os 18, mas sinto o que ele sentiu. Entendo, vejo, sinto e quase consigo tocar na sua raiva e tomá-la como minha, não a reduzo porque a vejo, participo dela lhe dando razões para que inflame e seja a catarse de que precisamos. O que vejo queimar nele, queima em mim, queima em fúria em homens como nós. E, quando nele apagar, que eu seja, ou não só eu, mas que nós sejamos seu safe place, onde ele poderá descansar. Seguro. Livre. Não fui eu que tive que enfrentar a minha casa inteira, mas tivesse sido. Teria sido melhor para mim.

Arthur, Victor e Hie. Goiás.

Em uma brincadeira, um amigo me provocou sobre a distância do trabalho até a minha casa – um caminho longo que ele percorreu vez ou outra comigo, até que se mudasse para perto do escritório, o que lhe dava o direito de caçoar da minha jornada diária. Mesmo assim, eu via vantagens em ainda morar com a família. Ele confessou que sabia, também, dessas vantagens. No fim, que escolhas temos? Se é dinheiro, ou compromissos, ou dependências, ou mesmo falta de alternativas, ora algo nos prende, ora algo nos empurra. Quando esse meu amigo disse do que o levou a procurar seu próprio lugar nessa cidade, o tom de brincadeira deu espaço ao ressentimento adulto de quem cresceu rápido demais. A mim, sobrou um questionamento sobre o qual eu nunca acertarei na decisão – ir ou ficar? Afinal, se mudar vai resolver o que precisamos resolver?

Anna. Houston, Texas.

2014. Ele me deixou no aeroporto e eu estava deixando Houston, voltando para casa, mas não sem chorar. Nos meses seguintes, ele levou outros de nossos amigos ao aeroporto intercontinental George Bush, para que também o deixassem. Quando eu voltei, foi ele quem me buscou e, na hora de partir, novamente me deixou na área de embarque. Ele nos levou com o coração num aperto, choroso, mas com o sorriso sempre afetuoso de quem se importa. Nunca nos deixou, mas nós tivemos que partir. Ainda que me conte de suas novas histórias, de cada beijo que por um milímetro o tenha escapado, nesses seus dias e apuros de hoje, eu não estou lá para poder consolá-lo como deveria. Por mim, ele nunca mais voltaria dirigindo sozinho para casa.

Lisandra. Vão do MASP, São Paulo.

A briga terminou com todos dizendo que iam embora de casa. Cada um dormiu em um lugar diferente – cama, beliche e poltrona. Ninguém fez as malas.

Ju. São Paulo.

Na estrada, de Nova Orleans a Houston, indo para mais uma semana de aulas, vindo de um fim de semana de passeios pelo velho French Quarter. Era espantosa a fervência do jazz escondido dentro da casinha do Preservation Hall, das ruas povoadas por uma multidão querendo extrapolar carregando bebidas à vista, sem precisar escondê-las em saquinhos de papel, e das noites  de Mardi Gras cheia de seios que se mostravam em troca de um simples colar de bolinhas. No hostel que ficamos, eu era o mais novo e parte de mim ainda não entendia o que essa juventude podia significar. Não bebia – legalmente, não podia beber. Apenas observava eles com a pilha de latinhas de cerveja se acomulando sobre a mesa. Faltava eu me apresentar, pra valer, para que eu fosse parte daquele grupo. Pro meu amigo, branco, loiro e de traços delicados, de personalidade vívida e de agressividade pura não-odiosa, com sua complexidade que caminhava entre a sensibilidade artística e a desatenção charmosa, sentado ao meu lado no banco do ônibus Greyhound da volta, eu me reapresentei, inteiro dessa vez. Eu sou gay, eu disse. Senti que era real a felicidade que ele dizia sentir pela confiança que nele creditei. Eu estava, depois de um bom tempo, voltando para casa, acompanhado de um irmão, para gente se perder juntos nas highways texanas.

Alberes, Rodrigo, Wanderson, Eu e André. Houston, Texas.

Há livros que me recuso a abrir como quem para de frente à porta de uma pessoa em que o desejo de se ver é tão intenso quanto o medo do reencontro, porta na qual a mão nunca chegará a bater. Observados pela janela, todos parecem incorporar perfeitamente o ideal de bondade e civilidade que é a camada certa de disfarce para a humanidade que possuímos internamente. Por trás, está o choro que se esconde dos olhos dos outros, a transa sobre a cama do corno, um sorriso proibido, a recaída em procurar saber sobre quem tanto o machucou no passado, a felicidade de brilho ofuscante, as flores em que a coragem faltou para que fossem entregues,  o talento tímido, o desejo mais sórdido e insuportavelmente sincero, a mais quieta solidão, a bendita miudeza da vida. Há páginas que são demais para mim, há casas em que não ouso entrar.

(tudo isso, nossa luta) É para que você poder encher a boca e dizer alto, alto pra caralho: estou indo para casa.

Eu. Praia.
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vertigem

vertigem

De cabelo recém raspado totalmente, os olhos são expressivos, contornados pela sombra que seus cílios compridos formam, a pele é morena e o rosto tem traços finos, mas que expressam seriedade. Já passou dos vinte e cinco, mas algumas pessoas acreditam que ainda tenha dezenove. Veste uma camiseta regata preta, sem estampas e de alças finas, e uma calça jeans com buracos rasgados nas duas pernas que mostram seus joelhos. Os dentes são perfeitos, mas quase não os exibe enquanto tira suas fotos no espelho do elevador, que não teve sua descida, do décimo segundo andar ao térreo, interrompida por outros passageiros.

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texto vagabundo de verão

texto vagabundo de verão

Verão,  começo de janeiro de 2017. O sol cai em dourado sobre todas as coisas, como se vestindo a todos num tema festivo tropical, as pernas brancas refletindo a luz e as bermudas curtas. É tempo de migração, apesar de alguns bichos desorientados permanecerem, desejando que não fosse tão obrigatório estar contente. Ainda assim, essa claridade e esse calorzão, teu riso fácil, nesse suor todo, quase são suficientes para não se importar com nada. (…)

No outono de 2016, depois da trilha e das cachoeiras e de alguns tombos, as pernas tremiam diante da descida pela parede de pedras que dava naquela piscina com a vista mais bonita de todas para o coração verde mais verde do país, onde vários pulavam e contemplavam e se contemplavam em selfies e se divertiam, enquanto me tremia a vontade mas me faltava coragem – um pé que escorregasse seria o último dos deslizes. (respiro)

Alguns dias para o fim de janeiro de 2017 e tivemos só chuva. Meio borrado de cinza de cidade linda com o azul mais melancólico, o verão entra em introspecção num quarto, sozinho, ouvindo elliot smith e pensando em que há sempre um sofá na festa para você sentar e sobrar esquecido, lembrando de cada diabo – que, pro seu terror, talvez seja você mesmo – e que esse calor todo é que traz a chuva e o raio que ilumina o que você tem de mais vagabundo. (…)

No último domingo de sol de janeiro de 2017, não fosse as pedras escorregadias, tivesse eu mais firmeza nas pernas e a água não estivesse gelada daquele jeito e eu teria entrado debaixo da pequena cachoeira. Faltou coragem, apesar de estar em contato com a natureza, envolto em energia de renovação com os pés e corpos molhados na água cheia de vida e movimento, acompanhado de amigos

(meus amigos
quando me dão a mão
sempre deixam
outra coisa

presença
olhar
lembrançacalor

meus amigos
quando me dão a mão
deixam na minha
a sua mão*)

 que me encorajam e me dão a mão para encarar o que o medo me impede de fazer. Congelado, sinto na boca o gosto do risco que não experimentei e lamento o momento perdido – mas confesso a felicidade que há, apesar dos desperdícios e dos não-vividos. (respira)

O verão de 2017 ainda não acabou e nas ruas da cidade linda sem praia as pessoas andam nos skates, de torso nu, e ainda vão suar por mais alguns meses.(…)

Se perguntarem do verão de 2016-2017, vou dizer que quis cair dentro de um olhar que se prolongou por estações e que se tivesse durado um pouco mais, se eu tivesse me mantido encarando, encantado, pela menor fração de tempo que existe, se eu não tivesse escorregado já no limite, eu teria mergulhado de cabeça em cachoeiras da altura dos céus (com todas as cores e chuvas que esses céus tiveram nesses dias de calor). Sem mais temer, quero terminar o verão assim, mergulhando em águas frias, em você, em mim, em pura vida. (solta)

* poema de Paulo Leminski

o furacão leva todos

– porra, cara, de repente eu sou furacão e não sobra nada. quando não sou visto por ninguém a não ser por mim mesmo me encarando num espelho quebrado, surgem algumas dessas ideias. de que tocar violão para a música se perder antes de alcançar qualquer ouvido vivo é de uma poesia de significado tão raso quanto qualquer coisa que transcrevi nessa juventude, sempre profundamente enganado ao pensar estar certo do que queria dizer. nem nunca soube tocar violão e nunca entendi porque quis tocar bateria morando nesse apartamento pequeno. foram muitos discursos infindáveis para compreender que a resistência a me calar era somente por não querer enfrentar todas as confissões que eu tinha e que são o que se resta quando se esgotaram as mentiras. mesmo que elas não tenham valor, nesse fim de mundo que me cerca, são de pronúncia dolorida. vícios e prazeres, que eu não digo, me movem mais do qualquer motivação que se possa pronunciar. eu sou, mas incerto do querer ou não querer ser, todas essas coisas que não consigo dizer. eu calo, não agora. e seria bela, não fosse por sua obviedade atroz, a minha história, do consertador de computadores que sonhava em ser poeta. criança chorona que encheu a paciência dos pais e nunca se fez confortável no mundo em que nasceu. adolescência fora do lugar e mal resolvida, ecoada em tantas conversas do adulto que virei. de ossos de mais angústia do que cálcio.  viajador das estradas que se enjoa com o movimento dos ônibus. pancadas rápidas que derrubam cidades. mergulhador que tem medo da força com que o oceano o puxa para baixo. nunca muito mais do que algumas referências soltas que não conseguem se conectar para virar algo inteligível. eu nem sei mais, cara, sabe? o ano acabou, é um milagre que ninguém tenha morrido, eu ainda não quis aprender a fumar e deve existir algo de bonito nisso tudo, mesmo que seja só na superfície. e, se for realmente só na superfície, se for assim tão simples e tão perto, é até melhor.

segredo de torcedor

(contado no silêncio)

palmeiras foi campeão do brasileiro de 2016, as ruas se encheram de alegria. desceram a paulista tantas pessoas na euforia sufocada por mais de dez anos e andavam em explosões de fogos de artifício, que até nos assustavam. nem tudo era belo e eu estava feliz, indiferente à qualquer feiura que nos topasse. eu nem era dali e nem nunca fui daqui, mas tanto faz. ainda é tarde, para quem quer ficar e não se importa de sair só quando for cedo. a água gelada que caía na noite de fim de primavera sobre aquelas pessoas saudáveis que iam pela avenida era muito alegria. e, para ficar, não precisa nem falar. existe tanta palavra na ausência da palavra, tanto beijo na distância entre as bocas, tem um todo no espaço (sideral astrológico) entre os momentos. que o pranto quieto diz tudo. que o abraço mudo é pra acalmar cá. que o nada é tanto. diz na voz rouca de quem perdeu toda a garganta no grito (de vitória! de loucura! de glória! de bravura!). diz na voz mansa, que é só o que a gente precisa. diz nada não, que assim tá bom. palmeiras foi campeão, eu sou corintiano e não podia estar mais feliz.